22.2.09

da linguagem, das atuações, do Oscar e do caso Milionário

sábado de Carnaval em São Paulo e o cinema repleto de conhecidos, como se todos tivéssemos sido convidados para a mesma festa.

e esse blog em constante desatualizacão (quem cobrou-a está desde já desafiado a ler até o fim e polemizar ao final.). então vamos lá:


da linguagem


em janeiro, assistir a A Bela Junie e Um Conto de Natal deram uma bela amostragem do que pode ser a linguagem para o cinema francês contemporâneo – e não só o francês. Junie, com seus variados recursos do que poderia ser chamado, muito livremente, de “digressão poética”, sem dúvida leva em frente a carreira de Christophe Honoré e encanta o espectador com sua maleabilidade no trato com a organização dos códigos narrativos contraposta ao rigor do caminho emocional dos personagens - que advém, cremos, um bom tanto da obra literária no qual o filme se baseia. Inácio Araújo, mais atento e inteligente do que esse autor, aponta para a “grandeza nos gestos” dos seres em cena, ao mesmo tempo que chama o filme de um “exercício de liberdade”. é isso.


já o Conto é uma bagunça, quase um caos. alguns detratores não podem vê-lo pela frente, provavelmente crendo-o histérico e esquizofrênico. na experiência intelectual de assisti-lo (que, afinal, é o que conta um bom tanto) uma estranheza levemente repulsiva logo foi substituída por uma atração estranha. de fato a história vem e vai e é superpovoada de dramas e pequenas reviravoltas. mas o excesso, de alguma maneira que não saberei exatamente esmiuçar, vai se encaixando em si próprio, fazendo emanar de dentro de si a sua própria coesão. resumo da ópera: é possível gostar de estar com aqueles personagens (ainda que com ódio) e flutuar na correnteza violenta da narrativa. acima de tudo, me parece fascinante, pois também árdua, a façanha de instituir a desordem como a ordem reinante.

na contramão de um Festa de Família (tornado por infortúnio um paradigma possível de filmes de “famílias acertando contas”) ou do mais próximo (no espaço e no tempo) Feliz Natal, não há aqui um conflito que eclode a partir do encontro. os conflitos já estão na mesa, nas caras, nas cartas, no trato, nos cigarros, nos olhares, explodidos e reais. acontece, então, o estágio seguinte, onde o desajuste é um novo ajuste, o cinismo é um tratamento possível, o ódio é uma forma concreta e aceita de amor.

Catherine Deneuve e Mathieu Amalric, mãe e filho em plácido embate semi carinhoso – pois estabelecido no ódio mútuo como estado simples de ser das coisas – são a demonstração concreta dessa possibilidade, alem de uma lembrança sempre feliz e necessária do inexorável poder dos (bons) atores.


e Domingos Oliveira, em Juventude, tão longe e tão perto desses dois filmes franceses, também possui seus modos peculiares. que já foram quase incriticáveis em Amores e em Separações, que já foram quase inaceitáveis em Carreiras, mas que em Juventude (um pouco como em Feminices) equilibram-se muito bem no fio da navalha (fio esse assumido e quase planejado pelo diretor). suas liberdades de linguagem são lidas também como tosquices, mas diferente dos casos onde incomoda de fato, aqui elas aparecem quase como matéria indissociável do filme em si.

o que nos coloca numa posição incerta entre cobrar dele o que se poderia chamar de mais “rigor”, “capricho”, ou simplesmente um melhor acabamento, e a dúvida se essa “melhoria” não mataria consigo a espontaneidade e a energia vital que dão a tônica de Juventude e o conduzem num caminho crescente de humor incomparável e emotividade das mais sinceras.



das atuações (e também do Oscar)


alguém aí ainda precisa ser convencido do tamanho da proeza que Tony Ramos e Glória Pires REPETEM sem qualquer prejuízo reiterativo em Se Eu Fosse Você 2? sabe quando a gente ama Meryl Streep por se entregar sem pudores a um filme como Mamma Mia, decidindo deixar de lado qualquer seriedade que a acompanhe e enfiar o pé na jaca com propriedade? pois é: esse “despirocamento” com conhecimento de causa e sem medo é o que dá ao casal de atores um lugar eterno entre os mais brilhantes momentos de cinema cômico já produzidos nestas terras. que é cinema popular, sim, do tipo que não ofende, agrada e do qual precisamos, sempre. pois se é o próprio Daniel Filho quem diz “eu faço pizza, mas das boas”, quem vai dizer que não gosta de pizza (e das boas)?


e nessa brincadeira toda de Oscar, talvez fosse digno começar do começo e falar de Angelina Jolie, atriz que em A Troca faz aquilo que se espera de uma atriz fazendo tal papel num filme de Clint Eastwood. confesso uma relação de atração e repulsa com Angelina, que me faz vibrar por sua sensualidade incontrolável em filmes no quais ela empunha armas e salva o mundo (mesmo que eu tenha visto muito poucos desses filmes) e que me faz temer o constrangimento quando ela quer brincar de “atriz séria”. mas é bastante claro que Angelina passa longe desse constrangimento e que pauta o centro nervoso sem o qual este belo filme não existiria – e isso a despeito de sua atuação parecer, sim, gritar “Oscar!” a cada segundo.

ademais, não há hoje na América um narrador clássico e de histórias caprichosamente urdidas e preciosamente morais como Clint Eastwood. a maneira como A Troca vai ficando e ficando na memória só comprovam a infalível validade dessa afirmação.


e como ela até já foi mencionada, tem aquele assombro que é Meryl Streep, essa mulher que se não vendeu a alma pro diabo talvez tenha sido mesmo inventada por ele. Dúvida é uma peça de teatro de vigor (profundamente mal encenada no Brasil, há alguns anos) que precisava apenas manter-se nos limites claros de suas possibilidades para triunfar no cinema. isso significaria não ir muito alem das qualidades dramáticas do texto e recrutar os melhores atores disponíveis para garantir sua vida e força e cozinhar em panela de pressão sua ambigüidade.

já ouvi muitos reclamarem de um final pouco sutil e algo redentor (que de fato está lá), mas é necessário dizer que o filme resultou, felizmente, honestíssimo consigo mesmo. é a lição de casa feita com louvor, preenchendo com competência suas pretensões. o tempo de projeção voa nas mãos dos ótimos Philip Seymour Hoffman e Amy Adams (que talvez tire o Oscar de Penélope Cruz), da desconcertante cena que Viola Davis enfrenta com corpo e alma (mas cuja repercussão certamente é maior do que seu tamanho real), e da magnitude quase impossível da Sra. Streep.

às vezes nós passamos horas com um grupo de bons amigos discutindo idéias ou outras coisas que nos alimentam o espírito e, findo o encontro, nos sentimos satisfeitos pelo tempo gasto falando de coisas que são mais do que veleidades, experimentando uma discussão consistente, uma recompensadora troca de conteúdo (mesmo que não demoremos a esquecer ou suplantar o que foi efetivamente discutido). Dúvida pode ser tão bom como um desses momentos.


e há as conversas cheias de buracos e que vão se revelando francamente desinteressantes e impalpáveis. ter que saber sobre alguém que, com prepotência ingênua ou planejada, não nos soa verdadeiro, porque não dos deixa ver além do verniz e daquilo que é minuciosamente calculado para aparecer – ou parecer.

O Leitor é isso, um filme que não pára de pé. cenas curtas e escritas de modo rasteiro, dando de informação somente o necessário para que se possa passar para a seqüência seguinte. aquela trilha sonora reiterativa com que Stephen Daldry já gostava de nos irritar desde As Horas. um painel histórico oco, um filme que atravessa longo período de tempo sem nos deixar entender ou partilhar dos dramas essenciais que o estão movendo. um exemplo de procedimentos narrativos que se querem sutis ou (argh!) elegantes, mas que são somente incompetentes.

é justo pensar que se O Leitor não tivesse por trás de si o trator de guerra dos produtores Weinstein, e, portanto, não tivesse ganho destaque em indicações ao Oscar, ele passaria francamente despercebido, em lugar de ser irritante. Daldry, o diretor entrando nos sapatos de marionete que um dia foram de Lasse Hallstrom e seus filmes anódinos e oscarizáveis (alguém aí se lembra do “indicado ao Oscar” Regras da Vida (The Cider House Rules)???) feitos para os mesmos irmãos Weinstein, nos brinda com o espetáculo da indiferença. e é uma pena que, nisso, leve com ele Kate Winslet.


dona de perturbadora composição e progressão de personagem em Foi Apenas Um Sonho (filme que, pasmem!, tem crescido com o tempo - ou ao menos em comparação aos que o venceram na corrida por prêmios), ela periga seriamente levar para casa um Oscar por uma atuação que mal consegue existir, aprisionada por um imediatista e superficial modo de narrar.

enfim, pense no filme que, como drama, drama histórico, história de amor, drama de guerra ou o gênero de sua preferência, tenha realmente, mas realmente elevado sua experiência de espectador de cinema, do modo mais profundo possível. provavelmente ele te ajudará a dar a medida do quanto O Leitor é ruim.


mas prêmios – e o Oscar com absoluto destaque entre eles – são mesmo motivo para animar os ânimos de cinéfilos. não resta dúvida que determinadas obras seriam lidas e discutidas e aceitas de modo muito diferente se não fossem por esse adorno. e o Oscar em si é apenas a exemplificação por assim dizer mais sazonal da implacável armadilha da expectativa.


O Casamento de Rachel, cheio de boas recomendações, é um adequado demonstrativo de como esperar algo de um filme (ou do que quer que seja, na verdade) pode ser o veneno que corrói impiedosamente o prazer de usufrui-lo. não me pergunte porque, mas eu entendia na minha cabeça que este tão propalado “retorno à boa forma” de Jonathan Demme seria um desses raros filmes (semi) independentes norte-americanos feito com real inteligência e inquietação. eu queria ver Garotos Incríveis.

agora, isso posto, é (foi) inevitável que um roteiro desigual, que alterna excessiva exposição com pontos sempre demasiadamente inflamados de crise, enquadrados por uma câmera que talvez tentando ser “espontânea” seja quase irritante em seu desregramento, tenha resultado numa experiência frustrante.

nós que já gostávamos de Anne Hathaway não é de hoje continuamos dispostos a aplaudi-la, sim. mas também sentimos saudades do Arnaud Desplechin de Um Conto de Natal (e de seu rigor descontrolado) e do John Cassavetes de Uma Mulher Sob Influência (e de sua espontaneidade tão inescapavelmente poética, tão silenciosamente retumbante) ao ter que encarar mais uma família lidando com a exposição inevitável de seus traumas e ressentimentos, de modo excessivamente “verdadeiro".


O Lutador é o mais equilibrado e (nem por isso, mas também coincidentemente) melhor filme de Darren Aronofsky. mas é tão bom quanto outros bons filmes sobre perdedores que já vimos hoje, ontem e sempre.

o mais admirável sobre Marisa Tomei é que ela não envelhece aos 44 anos, mas se a necessidade era de preencher as vagas ao Oscar de atriz coadjuvante, por que mesmo que ela está aqui e Cate Blanchett, por Benjamin Button (filme que, passados os dias, ficou no mesmo patamar de competência justa sem brilho, com alguma essência capaz de uma sincera emoção reflexiva), não está?

fato é que os holofotes do momento tendem mesmo para Mickey Rourke e histórias de retorno e superação fazem parte do modus vivendi estadunidense, então vale dizer que a grande proeza dele é simplesmente estar aqui. porque se esse é literalmente o papel da vida de Rourke (em tudo que espelha sua própia existência), a disponibilidade de dar-se a esse papel, o que ele faz com inegável entrega física e adequação emocional, é em si sua grande atuação. e esqueça quem diz por aí que o gênio indomável do talento de um grande ator está de volta – isso é conversa pra convencer votante de Academia Cinematográfica.


nessa seara complexa de louvores que criam expectativas que criam decepções ou potencializam paixões, Milk – A Voz Da Igualdade é uma pequena e discreta jóia. se suas algumas soluções fáceis e reiterações tolas são seus pequenos deslizes, eles não ofuscam a leveza e naturalidade com que essa história é contada. Gus Van Sant sabe o que faz e trabalha em razão de uma fluidez narrativa e de um brilho emocional que derivam do e constituem o melhor “cinema comercial” (no sentido de ser, em linguagem, realmente acessível a grandes platéias, diferentemente de Elefante ou Paranoid Park) que se pode ter, nesse caso.

ser um portentoso e feroz libelo político é a grande ameaça que ronda Milk em sua existência primeira como obra cinematográfica coerente e triunfante. e por mais que a sensação de que o discurso esteja sobrepondo-se ao drama ronde a experiência de assisti-lo, o filme chega a seu final sem medo de ser feliz (ou otimistamente triste) e é agradável e satisfatório como a boa companhia de um verdadeiro amigo – aquela que Sean Penn, irrepreensível e irrefreável, faz crer que Harvey Milk possa ter sido.



o caso Milionário



uma pessoa que você conhece numa festa e que possui um tipo específico de ser e agir, alguém cujo padrão de comportamento você reconheça sem muita dificuldade. uma pessoa que é espalhafatosa e grandiloquente, que aparenta um jogo de cena social que provavelmente não encontra muito estofo no dia-a-dia. alguém de gestos amplos, que fala alto, sem medo de ser feliz. mas que é alguém que você claramente reconhece como uma pessoa para a qual você terá paciência por um curto prazo de tempo. com quem você não poderia realmente relacionar-se, porque tudo o que nela soa atraente e divertido no afã de uma festa você também reconhece como francamente irritante ou insuportável.

assim é Quem Quer Ser Um Milionário?. Danny Boyle, um diretor desde sempre irregular, foi esperto. deixando de lado a discussão que necessariamente é pautada pelo estrondoso sucesso do filme no que diz respeito a prêmios e público mundo afora e pelo fato de que ele provavelmente vencerá o Oscar de melhor filme, qual seja a de debater se a obra em questão é fruto da despretensão ou de um apurado cálculo, pensemos no que está na tela.

na base, a esperteza do roteiro, já que a maneira como ele é construído poderia ser apontada como "uma boa sacada" em qualquer pitching sobre a idéia - e não é de se negar que seja mesmo. os expedientes utilizados em seu desenvolvimento, no entanto, são todos aqueles mais básicos e óbvios, ruins a grosso modo, mas utilizados espertamente.

fazendo dele um filme, Boyle usa tudo o que pode – cores ultra trabalhadas, enquadramentos pretensamente estilizados, câmeras soltas e frenéticas, ritmos acelerados por música, edição velocíssima e muitos afins. é um filme desmedido, histérico, ruim. mas se o que conta é mesmo a experiência (intelectual e emotiva), é um filme de um apelo tão básico quanto descontroladamente irresistível.

desigual, começa calcado em uma tensão atraente que se dá pelo estabelecimento de seu esquema (que não tarda a se mostrar esquematismo) narrativo e pela personalidade cativante de seu protagonista, Jamal, convidativamente frágil aos 18 anos, na pele de Dev Patel (por que mesmo ele não está indicado ao Oscar?) e desabusadamente apaixonante através do garoto que o interpreta em sua primeira infância.

todo o bloco do meio, que dá conta de demonstrar os infindáveis sofrimentos pelo qual Jamal passa incólume como um anjo de pureza, roça a chatice. mas a sem vergonhice com que ela é chutada ao final, rumo ao clímax do herói e à catarse coletiva que se ergue a sua volta, é capaz de emocionar de modo assumidamente cafona até os mais renitentes.

(talvez na confissão mais pessoal que esse blog jamais tenha feito, ouso dizer que, sofrendo com as muitas reconhecidas “ruindades” cinematográficas a que Milionário me/nos expôs, meu corpo não se conteve em tremer de leve e quase chorar de verdade durante o tão irreal mas tão corpulento êxtase em torno do qual os elementos do filme revolvem no clímax da trama, criando uma verdade violenta e tão somente cinematográfica em suas mentiras, em sua manipulação fácil e em sua sentimentalidade mais primária no retrato do triunfo da exceção e do “impossível plausível” que são a base mesmo das catarses mais primárias e mais inescapáveis).

gostar de ver Milionário, portanto, é simples como gostar de ver o próprio Show do Milhão na televisão (e de torcer por seus competidores). ou gostar de ver outros programas reconhecidamente ruins, como até mesmo aqueles que vendem centrífugas mágicas ou modeladores de abdômen.

que o filme esteja no Oscar e que arrebate platéias é tão compreensível e normal quanto contos de fadas e suas regras, quanto os entretenimentos populares que com mais ou menos inteligência sempre fizeram a glória do Oscar e do próprio cinema.

Milionário não é nocivo nem justifica ataques tão ferozes. ele é excessivo e desbaratado como o é um Moulin Rouge, por exemplo. excessivo e desbaratado como são determinadas socialites dando entrevistas bêbadas em programas de colunismo social na TV. tão excessivo e desbaratado que termina com uma deslocada (e, em todo esse contexto, pertinente) seqüência musical.

pra que resistir a essa patacoada?





PS:
valendo a pena ecoar e endossando, sobre Milionário, na imprensa norte-americana (em tradução livre):

da New York Magazine
A coisa toda é irresistivelmente ridícula.

do Los Angeles Time
Boyle foi acima de tudo corajoso com esse filme. Ele ousou utilizar elementos cinematográficos veneráveis em quantidade próxima à vertigem, desafiou-nos a dizer que não ficaríamos movidos ou envolvidos, desafiou-nos a dizer que somos escolados demais para cair em truques que são mais velhos do que nós mesmos."

da Slate
Uma estilosa e ingenuamente construída porção de nonsense, uma bugiganga reluzente, um filme que é tão implausível quanto irresistível."

da New Yorker
O que É surpreendente é a energia sem constrangimento que Boyle devota à sua busca pelo óbvio; não há nada errado com o formulaico, aparentemente, desde que você traga a fórmula à ebulição.

9.2.09

toda bêbada canta

(a partir dos 35")

3.2.09

derrocada, mas com sex appeal



o que me parece especialmente relevante em Revolutionary Road (onde, meu deus, foram buscar esse horrendo título de Foi Apenas Um Sonho??!), sem muita reflexão aprofundada sobre o filme e seus efeitos (ou defeitos), é a maneira como, em algum ponto, ele consegue ser ambíguo sobre aquilo que aborda.

além disso, seus atores.

se pensarmos no Sam Mendes que execrou com acidez embrulhada em sarcasmo esperto o subúrbio norte-americano e suas "criaturas" em Beleza Americana, onde a noção de felicidade parecia inevitavelmente inalcançável ou distorcida, esse novo filme abre uma janela para a possibilidade.

é profundamente moral, todavia, e parece deixar a mancha como imagem síntese – há coisas que não se limpam ou negligenciam, ponto. mas é preciso dizer que não são poucos os momentos em que se pode sentir os personagens ou simplesmente satisfeitos com suas vidas ou, o que é bem mais interessante, intensamente em dúvida.

e, correndo o risco de isso dizer mais sobre o espectador do que sobre o filme (como quase sempre, de todo modo), não é ofensivamente explícito que a obra ou seu(s) autor(es) estejam julgando. em certa medida, encampa-se a dúvida, não obstante.

a “vida no subúrbio” ou a “vida familiar” ou a “vida de aceitações” nem sempre possui o peso mortal da “vida de desistências e frustrações”. em breves momentos, frestas apontam para uma oscilação. em outros, a “frustração” deixa de ser frustração na medida em que quase se transforma em uma resignação consciente e capaz de (alguma) plenitude.

permitir que a realidade se sobreponha aos sonhos é o pecado supremo para uma alma esclarecida ou é o jeito mesmo que as coisas são (ou acabam sendo)?

a mim, Sam Mendes parece permitir que a contradição aflore.

nesse caminho, Kate Winslet e Leonardo DiCaprio parecem ter momentos em que são donos completos de suas verdades. no que pese um roteiro que os faz serem sôfregos e dolorosamente óbvios nos pontos chave de encadeamento do conflito central, há cenas ali belas e assustadoras.

(e com os dois, a crise pode ser sempre e também sexy!)

a briga final e definitiva do casal, por exemplo, salta da tela e ressoa como um raio. estarrecedora.

Revolutionary Road não é, definitivamente, um grande filme porque não luta com bravura contra seus defeitos. e são altas as probabilidades de ser esquecido logo. mas, hoje, há ali coisas que ficam na cabeça e pelas quais ele talvez deva ser visto.

31.1.09

arroz

quem não esteve agora há pouco na apresentação que Damien Rice fez naquela casa de espetáculos de Moema com nome de banco perdeu um enorme, um tremendo show. um verdadeiro acontecimento.

e tanto melhor porque expectativa nenhuma faria supor a efusividade que, sozinho com seu violão, Damien seria capaz de expor e provocar. que seu one-man-show seria tão impecável, sua voz tão ampla e que suas belas, arrebatadoras e delicadas canções seriam tão incendiárias ao vivo quanto já pareciam em disco, mas com o acréscimo insubstituível da tal união dos corpos.

que se parece (e é) um velho clichê dizer que o homem vale por uma orquestra inteira, quem suporia que o irlandês franzino que entrou no palco mudo e inundou de música o salão de uma histérica platéia ganha a priori, seria ele também um contador de histórias e um piadista de carisma explosivo. e, evidentemente, um músico capaz de entortar o mais alheio dos humores.

sem dizer que nada podia preparar a platéia para lances como mandar apagar todas as luzes da casa para apresentar determinada música, cantar no microfone do violão em outra, convidar quem quisesse subir ao palco (e, acredite, subiu MUITA gente) para cantar com ele e, no que talvez tenha sido o mais surpreendentemente simples recurso da noite, mandar desligar todos os microfones, vir à boca de cena e fazer os espectadores calarmos sem querer querendo para ouvir atentos um de seus maiores sucessos, a irresistível Cannonball.

depois do desarmado e sincero “it’s been amazing, thank you very much” (e não há como negar que tinha sido mesmo) o bis era quase desnecessário. mas trouxe Max de Castro ao palco para Desafinado, deu ao público a inevitável The Blower’s Daughter e fez Damien criar uma grande e espontaneamente roteirizada cena de bebedeira (mais uma vez chamando gente ao palco) para terminar tudo com Cheers Darlin'.

quem foi essa noite à casa de espetáculos com nome de banco saiu de lá feliz. e sentindo muito por quem não pôde estar presente.





Damien Rice e seu coral no palco do Citibank Hall




PS:
e acredite se quiser, mas a usual e horripilante disposição da platéia em mesas estava eficazmente substituída por filas simples e louváveis de cadeiras.

27.1.09

the sopranos

a notícia é velha, mas ainda vale o comentário.

se alguém aí duvida que a Máfia (essa com letra maiúscula, no sentido mais amplo e institucional do termo) ainda existe e atua, é só lembrar de Harvey Weinstein.

porque não é brincadeira o homem ter tirado Batman da disputa do Oscar e conseguido colocar The Reader - que ninguém precisa exatamente ter visto para saber que não é um filme bom.

(e a inclusão ou não, aqui, de Batman não é discutida em termos de merecimento, mas de favoritismo).

preguiça de Heath Ledger ser favorito em ator coadjuvante, porque desde Brokeback Mountain ele faz caretas muito bem, fingindo profundidade. mas orgulho de ver Robert Downey Jr. ali, por um papel tão agressivamente bom em um filme tão irresponsavelmente divertido quanto Trovão Tropical.

agora, será que ninguém percebe que a verdadeira alma de O Curioso Caso de Benjamin Botão, aquilo que dá sustentação, eixo e equilíbrio ao filme, que irradia força e verdade para sua trama ampla e dispersa, que é capaz da emoção (ainda que consideravelmente piegas mas nem por isso menos emocionante), é CATE BLANCHETT??



mas ficamos felizes que pelo menos Taraji P. Henson tenha garantido seu lugar.

15.1.09

dias de Paris - 3

daí o 3º dia de Paris é o final.

faço check-out para encontrar Thereza já sentada na escada de meu hotel, aguardando-me. damos uma olhada na compra de uns últimos dvds e vamos almoçar em St Germain.

de lá, já andamos de volta ao hotel, atravessando o rio uma última vez e achando que essa cidade... enfim, é essa cidade!

cada um para seu lado: Thereza para Londres, eu para (tentar) voltar a SP.

vôos cancelados, horas e horas de atrasos e filas. a viagem de volta foi tão infernal que não merece relato.

e daí acabou.

bora falar de cinema, de novo?

(afinal, esse blog ainda não teve a dignidade de fazer sua lista de melhores do ano...)


pela atenção, obrigado.

14.1.09

dias de Paris - 2

o acordar não é propriamente cedo. na hora do almoço, encontro Thereza para comermos defronte à Commedie Française (pensando em Um Lugar Na Platéia). em seguida, caminhamos pela St Honoré para comer doces em templos do chocolate gastronômico (não à toa nem injustificadamente, o subtítulo que a confeitaria levava era “poesia e chocolate”).

depois da loja trendy, o sol incide na Place Vendôme de forma precisa e de arrombar a retina de quem vê.

mas fica ainda melhor no Jardin de Tuleries, de novo ele, coberto por neve e com lagos congelados (sobre o qual andamos). o sol fica laranja e o Jardim rosa (e o céu qualquer coisa entre os dois).

Paris é injusto, diz Thereza. um momento a se reter.

oriundos da poesia sem tempo, encontramos o trânsito da Concorde, sob os últimos raios do sol quase vermelho. vamos ao cinema, porque Two Lovers nos aguarda, afinal - e não nos decepciona nem um milímetro, nos surpreendendo e dando assunto para outras longas caminhadas.

só nós não entendêramos que hoje, sábado, Pina não se apresentava, o que nos fez encontrar o Theatre de Ville desoladamente vazio.

ao lado, o Café Sarah Bernhardt nos acolhe para o jantar.

Gabriela, que estava em Berlim e que agora está em Paris, como eu, junta-se a nós e desviamos do Marais para um futuro incerto de encontro com Natalia e outros, em St Germain. esse encontro não se concretiza lá, onde ficamos por um tempo em um grande sebo. mas nos leva caminhando de volta para ainda alem do Marais, onde chegamos após três horas do início da jornada pós-jantar - e inevitavelmente cansados.

a meta é uma balada chamada Alimentacion Generale, onde um clima meio Vila Madalena impera e franceses se remexem muito ao som de ritmos predominantemente latinos (incluindo um certo samba). ou isso é o que nos é dado ver no pouco tempo em que ficamos por lá, já que, aqui também, fecha-se frustrantemente cedo (em pleno sábado).

alguns quarteirões pelo entorno só faz o momento passar de vez e o cansaço de longuíssimas caminhadas ganhar corpo, literalmente. eu e Thereza despedimo-nos dos demais depois de um crepe e lutamos por um táxi (conseguindo-o não sem certa dificuldade) que nos leve de volta ao hotel.

dias de Paris - 1

Pirâmide do Louvre pela manhã e aceitar ser turista com Mayara, Franck e Camila, que, sim, ressurgiram uma vez mais!

antes, escuto Beirut e a trilha de Canções de Amor (tomando a liberdade de juntar As-Tu Déjà Aimé? com O Homem Velho, já que, não parece, mas são primas distantes) e o Jardin de Tuileries fabrica 35 filmes na minha cabeça, cenas lindas e histórias que alimentam a alma e jamais existirão de fato (porque já existem em pensamento ou porque nunca existiram mesmo).

andamos até a Notre Dame, atravessando a Pont Neuf. faz sol em Paris e Paris é sempre inacreditável. vamos até o Jardin de Luxembourg e de lá tomamos o trem até a Torre, onde não subimos mas pela qual atravessamos o rio em busca do ângulo mais fotograficamente clássico.

pelo rio e pela George V até a Champs Elysées, onde almoçamos.

fotos no Arco e, a essas alturas, é quase fim de tarde e Thereza chegou finalmente, para semi-descrença geral.

volto ao hotel para encontrá-la e me despeço do trio sem saber que já não mais nos encontraríamos em Paris.

Thereza, enfim. a pessoa-começo da viagem toda, mas que só agora chega, no fim. Thereza e eu temos, portanto, muita conversa para pôr em dia, mas muita mesmo.

faz frio, o sol vai embora, mas andamos pelo Palais Royal, pelos entornos da Opéra, Place Vendôme, Place de la Concorde e toda a Champs Elysées, sem parar. Ethan Hawke e Julie Delpy não são páreo para nós.

paramos na Virgin e na Fnac, cheias e cheias de promoções. compramos Pariscope e, sentados diante de um capuccino de preço exorbitante (e minha avó diria, com toda e absoluta razão, que se está pagando pelo local, por sentar-se defronte da Champs Elysées, ver as pessoas, estar aquecido, enfim – o café é o de menos) nos maravilhamos com a programação de cinema de Paris. relembramos, entusiasmados, Mostras, diretores e quase que a história do cinema ali naquele guia de programação.

constatamos, por fim, que não há mais tempo para tentar ingressos de Pina Bausch – tarefa que deixamos para o dia seguinte.

então metrô para o hotel e já são 22h. meia hora para troca de roupa e caminhamos nossas pernas fora em direção ao Marais. comemos em um mais do que agradável café, falando sobre a vida e suas paixões. sentamos no bar La Perle para uma cerveja, que é tudo que conseguimos antes de fecharem o bar e nos expulsarem, minutos antes da 1h.

todo o entorno parece querer fechar também, junto com o metrô, então caminhamos a St Michel, onde tomamos outra(s) cerveja(s) em outro bar, infinitamente menos charmoso.

voltamos mais uma vez caminhando e morrendo de frio na madrugada de Paris.

dias de Berlim - 10

a perspectiva de ir embora de Berlim já parece desoladora. mas é momento de pôr ordem nas malas, enfrentar a ressaca e fazer check-out.

deixo o metrô de lado e ando, querendo ver os prédios, as ruas e as pessoas, uma vez mais. o frio já nem parece tão cruel ou então meu casaco novo me faz bem.

quase 3 km me levam ao Zur Ietzen Instanz, o restaurante mais antigo de Berlim, onde encontro Flávia para a última de nossas refeições típicas. o lugar está lá desde 1621. você aí consegue conceber um restaurante que está lá desde 1621?? nem eu.

mas ele está. e serve tradicionais pratos de porco, batata e repolho, porque hoje a brincadeira é comida alemã mesmo (e em porções semi-colossais).

de lá, metrô de volta, porque agora o frio já parece incomodar. paramos em uma loja de souvernirs, porque é inevitável viajar sem fazê-lo.

mais alguns quarteirões pela Friedrichstrasse levam à esquina onde me separo de Flávia, grande companheira de viagem e de vida, minha família, ex-vizinha que agora fica.


(lá na nossa cidade, as festas na minha casa, os cafés, bares, baladas, restaurantes bons e típicos em almoços de final de semana, a sobremesa de banana do Gopala, a Mostra e os shows, a Paulista e a Augusta, as risadas, as conversas sobre literatura e as danças na Loca, tudo vai ser mais triste sem você.

mas você vai ser feliz pra caralho, né, Flavinha? e se você por acaso não for, promete que volta correndo! porque longe é só um lugar aonde a gente nunca vai e o destino talvez seja mesmo aquilo que sai de você e enfrenta o mundo.

a gente chora na esquina gelada, com o coração sangrando, mas olha que cidade fantástica você escolheu pra você! o metrô nem tem catracas...

e a nossa ponte aérea Berlim-SP vai ser tão curta...

eu agora choro feito uma criança boba, usando aquele meu chapéu novo que compramos juntos, aqui nesse aeroporto, já morrendo de saudade. mas com a violenta certeza de que tudo vai dar certo. e está apenas começando.

the world is our dance floor now... e Berlim o seu palquinho.)



em seguida, Checkpoint Charlie com o coração apertado (alo, Dani, deixa a Flávia sozinha em Berlim pra ver o quão apertado pode mesmo ficar), hotel e aeroporto, de táxi, porque quem quer arrastar mala na neve??!

entro no avião justamente e ainda pisando em neve e com as pessoas provavelmente pensando que sou francês, já que o vôo é pra Paris e eu estou de chapéu e olhar triste.

o saldo das 25 Coisas a Não Se Perder em Berlim foi ter feito/visto/experimentado 18. João Vitor acha que eu fiz o melhor.

vou embora mais do que satisfeito. foram quase 10 dias inteiros aqui, como tinha sido o combinado lááá no início, lembra Thereza? (e que falta que Berlim sentiu de você!). vir e ficar, viver a cidade.

a cidade respira e circula, não oprime. é nova e velha, feita para as pessoas. fiz turismo, saí à noite e também fiquei sem fazer nada em Berlim. vou querendo ficar e querendo voltar. querendo passear no parque na primavera e andar de bicicleta.

apesar de todas os avisos, a verdade é que eu não achei que fosse me sentir tão à vontade em Berlim (quintal sem muros, né, Clara?).

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chegar em Paris cansado e não fazer mais do que um reconhecimento dos arredores (Opera e adjacências). descobrir que há Two Lovers em cartaz – e está aí um filme que temos que ver.

Thereza, presa em uma greve italiana, não embarca e não chega.

dias de Berlim - 9

pela manhã, Mayara, Franck e Camila reaparecem. mas logo seguimos rumos distintos, já que eles têm somente aquele dia para ver Berlim, prometendo-nos um encontro mais tarde.

na Gemäldegalerie, encontro Gabi (o pé mais uma vez retém Flávia). e especificamente porque Arrigo e Tati abominam ler o que eu tenho a dizer sobre museus, Gemäldegalerie volta no fim do post.

depois da visita, Gabi volta para casa e eu vou finalmente ao Museu do Filme, que é superficial mas bem cenografado, alem de ter algumas coisas realmente interessantes, como as maquetes dos estúdios de produção de obras clássicas, feito O Gabinete do Dr Caligari.

toda a parte da exposição que cobre dos anos 50 em diante, no entanto, está sendo reformulada, o que faz manca minha visita.

vou ao Parlamento, para a última tentativa. entro. o sol se põe laranja. mas a subida que contorna a cúpula em si está fechada, possivelmente pela neve. é possível estar apenas na base dela.

saio andando pela Unter e encontro, sem querer, com o trio do início do dia (e, aqui, já haviam se passado muitas horas). revejo com eles o Memorial ao Judeus Assassinados, onde brincamos de O Iluminado (insira aqui seu protesto contra a falta de ética e respeito do gesto, mas, veja, moral e eticamente nossa brincadeira não continha ofensa, juro).

pegamos o metrô para encontrar Flávia na KadeWe, a maior loja de departamentos da Europa, segundo consta. no in-des-cri-tível piso gastronômico, ela aparece acompanhada de João Vitor e Denis, berlinenses retornando do fim de ano na Espanha.

como algo por lá, passo rápido mas com admiração consumista pelos outros andares da loja e vamos a Nollendorfplatz, sentar em um bar (que acaba sendo mais um restaurante, indiano, onde comidas flamejantes passam por nós).

depois de algum tempo, o trio de Mayara tem um trem a pegar e nós vamos para a vizinhança do outro trio, o berlinense, onde sentamos em um agora sim legítimo bar.

muita cerveja em canecas de 0,5 l, kekab de novo (dessa vez no pão bom e sem pimenta) para recompor energias e táxi para o hotel, porque não é todo dia que o metrô de Berlim funciona 24 horas.

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A Gemäldegalerie é um muito bem instalado museu de vasta coleção de pintura européia dos séc. XII a XVIII, com destaque para as obras holandesas, flamencas e italianas. um amplo hall retangular central interliga as muitas salas, dando a sensação de amplitude e possibilitando uma fluente circulação e vasta entrada de luz natural.

mais do que nunca, aqui, é preciso ir ao essencial.

A Fonte de Juventude
, de Lucas Cranach é uma estimulante provocação narrativa, cena épica que contrasta, por exemplo, com o caráter íntimo e subjetivo, mas nem por isso menos estimulante, do retrato O Mercador Georg Gisze, de Hans Hobbein, cena de um homem definido com desconcertante pertinência por seu entorno.

O Apocalipse e seu poder sugestivo estão aqui também (como já estiveram no Prado, como estão também centenas de representações bíblicas nas pinturas dos séculos XV e XVI) no Tríptico do Julgamento Final, de Jean Bellegambe.

Pieter Bruegel faz um embasbacante painel em Os Provérbios Holandeses, ilustração de mais de 100 provérbios, com dezenas de pequenas cenas independentes co-existindo e em certa medida inter relacionando-se num mesmo espaço. Robert Altman dá saudade e agradecemos por Eric Rohmer ainda existir, mesmo que não mais fazendo Comedias e Provérbios.

Pieter Aertsen faz a representação da festa dos sentidos em Vendedora na Banca de Verduras.

A luz de Rubens hipnotiza em Os Caçadores de Patos e a poesia de seu retrato brilha em Criança Com Pássaro.

a influência de Caravaggio chega com grande poder pictórico e dramático em A Libertação de Pedro, de Gerard van Honthorst, e no Cristo no Monte das Oliveiras, de Matteus Stom, essa última uma cena de equilibradíssima proporções geométricas, arquitetura do pincel preenchendo espaço.

a loucura aparece forte em Malle Babbe, de Frans Hals. já a tridimensionalidade desnorteia em Visão do Ambulatório de St Bravo em Harlem, de Pieter Jansz Saenredam.

eis que temos o retorno de Rembrandt (lembra dele?). aqui, entre muitas maravilhas, o movimento físico-espacial e psicológico de O Pastor Anslo e Sua Esposa é o mais impressionante.

mas quase todas as belezas parecem menores quando chega Vermeer, aqui representado por O Copo de Vinho. não deve haver, mesmo, no mundo, nuances de luz como essas.

da Itália, Fra Angélico traz mais um deslumbrante e dourado Julgamento Final - em termos de temas, só Vênus e Cupido talvez sejam páreo em número de obras em que aparecem. e justamente ela impressiona em Vênus e o Tocador de Órgão, de Tiziano, de quem também chama atenção o Retrato de Clarissa Strozzi Aos Dois Anos.

Tintoretto faz lembrar o luminoso Woody Allen de Todos Dizem Eu Te Amo, mas é também pintor de um intenso Maria Com A Criança, Venerada Por Dois Evangelistas.

e ai há Caravaggio. o seu Cupido Vitorioso posiciona o Amor triunfando sobre a Arte, a Fama, o Poder e a Ciência (amor vincit omnia, segundo Virgílio). um cupido insolentemente nu, libertário e quiçá libertino, toma o centro da cena com tanta propriedade e verdade cênica que discordar quem há de?

na mesma sala, Georges de La Tour, que ninguém discorda ser fabuloso, ainda tenta sua sorte. mas definitivamente ninguém pode com a flechada de Caravaggio.