Mostrando postagens com marcador teatro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador teatro. Mostrar todas as postagens

28.12.12

(o que vi do) TEATRO em 2012









96 espetáculos. E em “espetáculos” estão incluídas óperas e dança. Ou seja, "não é só teatro”, vai dizer o ranzinza. É, não é. 

Nos últimos anos, estive com medo das listas, coisa que brincava de fazer desde a adolescência. Provavelmente temor de registrar opiniões, vivendo com uma sensibilidade exageradamente fragmentada e subjetividade cada vez mais mutante. Mas a simbologia que dá graça à coisa é essa: registrar (e depois mudar de ideia). E ninguém vai lembrar de nada mesmo – porque sequer vai ler.

O que não me cessa de surpreender, em 2012, é a constatação, nos palcos paulistanos, da hegemonia carioca. O Rio de Janeiro, aquele que se associa às comédias comerciais e ao teatro sem alma, aquele onde estariam os “famosos” e não os “artistas”, foi aquele que nos mandou a maior parte do que de mais consistente esteve em cartaz. O Rio de Janeiro humilhou o teatro paulista (falando, assim, de uma forma levianamente generalizada).

(Até Felipe Hirsch, um curitibano que virou paulista, estreou sua nova peça – com atores que são ‘jóias da coroa’ do teatro de São Paulo – no Rio, o que inevitavelmente faz de “O Livro de Itens do Paciente Estevão”, uma importação carioca.)

“R&J de Shakespeare”, “Palácio do Fim”, “O Filho Eterno”, “À Primeira Vista”, “Breu”, “O Bom Canário”, “Julia”, “Maria do Caritó”, "Adeus À Carne", "Estamira". Peças cariocas.

“Isso Te Interessa?”, “Sua Incelença, Ricardo III”, “Eclipse”, “Prazer”. Peças do Paraná, Rio Grande do Norte e Minas Gerais.

Mas isso é só uma constatação, mais a título de curiosidade. Sem bairrismos. 

*

Quatro eventos extraordinários aconteceram (e salve o Prêmio Bravo! e o APCA e até os votantes do Guia da Folha, no exato dia de hoje, que souberam ver a luz) em 2012: “Peep Classic Ésquilo”, “Bom Retiro 958 Metros”, “Ficção” (com suas seis peças que são e não são uma só) e “Isso Te Interessa?”.

Em magnitude, qualidade, resultado (artístico), satisfação, importância, inteligência, comunicação e ousadia, foi isso. 

O que não significa que, entre tudo o mais, não tenha havido aquele monte de coisa que enche de prazer e júbilo a alma de um espectador. Constatação na qual é importante fazer constar que o signatário não assistiu a tudo o que houve – como, por exemplo, a maioria das peças que o Prêmio Shell, aquele, indicou no 2º semestre do ano.

(Algumas peças importantes não vistas: “Acordes”, “Adeus À Carne”, “Aqui”, “Barafonda”, “Boca de Ouro”, “A Construção”, “Estamira”, “No Coração do Mundo”, “Outros Tempos”, “Recusa”, “Terra de Santo” e por aí vai...)

A que se segue, portanto, é uma lista restrita, pessoal, idiossincrática, contraditória e, por que não, leviana.

DIREÇÃO
Antonio Araújo por “Bom Retiro 958 Metros”
Christiane Jatahy, por “Julia”
Eric Lenate, por “Um Verão Familiar”
Gabriel Villela por “Sua Incelença, Ricardo III”
João Fonseca por “R&J de Shakespeare”
Leonardo Moreira, por “Ficção”
Márcio Abreu por “Isso Te Interessa?”
Roberto Alvim por “Peep Classic Ésquilo”

DRAMATURGIA
“Aberdeen – um Certo Kurt Cobain”, de Sergio Roveri
“O Bom Canário”, de Zacharias Helm
“Breu”, de Pedro Brício
“Ficção”, de Leonardo Moreira e Cia Hiato
“Isso Te Interessa?”, de Noelle Renaude
“Maria do Caritó”, de Newton Moreno
“Peep Classic Ésquilo”, adaptado por Roberto Alvim
“Prazer”, da Cia Luna Lunera

ATUAÇÃO
Angela Winkler em “Lulu”
Berliner Ensemble em “Ópera de Três Vinténs”
Charles Fricks em “O Filho Eterno”
Cia Brasileira de Teatro em “Isso Te Interessa?”
Cia Clowns de Shakespeare em “Sua Incelença, Ricardo III”
Cia Hiato em “Ficção”
Daniel Infantini em “The Pillowman – O Homem Travesseiro”
Danilo Grangheia em “O Livro de Itens do Paciente Estevão”
Denise Fraga em “Chorinho”
Drica Moraes em “A Primeira Vista”
Ed Moraes em “Um Verão Familiar”
Georgette Fadel em “O Livro de Itens do Paciente Estevão”
Kelzy Ecard em “Breu”
Lavínia Pannunzio em “Um Verão Familiar”
Roberto Audio em “Bom Retiro 958 Metros”
Tiago Abravanel em “Tim Maia, Vale Tudo – o Musical”
Vera Holtz em “Palácio do Fim”

OUTROS DESTAQUES
A encenação de “Lulu”, com direção de Bob Wilson e canções de Lou Reed.
A encenação da ópera “Macbeth”, de Verdi, com direção de Bob Wilson.
A encenação da ópera “Orfeu e Eurídice”, de Gluck, no terreno de obras da Praça das Artes, com cenografia de André Cortez e direção de Antonio Araújo.

*

Aurora dos Campos, Maria Silvia Siqueira Campos e Miwa Yanagizawa pelo cenário de “Breu”.
Equipe de direção de arte de “Sua Incelença, Ricardo III”.
Fernando Marés pela cenografia de “Isso Te Interessa?”.
Guilherme Bonfanti, pela iluminação de “Bom Retiro 958 Metros”.
Marcos Daud e Ron Daniels pela tradução e adaptação do texto de “Hamlet”.

*

A inauguração, programação e trabalho continuado de repertório do Teatro do Núcleo Experimental.
A programação do festival bienal Mirada, em Santos.


MELHORES ESPETÁCULOS 
(em ordem alfabética)

Bom Retiro 958 Metros
Ficção
Isso Te Interessa?
Julia
A Primeira Vista
Sua Incelença, Ricardo III

13.8.12

como faz...

... quando se quer ir em TUDO?



23.6.12







a play a day


HOJE:

Frost/ Nixon, de Peter Morgan.




19.6.12

15.5.12

a play a day


HOJE:


After the Fall, de Arthur Miller.




a play a day


ANTEONTEM:


Incendies, de Wajdi Mouawad.




4.5.12

notas teatrais (muito) atrasadas


Existe, no teatro, essa mágica elementar que é a presença.

Que é simples como o fenômeno físico e prosaico de haver um ator na sua frente. E ele abrir a boca e falar.

Mas que, em sua magnitude, quase desnecessário dizer, só se realiza raramente. 





Daniel Radcliffe em How To Succeed In Business Without Really Trying, na Broadway, era uma robusta presença - a despeito de sua diminuta estatura. Depia-se de Harry Potter e, quem diria, mostrava que nasceu para o teatro musical. Em uma engrenagem azeitada para o entretenimento funcionar com um preciso relógio, era ele o motor que puxava o show. O canto e a dança resplandeciam, funcionais e graciosos, mas era no tempo e num abarcador carisma que o garoto comandava o palco.

Não sozinho, é claro, porque John Larroquette, que lá garantiu seu Tony de ator coadjuvante, era um voraz disparador de 'one-liners'. 

Justo dizer, o texto e as canções são daquele tipo que justificam mesmo a existência do teatro musical, naquilo que possui de mais inconsequentemente divertido, catártico e contagiante - talvez até mordaz e esperto. 

Sem pudores, um programão.




É também na presença que Stockard Channing reluz, na intrigante, sólida, mas sentimentalmente auto-indulgente Other Desert Cities, uma peça na melhor tradição nova yorquina das 'revelações e conflitos na sala de estar'.

Destaque de um elenco forte e incrivelmente 'colaborativo', na medida em que uma atuação claramente impulsiona os bons momentos das demais, Channing é a pedra preciosa que transforma cada uma de suas intervenções em erupções deliciosas de humor, amargura e inteligência.






Já no Tchekhov que a Classic Stage Company punha de pé em seu diminuto e aconchegante palco, Dianne Wiest e John Turturro, redefiniam, a seu modo, O Jardim das Cerejeiras.



Sem perder o rigor e a nobreza que, sendo parte do que de melhor em teatro já foi escrito, a peça possui, o despojamento da montagem de Andrei Belgrader alcançava a simples e árdua tarefa da absoluta aproximação.



E não se trata só de suprimir pompa, ou tons elevados de teatralidade. Trata-se (tratava-se) de dizer as palavras com a qualidade e a simplicidade que elas tem - e, assim, incitar gigantescos e inesgotáveis significados.


Os atores orquestrados em atuações de um realismo pleno e, diga-se, 'minimalista', existiam com a mesma naturalidade com que provavelmente conversavam no camarim ou sairiam para jantar após a sessão.

E, o mais importante, sem desperdiçar o texto tchekhoviano. Pelo contrário, dando a ele o passo de algo tão essencial quanto trágico - a vida desenrolando-se.

Neste tocante, Dianne Wiest,  fazendo sua primeira entrada e última saída, ao enxergar sua velha casa, e John Turturro, dançando movimentos de patética e indisfarçavel felicidade ao arrematar o leilão, são imagens eternas.

Que se não chegam a redefinir por completo as personagens, as inflam com o mais tocante e exasperante sopro de vida. Pela forma como são, mas muito por como estão - por suas assombrosas presenças, enfim.



Sobre isso tudo, um exemplo (e explicação não textual) vertiginoso pode ser visto abaixo, a partir dos 06:36, em Andrea (sempre ela):


*





Na Madama Butterfly que Anthony Minghella, pouco antes de morrer, encenou para o Metropolitan Opera, estavam todas as delicadezas perdidas do mundo (e da ópera).



*






War Horse, que causa sensação nas plateias, sofre como teatro tanto quanto brilha em 'puppetry'. 

É um melodrama bem difícil - e não no bom sentido.



*





Cymbeline, elogiadíssima montagem off-Broadway que se hospedava no peculiar Barrow Theater, é bacaninha, enérgica, admirável em dar conta de um texto shakespeariano tido como 'confuso' e quase 'inencenável'.

Mas é também o 'produto de qualidade' sintomático de uma crítica que não parece ver coisas realmente muito inventivas, temporada após temporada.

(Operando em chave bem semelhante, o nosso O Púlcaro Búlgaro, por exemplo, dá um pau.)

*





Follies era o triunfo de Jan Maxwell (não à toa ela está, agora, indicada ao Tony) e de um inacreditável elenco de 'senhoras' coadjuvantes. 

E  do score espantoso de Sondheim.

(E alguém pode dizer a Bernadette Peters que já passa na hora de ela parar de choramingar enquanto fala.)


*





Seminar possuía o prazer de ver Alan Rickman e Lily Rabe (eis, de novo, duas respeitáveis presenças) duelando ferozmente - ela que continua sendo uma impressionante encarnação mais jovem de Laura Linney.

Mas nenhum comentário pode ser melhor do que esse, do NY Times, que basicamente resume tudo:

Full of efficiently mapped reversals and revelations, the play feels as if it were written according to some literary equivalent of a mileage-saving GPS device.

*

E assim foi dezembro.

24.12.11

sangue, mas com muita higiene




Blood and Gifts, uma nova peça de J. T. Roger que o Lincoln Center produz em sua sala pequena, a Newhouse, uma semi arena para 300 pessoas (ah, essas salas em semi arena do Lincoln Center...), é boa, eficiente (ou, antes, "eficaz"), pontual, limpa.

Faz uma radiografia dos conflitos no Afeganistão que eventualmente culminaram no 11 de setembro, cobrindo a década de intensa disputa entre EUA e URSS, nos anos 80. Por isso, merece ser louvada - filia-se a um teatro político que não se furta em olhar criticamente para seu tempo (ou para seu passado recente) e que de uma forma ou de outra dá à cena uma camada específica de pertinência.

Mas é justamente na nobreza de seus ideais que o texto não se permite ser grande arte (como são as peças políticas de Tony Kushner, Casa/ Kabul, ainda impresso na memória recente, como exemplo paradigmático). Existe, em seus métodos, uma correção excessiva, um semi didatismo. Conta-se a história, mas sem o brio real de vigor dramatúrgico - ou humano, já que os personagens não movem seus dramas, mas atuam como peças do tabuleiro.

A crítica local adora e a lista entre as melhores coisas de 2011 (e faz sentido ao percebermos que o mea culpa norte-americano, no espetáculo, é brando). É compreensível que assim seja, já que se trata, como dissemos, de teatro competente, "excelente", até - além do texto claro e preciso, atores e aspectos técnicos todos em seus devidos lugares. Mas que não acende aquela faísca.

Resulta, assim, em algo como um relato jornalístico ficcionalizado, aos modos do new journalism, bem pesquisado, bem pensado, bem urdido, mas em que o autor estivesse na verdade só inventando - sem a força bruta da 'experiência real' e sem o refinamento intelectual e estético da grande carpintaria dramática.


23.12.11

dormir, talvez sonhar



Para por de forma simples:

Sleep No More é a mais elaborada experiência de imersão cenográfica com fins dramatúrgicos a que alguém talvez jamais se submeta.

É o fenômeno da direção de arte.

É esperta (inclusive comercialmente), é oportunista (isso não é uma crítica), é levada a cabo de forma vigorosa.

É envolvente, estimulante, às vezes até perturbadora.

E mais do que isso é trabalhoso demais para descrever (ao menos textualmente).

Agora, a parte do teatro... Bem, vale dizer que talvez todos ganhassem muito se eles fossem a São Paulo para uma residência artística com o Teatro da Vertigem.


Senhorhomem




Existe o inexcedível e o quase inexpressivo em Misterman, que Enda Walsh escreveu e dirige no St. Ann's Warehouse.

No primeiro grupo, está este espaço, um enorme armazém no Brooklyn, quase à beira do rio, que recebe recheadas temporadas de música (Lou Reed, Marianne Faithful etc) e de teatro de vanguarda (o termo é auto-proclamado, porque esse blog mesmo o acha meio... velho?). E que, dadas as suas características e o aparato técnico que parece conter dentro de sua aparência de falsa precariedade, pode abrigar, ou gerar, um universo inteiro.

E, nele, Cillian Murphy, este ator que já mostrara tantos recursos no cinema (de vilão de Batman a travesti em Café da Manhã Em Plutão) mas que, presencialmente, como todos os grandes, parece ainda mais múltiplo.

Como pedaço de escrita dramática, digamos que o texto de Walsh não reluz. Ou, antes, talvez sirva sob medida à sua direção expansiva, que faz Murphy preencher (ou vandalizar) cada pedaço do gigantesco espaço cênico. Para não ser injusto, existe uma construção dramatúrgica cuidadosa, que, apoiando-se sobremaneira em uma revelação final, acaba reverberando uma vez concluída.

Mas é no tour de force de Murphy, em um personagem retraído e atormentado, que por sua vez personifica outros tantos 'tipos' de seu cotidiano de pequena cidade, que Misterman vive e potencializa-se.

(E, sendo o mundo do teatro como é, já podemos esperar pelo Hamlet que ele em breve terá que fazer.)


o cafona e o travesti




Existem duas reflexões possíveis (talvez as duas únicas) a se fazer a partir da versão teatral de Priscilla - a Rainha do Deserto - que, ademais, é divertido e calórico como um doce de leite.

A primeira diz respeito ao cafona. Do porquê de um grupo de pessoas vestindo roupas (muito) espalhafatosas, fazendo coreografias corporais pouco elaboradas, ao som de músicas que achamos deliciosamente tentadoras há pelo menos uns 20 ou 30 anos, exercer um fascínio tão grande e tão inelutavelmente instintivo aos olhos e ao espírito.

Seja como for, ponto para eles (e à parte o mérito do valor - especialmente o monetário - de produção, que, evidente, há de sobra).

A segunda se refere ao travestismo. Porque se engana quem acha que em uma peça tão completamente gay (ou seria travesti?) predomina uma plateia de gays e mulheres (elas mesmas às vezes tão... travestis). Nada disso! - o programa, no caso, é para a família (a começar pela minha). E dá-lhe homens-brancos-heterossexuais (essa tão solene e hegemônica maioria) sacudindo-se discretamente ao som de I Will Survive.

Porque, em última (primeira?) instância, o travestismo é mais do que um fetiche, uma profissão ou um chamado divino - ele é só uma porção bastante destacável da esquisita e complexa psicologia da sexualidade humana, capaz de chacoalhar desejos, reflexos, disfarces e identificações (quase ousando dizer que na psiquê masculina ainda mais do que na feminina, mas, né, para que ser sexista?).

Mesmo que, soterrado e subconsciente, só se deixe irromper em um lugar tão pretensamente inofensivo e massificado quanto a Broadway.


Krapp, Hurt, Harvey



A experiência de ver John Hurt fazendo Krapp's Last Tape (papel que foi dele desde a monumental série Beckett On Film) começa pelo Harvey Theater, esse templo - com o perdão do clichê. Não é possível entrar ali e não ser muito feliz.

(Afinal, jamais esqueceremos de Cate Blanchett por lá.)

Hurt carrega essa aura de um ator vocal - da estirpe inglesa onde cada palavra precisa se encaixar em sua pronúncia perfeita para só então merecer ser proferida. Beckett decidiu escrever Krapp ao ouvir no rádio o ator irlandês Patrick Magee, de modo que a enunciação, como a peça não deixa dúvida, pode ser a chave do baú. Assim, Hurt seria talvez um dos atores imbatíveis para o papel.

Sim. E não. Vir da memória recente do Krapp de Bob Wilson e também do de Sergio Britto coloca luzes (e sombras) na apreciação.

Hurt e Michael Colgan, o diretor, limpam tudo - há a mesa, a cadeira, o gravador, os rolos e as bananas (Bob Wilson não suportaria um palco tão grande tão vazio). Em seus primeiros minutos mudos, Hurt estabelece uma presença física forte, mas ao mesmo tempo, por assim dizer, flutuante. Seu Krapp está lá, mas é como se não estivesse exatamente lá.

Wilson não é ator para levar Krapp - e por isso não o fazia, relegando a responsabilidade à sua sempre elaborada mise en scène. De toda forma, em sua encenação o personagem era quase robotizado, um boneco dele mesmo - Wilson, mas também de Beckett. Britto aterrava Krapp de forma terrivelmente bela. Hurt faz Krapp quase não ser.

Sua voz ao gravador (e nas poucas palavras ditas so vivo) é imbatível. Mas seu Krapp ressente-se da ausência de uma força trágica. E esse blog, sabemos, prefere quando o horror da condição humana pesa um pouco a mais.


28.11.11

cumprindo a agenda

Não se entende muito bem por que a versão paulista de Cabaret simplesmente abate do roteiro os números So What e It Couldn't Please Me More, tão vitais para aterrar uma parte importante da trama. As versões das canções (assim como as de todos os musicais encenados no Brasil) deveriam ser feitas pelas pessoas que fazem (ou faziam) as versões dos musicais animados da Disney. Ademais, esse Cabaret tem suas qualidades no exato nível de exigência do público que garante "101% de ocupação" ao Teatro Procópio Ferreira - e o que mais um entretenimento pode querer, não é mesmo?


A Bela e a Fera e Alladin, em revisão, seguem sendo bons pra cacete.


Os Altruístas tem o MC que Cabaret não tem: Kiko Mascarenhas. Que explode em histrionismo mas o calca em dores tenebrosas, num controle impressionante de registro e sentimento. Merece indicações a prêmios e troféus.


Um Coração Fraco e como Dostoiévski sabe mesmo das coisas...


Tratando de Fazer Uma Obra Que Mude o Mundo (O Delírio Final dos Últimos Românticos) é quase tão boa quanto seu título, tropeçando de leve numa certa redundância de efeito, em seu último terço. Mas comprova um interessante fenômeno do teatro chileno em praticar dramaturgias de impactante 'realismo fantástico', por assim dizer, olhando para os aspectos políticos da vida (e abra-se o leque de compreensão desse termo, 'político'). Que já estava tão presente em Diciembre, do Teatro En El Blanco, e em Villa + Discurso, da Cia Playa. Faz pensar que, aqui, quem produz algo que se assemelhe é Grace Passô, à frente do Grupo Espanca!.


Querido Gus, tenho que te dizer: Inquietos não me pegou. Será que sou eu?
(mas posso elaborar esse pensamento mais tarde...)

5.11.11

corra, é novembro!



E nossa equipe de articulistas-ninja preparou a lista do que você ainda pode fazer antes de se preocupar com as compras de Natal.


  • 05 de NOVEMBRO

Se você também já viu os Strokes em 2005, no saudoso Tim Festival, e também vendeu seu ingresso para o Festival Planeta Terra, só há uma coisa a fazer: conhecer o teatro do Sesc Bom Retiro com a peça Credores, em curtíssima temporada. Se a animação for grande, na sequência pesque Fausto, na repescagem da Mostra. No Cinesesc.

  • 06 de NOVEMBRO
John Malkovich está na cidade. É dia de prestigiá-lo na salutar mistura de concerto e teatro que promete ser The Infernal Comedy. No Theatro Municipal.

  • 07 de NOVEMBRO
A estreia de A Pele Que Habito foi adiada, mas agora o novo filme de Almodovar está em cartaz. Não é possível esperar mais um só dia para vê-lo.

  • 08 de NOVEMBRO


Leve seus ouvidos para passear e tire a tarde para ouvir o novo disco de Marisa Monte, O Que Você Quer Saber de Verdade. Delicie-se especialmente com o esmero e a beleza pop-romântico-dramática de Depois, Amar Alguém, Aquela Velha Canção e Era Óbvio.

  • 09 de NOVEMBRO
Dê uma chance para o teatro no meio da semana com As Cegas. No Viga Espaço Cênico.

  • 10 de NOVEMBRO
Almoce no novo restaurante Figurati (aberto há menos de um mês) e prove os nhoques, ou o penne com abobrinha, camarão, aspargos e curry.

  • 11 de NOVEMBRO
Mergulhe no cinema brasileiro: entenda que caminhos percorreu Nando Olival desde Domésticas - O Filme, no novo Os 3; confira a atuação premiada de Maria Luisa Mendonça em Amanhã Nunca Mais, estreia em longa-metragem de Tadeu Jungle; ou arrisque-se no cult (e elogiadíssimo) O Céu Sobre os Ombros, de Sérgio Borges.

  • 12 de NOVEMBRO

No mesmo ano em que pudemos ver a montagem de Daniel Veronese, Espia a Una Mujer Que Se Mata, aproveite para perceber quantas faces há numa obra prima da dramaturgia. Vá ao Sesc Vila Mariana para hipnotizar-se com a iluminação onírica de Pedro Pederneiras, com o cenário belo e engenhosíssimo de Márcio Medina e para ver, afinal, de que forma a encenação estetizante e de grande requinte plástico de Yara de Novaes encampa os atores do tradicional Grupo Galpão, no clássico russo Tio Vânia (aos que vierem depois de nós).

  • 13 de NOVEMBRO
Arranje a companhia de uma criança e leve-a ao espetáculo infantil O Menino Que Vendia Palavras. No Teatro do Shopping Frei Caneca.

  • 14 de NOVEMBRO
Cate Blanchett, a grande, também fez Tio Vânia em 2011, na Austrália. Como não estivemos por lá, aproveitemos a segunda-feira de feriado para apreciá-la em Hanna, thriller de Joe Wright lançado diretamente em dvd no Brasil.

  • 15 de NOVEMBRO
É feriado. Vá à livraria e compre Conversas Com Scorcese, de Richard Schickel, que a Mostra Internacional de Cinema acaba de lançar em parceria com a Cosac & Naify.

  • 16 de NOVEMBRO

Misturar é preciso: então reveja Tio Vânia registrado no já clássico filme de Louis Malle, Tio Vânia Em Nova Yorque (Vanya On 42nd Street, no original, porque é mais provável que só se encontre pra download), e também Moscou, em que Eduardo Coutinho documenta o Grupo Galpão ensaiando As Três Irmãs, do mesmo Anton Tcheckhov.

  • 17 de NOVEMBRO
John Kander e Fred Ebb fizeram um trabalho assombroso, memorável e de delícias infindas ao compor, nos anos 60, as canções do musical Cabaret. De dedos cruzados, tome o rumo do Teatro Procópio Ferreira para conferir o quanto sobrevive da inteligência, do wit e da arrepiante sensualidade original nas versões em português de Miguel Falabella. E também para inevitavelmente comparar Claudia Raia a Judi Dench, Liza Minelli e Natasha Richardson, algumas das maiores que cederam corpo e voz a Sally Bowles antes dela.

  • 18 de NOVEMBRO

BRITNEY. SPEARS. EM. SÃO. PAULO.

  • 19 de NOVEMBRO
A distribuidora promete para essa semana o lançamento nos cinemas de O Garoto da Bicicleta, dos irmãos Dardenne. Para depois da ressaca.

  • 20 de NOVEMBRO
Se você ainda não viu a controversa peça Hipóteses Sobre o Amor e a Verdade, do controverso grupo Os Satyros, pode estar chegando sua última chance. No Teatro dos Satyros.

  • 21 de NOVEMBRO

Depois de gravar CD e DVD ao vivo em três apresentações esgotadas no Auditório Ibirapuera, em junho, o coletivo 5 A Seco faz um show de pré-lançamento no monumental Teatro Bradesco. E se você não os conhece, esperamos sinceramente que você já esteja com seu ingresso em mãos.

  • 22 de NOVEMBRO
O nome do show é Bethânia Canta Chico Buarque. Precisa dizer mais? (Ah, sim: é apresentação única.) No Via Funchal.

  • 23 de NOVEMBRO
Relaxe e tome um chopp no meio da semana. Antes, visite a Bienal de Arquitetura, nesta edição abrigada na Oca. (Para o chopp, recomendamos o Bar Balcão.)

  • 24 de NOVEMBRO
O festival bienal de teatro iberoamericano Mirada, promovido pelo Sesc, faz itinerância de algumas peças em seu ano de recesso. Do Chile, neste mês, chegam quatro de uma vez. A primeira é Loros Negros, cuja sinopse é tão instigante quanto confusa. A checar. No Sesc Belenzinho.

  • 25 de NOVEMBRO
Depois de anos afastada dos palcos, Mariana Ximenes está em cartaz, acompanhada por um time de peso, em Os Altruístas. E sendo uma sexta-feira, você sai do teatro no coração da movimentada e caótica região conhecida como Baixo Augusta - o que pode ser o céu ou o inferno, a depender de sua personalidade e disposição. No teatro Augusta.


  • 26 de NOVEMBRO

Trata-se do último final de semana (e talvez a última chance em sua vida de espectador) de ver Fernanda Montenegro no palco. O texto de Viver Sem Tempos Mortos é muito bom, mas é capaz que você nem preste atenção nele, tamanho o poder encantatório da simples e estrondosa presença da atriz em cena.

  • 27 de NOVEMBRO
Mais um espetáculo Mirada, este já valendo pelo título: Tratatando de Fazer uma Obra que Mude o Mundo. No Sesc Belenzinho.

  • 28 de NOVEMBRO
Marcos de Andrade, um ator fenomenal, deve valer sua ida ao Sesc Consolação, em plena segunda-feira, em horário ingrato, para assistir à décima edição do projeto Prêt-À-Porter.

  • 29 de NOVEMBRO

Você ainda tem energia? Inquietos, de Gus Van Sant, e Isto Não É Um Filme, de Jafar Panahi, se cumprirem o calendário previsto, serão as estreias cinematográficas da semana. Vá a ambos.

  • 30 de NOVEMBRO
Termine o mês vendo mais uma (a terceira) peça com legendas: A Amante Fascista, inspirada em obra do perturbador Thomas Bernhard. Mirada, de novo. No Sesc Belenzinho.



(Agora, já pode ir lá tirar o nome do amigo secreto.)


3.10.11

sorria, é outubro!




e para ninguém perder (quase) nada do que importa no mês tradicionalmente mais movimentado do ano, nossos repórteres organizaram esse guia dia-a-dia para você imprimir , colar no espelho do banheiro e seguir fervorosamente.


  • 03 DE OUTUBRO
Comece devagar, o mês será itenso. Reassista, em casa, Os Goonies, influenciado pelo ótimo e recente Super 8. Você vai se surpreender com o tanto que os filmes 'família' encaretaram nos últimos 25 anos.

  • 04 DE OUTUBRO
Caso você não tenha, como nós, um jantar mensal marcado com os seus primos, dê um presente a si mesmo e almoce no restaurante Epice, para conferir que o prêmio de Chef Revelação recebido por Alberto Landgraf é verdade do primeiro ao último segundo.

  • 05 DE OUTUBRO
Há muito tempo que o Momix deixou de ser uma companhia de dança inovadora e passou a ser entretenimento para as massas (sem deixar de ser, no entanto, visualmente deslumbrante). Mas como não há nada de desmerecedor nisso, por que não ir ao Teatro Alfa conferir Botanica?




  • 06 DE OUTUBRO
Se você sobreviveu à fila dos ingressos - ou teve um amigo generoso que fez isso por você - é chegada a hora de se mesmerizar com Os Náufragos da Louca Esperança, segunda visita do mítico Theatre Du Soleil a essas terras. Promete estar entre os pontos altos do ano - ou quiça de toda uma carreira como espectador. Sesc Belenzinho.


  • 07 DE OUTUBRO
Se você não vai ao Rio de Janeiro naufragar no Festival do Rio ou checar o último final de semana de Maria Luisa Mendonça fazendo Brecht sob direção de Aderbal Freire-Filho, em Na Selva das Cidades, então vá só ao cinema para não perder o belíssimo Além da Estrada - que infelizmente pode sair de cartaz a qualquer momento.

  • 08 DE OUTUBRO
Depois de quase dois anos pronta, a adaptação cinematográfica do romance Capitães de Areia, de Jorge Amado, finalmente chega às telas. Mas o que você definitivamente não pode perder nesse final de semana é mesmo o filme Trabalhar Cansa.

  • 09 DE OUTUBRO
É possível que nenhuma outra montagem brasileira te proporcione uma experiência intelectual e estética, nesse semestre, tal qual aquela a que Oxigênio convida o público. Desarme-se e frua, porque isso é teatro contemporâneo pulsante e recompensador. Sesc Consolação.


  • 10 DE OUTUBRO
Segunda-feira, nada mais propício do que recompor-se do fim de semana com o tresloucamento de Isabelle Huppert em Copacabana. Nos cinemas.

  • 11 DE OUTUBRO
Dia de conferir o que David Mamet pode fazer por nós, em uma elogiada montagem de sua peça O Bosque, de 1979. No CCBB.

  • 12 DE OUTUBRO
Dia das Crianças, matinê de O Menino e os Sortilégios, 'fantasia lírica' de Ravel, no Municipal. Se mantiver-se no padrão de qualidade das óperas que temos visto na casa, é programa certeiro.

  • 13 DE OUTUBRO
Quem ouvia a canção Made Up Love Song #43 lá pelos idos de 2006 certamente vai estar firme, forte e levemente emocionado na chopperia do Sesc Pompeia para testemunhar a tardia visita da banda Guillemots à cidade.

  • 14 DE OUTUBRO
Faça a segunda das três necessárias visitas que outubro requer aos confins do Teatro Alfa para ver a companhia Akram Khan dançar Vertical Road.



  • 15 DE OUTUBRO
Em uma premissa que pode dar água na boca tanto quanto causar imediata fuga, arrisque-se a voltar ao CCBB para assistir a A Ilusão Cômica, reimaginação da peça em versos escrita por Pierre Corneille em 1635.

  • 16 DE OUTUBRO
Entre uma enxurrada de estreias, todos os olhos estarão inevitavelmente voltados para o novo Almodóvar, A Pele que Habito. Mas dê uma chance a L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância - afinal, Bertrand Bonello já mostrou em ocasiões anteriores que merece nossa atenção e respeito.

  • 17 DE OUTUBRO
Se você não conhece o restaurante Sotero, não há motivos para adiar mais.


  • 18 DE OUTUBRO
Angústia, um espetáculo-concerto-filme-peça do pianista Vitor Araújo, parece ser algo tão fora dos padrões que merece uma chance (e todos os seus sentidos). Na Sala Crisantempo.

  • 19 DE OUTUBRO
A dois dias do início da Mostra, tire a tarde para penetrar (literalmente) o mundo sensorial e hipnotizante de Olafur Eliasson, com obras espalhadas por três endereços da cidade. Nos Sescs Belenzinho e Pinheiros e na Pinacoteca.


  • 20 DE OUTUBRO
Como você vai passar os próximos 14 dias em salas de cinema, veja Serpente Verde, Sabor Maçã, antes que não dê tempo. No Espaço Parlapatões.

  • 21 DE OUTUBRO
De hoje até o dia 04 de novembro, sua vida vão ser só filmes, porque é a hora da Mostra Internacional de Cinema de SP. Por mais que brilhe no guia de programação aquilo que importou nos grandes festivais europeus em 2011, atente para o fato de que as verdadeiras preciosidades talvez sejam a retrospectiva de Elia Kazan e as cópias restauradas de Taxi Driver, Laranja Mecânica e O Leopardo (com eles, é quase como se não fosse necessário ver nenhum outro filme por muitos meses).

  • 22 DE OUTUBRO
Não existe qualquer chance de você não estar na Mostra, mas caso isso aconteça, vale saber que terá estreado o premiado documentário Rock Brasília.

  • 23 DE OUTUBRO
Mostra. Será que o número de filmes que você viu já terá chegado aos dois dígitos?

  • 24 DE OUTUBRO
Mostra. Quantos cafés você já terá tomado entre uma sessão e outra?

  • 25 DE OUTUBRO
Mostra. Quantos amigos você já terá cruzado pelos corredores?

  • 26 DE OUTUBRO
Mostra. Com quantos já terá compartilhado sessões?

  • 27 DE OUTUBRO
Mostra. A quantos filmes realmente bons você já terá assistido?

  • 28 DE OUTUBRO
Se você já desistiu de bater cabeça em filmes-cabeça, estreiam Inquietos, de Gus Van Sant, O Palhaço, de Selton Mello, e Contágio, de Steven Soderbergh. Péssimo timing para os três, mas quem sabe não há aí um bom motivo para escapar de um filme exótico em projeção digital descuidada?

  • 29 DE OUTUBRO
Hoje, no entanto, a fuga é inevitável. A companhia Sasha Waltz & Guests dança Travelogue I -Twenty to Eight, coreografia que a destacou para o mundo, em 1993. Terceira das três idas ao Teatro Alfa.



  • 30 DE OUTUBRO
O mês vai chegando ao final, mas a Mostra não. Será que já surgiu um filme muito bom que nunca estreará, como foi Ano Bissexto em 2010? Ou um programa capaz de justificar a existência do cinema, como Mistérios de Lisboa? Torçamos para que sim.

  • 31 DE OUTUBRO
Talvez não seja uma questão dos filmes, mas você só não aguente mais ficar sentado. Então estique as pernas pela Bienal e entre na polêmica da arte contemporânea na exposição Em Nome dos Artistas. Uma vaca partida ao meio e conservada em formol só pode ser um ótimo desfecho para um mês desses.


7.6.11

um jardim sem muros




From: Rafael Gomes
Date: 2011/6/2
Subject: ...
To: Leonardo Moreira


Leo,

hoje faz um ano que minha avó morreu. que eu fui acordado com um daqueles telefonemas que a gente não quer receber nunca. que esmurrei a parede do banheiro enquanto tomava um banho onde me contorcia de dor. que fiz a viagem mais silenciosa de todos os tempos, com meu pai ao volante. que entrei no apartamento de onde eu tinha saído duas semanas antes, porque voltara de Cannes mais cedo do que o planejado e fui direto a Santos, escrever na varanda da casa dela, na tranquilidade daquele apartamento que estava em um outro tempo, tão passado e tão contínuo.

naquela ocasião, eu disse que voltaria em breve, para escrever mais. ela disse que estaria me esperando e fechou a porta, ficando sozinha no apartamento imenso onde morreu no chão frio do banheiro, dias depois.

eu acho que devia ser proibido morrer no chão frio do banheiro. ela dizia que não queria ficar velhinha e ter doenças como Alzheimer, ou problemas de locomoção, tinha horror de dar trabalho aos outros. falava que que morreria quietinha, de camisola, em sua cama. ela era friorenta e merecia ter morrido embaixo do cobertor, não no azulejo gelado.

eu não voltei mais ao apartamento depois daquele 1º de junho, dia em que as pessoas iam chegando e olhando para mim todas com cara de "eu sei" e eu só consegui tentar me desviar dos olhares pensando "não, ninguém nunca vai saber".

porque ela me deu tudo. ela fez de mim o que eu sou. e tudo o que hoje eu faço, era (é) como se quisesse demonstrar que os caminhos que ela me abriu estavam chegando em algum lugar.

"O Jardim" é uma obra de arte dessas que análise nenhuma vai poder enquadrar, porque transcorre num patamar muito longe da racionalidade - e, no entanto, quanta organização intelectual na linguagem e nos aspectos formais todos que fazem com que aquilo tudo seja tanto teatro.

você e essa cia. Hiato que eu tenho vontade de abraçar inteira e nunca mais largar foram em lugares inimagináveis, ou, antes, de tão imagináveis, tão escondidos. mas também tão evidentes. (por que será que as pessoas não vamos mais lá, onde vocês foram?)

eu não voltei ao apartamento porque não quis olhar os objetos, tantos e tantos deles, cada um com muitas cenas e histórias. mas eu pedi a minha mãe que me desse os livros todos, se ninguém os quisesse. e um quadro específico, de José Antonio da Silva, pintor de quem vimos juntos, eu e ela, uma retrospectiva na Pinacoteca do Estado, já nem sei quantos anos atrás (sem ela, as exposições de arte e as apresentações de dança fazem menos sentido. fazem menos sentido os cinemas aos sábados e domingos à tarde e os almoços de família - não é à toa que nenhuma dessas coisas eu continue fazendo com regularidade).

mas daí Aline e Paula enfileiram aqueles objetos todos e referenciam O Jardim Das Cerejeiras, peça que eu conheço tão bem sem nunca ter visto montagem no palco e que minha avó sempre citava ao vislumbrar a mudança que por fim acabou empreendendo, lá pelo início da década passada, de uma enorme casa em que morava.

e as taças. e as fotos. e o jardim. e a casa. o machado cortando as cerejeiras, os empreendedores e a modernidade transformando tudo em condomínios. objetos - coisas tão simples, não é mesmo, Leonardo, mas tão avassaladoras?! é triste que os objetos sobrevivam às pessoas. mas é também bonito.

o quadro está pendurado atrás de mim, agora. lembro do dia em que minha mãe me trouxe e eu, sozinho, apoiei-o no elevador. quando, em um breve relance, olhei com súbito distanciamento para aquele quadro que durante tantos anos ocupou paredes específicas na minha memória visual e afetiva, e, parado ali no chão de um elevador que não combinava com ele, era como se tudo estivesse errado. fora do lugar. como caixas espalhadas em um jardim. escancaradas.

Thiago e Fernanda, que tão suavemente ecoam Winslet e DiCaprio naquele filme subestimado, me jogam para dentro dos meus pulsos metaforicamente cortados. eu penso em quem era a minha avó antes de ser minha avó. ela que se apaixonou pelo meu avô aos 13 anos e que só se lembrava de sentir taquicardia ao vê-lo descendo a rua em direção a ela, ainda pré-adolescente, será que ela algum dia abandonou alguém? será que ela foi abandonada? será que se apaixonou perdidamente por alguém com quem nunca falou, em uma viagem pela Europa, antes de voltar a seu casamento tão sólido? onde se apoiam as fundações dos casamentos sólidos? que tempo foi esse, que vida foi essa, essa dos que nasceram em 1933? quantas coisas minha avó nunca me disse, quantas eu não perguntei?

e a memória de quem não a tem. Lu, Mariah Amélia, tanta delicadeza e cuidado. cada olhar de Edison onde cabe um mar, tantas ressacas, uma vida inteira. as duas pontas da vida atadas com um paralelismo tão cruel quanto impensável (Machado, Bentinho, Capitu e a cabeça da gente inventando realidades alternativas, inventando memórias). e nenhuma desesperança, em mim. estranho conforto em uma dor aguda, desalento, vontade de dormir à tarde, depois da escola, no melhor sofá que já houve, ou de ver a novela das 8 na casa de Campos do Jordão, disputando com os outros primos o colo de minha avó. ou de admirá-la descascando laranjas, indo ao cabelereiro, fazendo compras no Mercadão, tricotando, não nos deixando falar palavrões.

eu voltei para casa naquela sexta-feira e olhei os livros que ainda estão em sacolas, vindo de Santos a prestações, um ano depois. os livros que eu sempre vi numa biblioteca imensa e sempre quis para mim. mas nos quais agora eu não tenho vontade de mexer.

esse email quase não vale de nada, por serem tantos pensamentos tão dispersos. mas se ele puder te fazer entender um pouquinho da estatura do trabalho que vocês construíram, terá já cumprido seu objetivo.

"O Jardim" me dá vontade de nunca sair de lá, de nunca me desfazer dessa sensação tão fatidicamente catártica e plena que só a arte causa. me dá vontade de ver todos os filmes que eu ainda não vi, de fazer todos os filmes que eu ainda não fiz, escrever todas as coisas que eu não saberia dizer nem sentir de outro modo, talvez de nunca parar de fazer teatro. ao mesmo tempo que me faz achar que eu não preciso fazer mais nada, porque já que seria tão difícil ficar melhor que aquilo, aplaudir já basta.

(como se eu sequer tivesse conseguido aplaudir).

parabéns por dividir com o mundo tanto afeto. e por nos dar quintais sem muro, exatamente como quereria Roberto Carlos, o melhor cantor que já existiu.


um beijo


R

21.1.11

um pouco de teatro no início de ano

  • Ligações Perigosas faz lembrar: que belíssimo, que saboroso romance epistolar escreveu Choderlos de Laclos (é uma pena a prodigiosa tradução de Sergio Milliet estar fora de catálogo, embora haja circulando uma de Carlos Drummond que eu desconheço) e com que adequação ele se presta à cena teatral na transposição de Christopher Hampton; o quanto o teatro é uma corda de tensão que precisa manter-se vibrante na inteligência, tempo e domínio dos atores; que domínio de cena possui Marat Descartes, de tal nível que chega a ser quase injusto; que baita atriz é Sabrina Greve.


  • Marcha Para Zenturo, uma peça estranha, é talvez a menos obviamente gostável das montagens que o Grupo XIX ou o Grupo Espanca! realizaram em suas trajetórias individuais. E, por isso mesmo, é cheia de camadas e estimulante da primeira a última cena - desde já um espetáculo marcante para quando e onde quer que se esteja.


  • Apesar de ser um 'clássico' gasto por décadas e décadas de produção dramatúrgica audiovisual voltada para os embates de tribunal, das leis de direito e da investigação criminal, Doze Homens E Uma Sentença é um ponto alto da carreira recente (leia-se de pelo menos os últimos dez anos) do diretor Eduardo Tolentino. Discrição, elegância, equilíbrio, plena visão de conjunto (inclusive e especialmente na concepção/ uso do cenário e luz) e a condução de doze atores quase todos eles no melhor de seu jogo. Norival Rizzo faz valer sua alcunha de grande homem de teatro, Brian Penido simplesmente não erra, José Renato é um sopro de frescor em plena maturidade e Oswaldo Mendes nos faz pensar por que ele não está fazendo mais e maiores papéis por aí.


  • Se Lee Thalor estivesse fazendo em Lamartine Babo o que faz Marcos de Andrade, seria chamado de 'gênio'. De Marcos, fala-se pouco. Mas é mister dizer que se trata de um trabalho simplesmente assombroso. Para brindá-lo, João e Rita:


12.6.10

o homem do lado


De
: Rafael Gomes
Data: 12 de junho de 2010 19h56min42s GMT-03:00
Para: Thiago Ledier
Assunto: o homem do lado


amor,

"Sideman" é mesmo teatríssimo.

sinto naquele texto o peso da tradição da dramaturgia 'clássica' norte-americana, aquelas peças de O'Neill, Tennessee e Miller, uma maneira de radiografar um período, um grupo, uma sociedade, compondo cenas do simples fluir da vida (como no 1º ato de vocês) e de sua natural derrocada (como no 2º ato de vocês), sem necessariamente uma grande explosão, um grande incidente ou propósito engatilhador de um conflito dramático principal e progressivo. e a moral do perder e ganhar, o ímpeto e a desistência em construir algo.

há beleza de sobra no pequeno drama e nós sabemos disso. e quanta não fervilha na melancolia do jazz (eita música para cortas os pulsos, essa...), no desacerto que é a convivência, na busca por um espaço (para a arte, para si mesmo, para estar, para se esconder). nos escorregadios entremeios dos solos de trompete que conseguimos alcançar, que cansamos de fazer, nos quais não somos creditados.

que maravilha é acompanhar Zé Henrique de Paula (e você ao lado dele), sendo essa coisa tão difícil e exigente que é o encenador. quanto êxito colocando de pé de forma tão competente espetáculos tão díspares como os dos últimos anos e quanto cuidado em se ater ao particular de cada um deles, em não aplicar fórmulas mas empreender de dentro pra fora esse árduo e ardiloso trabalho da direção, erguendo a cena sobre o texto - isso que poderia ser tão básico mas cujo resultado eficaz tão usualmente sequer é esboçado.

que glória são Otávio e Sandra. que glória! atingem a plenitude do arquétipo sem descuidar da individuação.

que bonito é o desnudamento e a coragem de Slaviero em encarar essa 'peçona' literalmente de frente, ele que deve saber-se tão sujeito a pré-conceitos e críticas apressadas, derivados de sua carreira na televisão.

que medo de Eric Lenate, amor. que medo! nunca pensei (naturalmente porque não o conhecia como ator) que ele fosse capaz desse negócio tão difícil que é transcender o naturalismo para tão inteiramente conseguir fincar-se nele, embebedando-se em verdade (e que cena estupenda aquela em que ele é preso!)

que coesão o elenco inteiro, enfim (mas, olha, diz pra Gabriela que ela precisa falar um pouco mais alto).

e cenografia, figurinos, iluminação, sons e todos os afins...

é teatro de se aplaudir de verdade, sabe (porque quantas e quantas vezes aplaudimos protocolarmente, não é?)? e que fenomenal é constatar que pode ter gente capaz de fazer, por exemplo, O Idiota, uma jóia tão fora (e tão dentro, também) de padrões secularmente estabelecidos para essas tais "artes cênicas", e também esse Sideman, tão clássico e tão translumbrante em seu equilíbrio e limpidez, em sua atenção ao padrão e ao convencional (extraindo desses conceitos qualquer carga pejorativa). porque quem consegue fazer teatro "clássico" com essa elegância, esse controle e essa inteligência (emocional, acima de tudo) que atire a primeira crítica.

(quantos parênteses, né? acho que a peça abre parênteses na gente.)

e olha só, não tem nada de "muito longo", não. isso é coisa de gente estúpida que não passa mais de meia hora sem checar iphone ou sem mudar de canal. para eles, os guias de programação agora até possuem toda uma sessão separada para aquelas peças ditas de "Humor".

salve os artistas de teatro!

um beijo


R