Mostrando postagens com marcador diário aberto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diário aberto. Mostrar todas as postagens

23.9.12

23 de setembro


O mais renitente no desaparecimento de alguém não é a falta. É essa noção de provisoriedade. 

Como se cada dia, cada fato, cada sonho - que teimosamente irrompe com frequência atordoante - fossem somente aspectos de um breve hiato temporário, ensaios para sua reaparição.

E no aniversário que você faria hoje, sempre e tão orgulhosamente associado ao início da Primavera, o que me desespera não é tanto a saudade avassaladora que eu obviamente sinto, mas a perspectiva agigantada do quanto, infinitos dias, eu ainda deverei senti-la.

23.9.10

23 de setembro

hoje, você faria aniversário.

e na cozinha, nessa madrugada, eu sinto o cheiro do pano de prato que costumava ser seu e me desespero menos com a saudade avassaladora que eu já sinto e mais com a perspectiva do quanto, infinitos dias, eu ainda vou senti-la.

22.11.09

2009 não foi um ano assim tão bom (?)

em 2007 eu vi 26 peças e 36 shows e em 2008 eu vi 23 shows e 32 peças e em 2009 eu vi 19 shows e 83 peças e fico é muito feliz de olhar os guias de programação e as revistas e saber que tem tanto show que eu não vou ver e que não preciso me preocupar em ver e que não estou sofrendo de não ver e saber que não vi nenhum show do Planeta Terra e nem sequer me comove a passagem do The Killers por São Paulo e então eu não preciso me preocupar se chove e se haverá lama na Chácara do Jockey porque eu não vou pra lá mesmo e eu no máximo vou encontrar o Marco e o Fernando numa noite chuvosa de sábado na Paulista e eles vão me falar da lama do The Killers e comer uma sobremesa no América e eu nem sei falar direito o nome dos shows da Natura porque eu não preciso saber os nomes porque eu não vou lá ver os shows e nem vou comprar ingresso caro pra ver o Coldplay porque eu nunca gostei de Coldplay mesmo mas gosto de Franz Ferdinand mas não ouvi direito ainda o disco mais recente então não preciso da histeria de comprar ingressos antecipados para um show que só acontece em março porque se acabarem os ingressos tudo bem porque eu não vou sofrer mas eu sofreria se acabassem os ingressos do show da Bethânia então eu já fui lá comprar o meu embora não no melhor lugar possível mas ainda assim comprado apesar de eu também não ter ouvido os discos novos ainda assim como não ouvi os discos novos do Arctic Monkeys nem de um monte de outras bandas que eu conheço e gosto e todas as outras que eu ainda não conheço e gosto mas eu continuo indo ao teatro com prazer e dor e hoje mesmo vi uma peça de que gostei bastante chamada Hamelin e ainda tenho 18 outra peças para ver até o final do ano e vou a cada uma delas e pode ter certeza que eu vou porque com teatro sou queném com filme ou com filme eu sou queném com peças e vi 63 filmes em cartaz nos cinemas esse ano o que é pouco se comparado ao número de peças e essa proporção deveria estar invertida porque eu trabalho fazendo filmes e não peças (ainda) mas a proporção está como está e desses 63 filmes alguns eu fui ver nos cinemas mesmo durante esse ano e outros eu perdi talvez porque estivesse vendo peças e outros eu fui rever porque já tinha visto antes em Mostras passadas como Horas de Verão ou só quis ver mais de uma vez mesmo na sala de cinema como Amantes e Bastardos Inglórios e esses 3 talvez junto de Moscou são os 4 melhores filmes que se pôde ver esse ano e pelo menos na Mostra eu fui como há muito tempo não ia e vi 46 filmes que é quase o total de filmes que eu tinha visto até outubro no circuito de estréias e vários desses filmes eram bons e vão estrear para eu poder dizer que já vi ou rever e outros jamais estrearão e ainda bem que eu os vi então quando pude e como pode dar tempo de ver tanta coisa e ainda querer ver séries de tv americanas como agora que eu tento acompanhar 5 e todas de comédia e é muita coisa mesmo para ver e lembrar ou esquecer mas para acompanhar que seja e como é possível fazer tudo isso e ainda tantas outras coisas mais boêmias e menos louváveis e muito divertidas e ainda conseguir produzir e produzir dramaturgia e escrever filmes e peças e não sei como é possível e talvez por isso eu não tenha produzido tanto quanto um ano inteiro possibilitaria que eu fizesse.

2009 não foi um ano assim tão bom. foi?

semana passada eu fiz aniversário e tenho cada vez mais cabelos brancos e uma idade de algarismos crescentes apesar da atendente da loja de roupas achar que não parece e agora e sempre vamos ouvir Cibelle cantar White Hair e, quem sabe, se houver tempo e disposição, comemorar um pouco, ainda hoje mesmo.





25.9.09

o mar

Data: Fri, 25 Sep 2009 00:49:08 -0300
De: Rafael
Para: Thiago Ledier
Assunto: o mar

querido L.,

o mar é uma coisa toda outra. quão ridículo seria eu dizer que entendo Caymmi quando ele canta que "quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar"?

eu chego a Santos e chove. na casa de minha avó, há um outro tempo. há um outro tempo dentro de mim ali, antes de tudo.

uma vez li na epígafe de um (mau) filme que o passado é como um país estrangeiro - lá se fazem as coisas de outro modo.

Alaíde, funcionária de anos (trabalhados e vividos), decide por mim que eu quero pão pullman com presunto e queijo de lanche. ela me faz um café e esquenta leite para que eu tome junto. me incentiva a comer o bolo de fécula de batata (e o que seria, de fato, a fécula da batata?). ela ri do forninho elétrico que eu liguei na tomada mas do qual não virei o botão - ela ri de mim, na verdade. quando na minha vida "normal" eu tomo lanches em forninhos elétricos com café e leite no meio da tarde?! pontualmente às 17h, aliás, porque Alaíde não está pra brincadeira.

ali há pessoas e organização e comida e móveis antigos e quadros que eu adoro e tapetes e lustres e abajures. (há um vaso que eu gostaria de ter, que eu não gostaria que fosse para o Museu D´Orsay caso minha vida fosse aquele filme Horas de Verão - mas, opa!, minha vida é esse filme). todo o interior daquele apartamento é teletransportado da antiga casa, a verdadeira, a original, grande e vasta, hoje duas torres residenciais de alto padrão.

mas a essência está ali. minha avó chega, depois de mim. ela fica a meu lado, na varanda com a vista para o mar de Caymmi onde deve ser doce morrer e do qual não se larga. o mar faz mesmo toda a diferença - e como ele é bonito ressacado. sinto vontade de vir morar em Santos, até.

minha avó respeita o silêncio do meu trabalho "criativo".

quando me mudo para a sala de jantar, atraído pela mesa e pela luz, já que na praia se faz noite, ela se aproxima e conversamos. o assunto é a (minha) dramaturgia, aquela que me esforço para compor em sua casa, nessa cidade, afastado de onde eu estou hoje e tão próximo de quem eu sempre fui. em alguns minutos, ela está me contando uma intrincada trama protagonizada por minha prima que em si é uma lição de enredo.

eu dou risada porque acho realmente engraçado mas acho tudo realmente triste e estranho, no fim das contas. eu ando estranho, no fim das contas.

ela janta na sala ao lado e conversa com Alaíde sobre o agrião. depois me conta sobre as transações imobiliárias de sua funcionária, surpresa com a facilidade com que ela resolve questões que poderiam ser complicadas.

*

eu releio a peça e gosto bastante de várias partes dela.

(...)

olhando o mar no escuro, sinto vontade de terminar a peça. pulsão verdadeira, criativa, determinada. (...) não mais por mim. acho que eu já partiria para outras coisas e deixaria isso de que duvido das qualidades sentado à beira do caminho. mas sinto vontade de terminá-la por você e pelo Vini, que a querem ler e que me incentivam e cobram. e pela Mayara, por quem eu cortaria os pulsos.

o mar, querido L., levou Clarinha e levaria todas as mulheres da família. mas pode trazer várias outras coisas.

um beijo, do seu,

R

26.8.09

RECADO NA SECRETÁRIA ELETRÔNICA DO TELEFONE PRETO QUE DISCA PRO CÉU #2













Ivan, meu querido,

estou ligando para te pedir duas coisas.

a primeira é para você dizer aí pra esse deus que ele é um cara muito do malandro – qual o sentido de ele ficar roubando pra festa dele todos os convidados mais legais?!

diz pra ele que eu aqui to achando uma baita sacanagem ele ter te tirado das nossas discussões sobre matemática, nas caronas que tanto te dei, do posto de vizinho que eu mais encontrava nas ruas do bairro onde moramos, dos palcos, das telas, e até da praia que você um dia resolveu montar em plena avenida Paulista, lembra?

quer dizer, ele leva todo o seu espírito explosivamente alegre, todo seu carisma contagiante, todo seu talento, todo o seu bom humor e seus modos gentis e amorosos, todo seu olhar entusiasmado e entusiasmante sobre a vida e deixa o que pra gente?

não quero julgar, não, mas acho isso tudo muito do egoísta.

a segunda coisa que eu queria te dizer é mais um pedido de precaução. sabe “Olhos Frios”, aquela canção que você cantava em “Calabar”, peça na qual nos conhecemos, há tão curtos dois anos?

então, procure não cantar ela por aí. sabe o que, acho que é beleza demais até mesmo para o céu. você ia deixar todos os anjos chorando.

é isso.

eu queria parecer forte, mas vou ter que me despedir dizendo que tudo o que é sólido pode ficar muito mais triste.

um beijo grande, um abraço apertado.

salve!

R

16.4.09

e você, quem é?

ir a Santos de carona com seu pai, passear com sua mãe, visitar as duas avós, o avô e encontrar com uma porção de tios e primos.

observar as ações pouco gentis do tempo. passar em frente à grande casa onde sua avó morou por quase 30 anos e ver um imenso prédio ser erguido - camadas agressivas de concreto duro onde antes havia jardim.

no fundo da alma, a matriarca de O Jardim das Cerejeiras (comédia dramática em quatro atos de Anton Tchekhov) clama com os sentidos em chama:

Oh, meu belo, maravilhoso e querido jardim! Minha vida... estas janelas... minha juventude... Adeus. Adeus!

*

Em Temporada de Gripe (peça de Will Eno), a personagem que Maria Alice fazia diria em dado momento algo parecido com:

Famílias são apenas grupos de pessoas.

*

A gente escolhe raspar o cabelo, escolhe deixá-lo muito grande ou pintá-lo de cores diferentes, escolhe cortar as unhas ou deixá-las compridas, escolhe cuspir no chão ou assoar o nariz no lenço, escolhe em geral onde depositar nossas excreções (e secreções), escolhe tomar banho, escolhe que desodorante usar, escolhe que roupa vestir, escolhe o que comer, escolhe que carro dirigir, escolhe que livros ler, escolhe o que ver na televisão, escolhe com quem conviver, escolhe que horas dormir, escolhe para onde viajar, escolhe nossa religião, escolhe nosso presidente, escolhe... ih, a gente escolhe tanta coisa...

a gente escolhe ser bonito ou ser feio? a gente escolhe nascer rico ou pobre? a gente escolhe nossa cor preferida? a gente escolhe ser sensível? e ser durão? a gente escolhe quando a gente chora? a gente escolhe nossa matéria preferida na escola? e nosso tipo de filme? e gostar de brócolis? e de chocolate? a gente escolhe gostar de pegar ônibus? e saber dirigir? a gente escolhe a hora de ter sono? e as pessoas de quem gostamos? a gente escolhe nossa profissão? a gente escolhe... a gente escolhe o quê, mesmo?

religião a gente escolhe? e não é curioso que havendo tantas “verdades” religiosas diferentes, há quem ESCOLHA acreditar em UMA verdade absolutista e definitiva? quem está errado, nessa brincadeira? quem está mais certo?

a gente não escolhe ser gay, a gente não escolhe ter fome, a gente não escolhe ser rico, a gente não escolhe o país onde nasce, a gente não escolhe ter ou não irmãos, a gente não escolhe ser circuncidado, a gente não escolhe nascer com síndrome de Down, nem perder um dedo, nem ficar surdo, nem ter miopia, nem ter dentes tortos, nem ter mal hálito, nem ser careca, nem ser negro, nem ser branco, a gente não escolhe ser adotado, a gente não escolhe ter pais bêbados ou violentos, a gente não escolhe nascer, a gente não escolhe ser abusado sexualmente, a gente não escolhe ser roubado, a gente não escolhe ter diabetes ou câncer, a gente não escolhe ter alergia.

por que a gente tem alergia, afinal?

e intolerância? e preconceito?

preconceito contra quem é gay, contra quem é travesti, contra quem é machista, contra quem é misógino, contra quem é pobre, contra quem é muito rico, contra quem é mauricinho, contra quem é hippie, contra quem é caipira, contra quem é nordestino, contra quem gosta de axé, contra quem ouve musica clássica, contra quem é exibido, contra quem é tímido, contra quem é feio, contra quem faz plástica, contra quem é manco, contra quem fala alto, contra quem não fala, contra quem é judeu, muçulmano, budista, evangélico, contra quem é estrangeiro, argentino, oriental, negro, índio, contra quem torce pro Corinthians ou pro Palmeiras ou não torce, contra quem é violento, contra quem é bunda mole, contra quem sonega imposto, contra quem é funcionário público, contra quem é detento, contra quem é advogado, contra quem é brega, contra quem é chique, contra quem é velho, contra quem é adolescente, contra quem é adotado, contra quem não tem filhos, contra quem é suicida, contra quem é depressivo, contra quem é alegre demais, contra quem é político, contra quem tem caspa, contra quem é loiro, contra quem rói a unha, contra quem é alcoólatra, contra quem fuma maconha, contra quem é arrogante, contra quem é esquisito, contra quem é emo, gótico, skinhead, contra quem vê novela, contra quem não vai ao teatro, contra quem faz teatro, contra quem... contra quem mesmo?

quem é você, cara pálida, para não aceitar a natureza do outro? quanto você mesmo realmente escolheu para não aceitar quem ele escolhe ser?

o quanto se divide naturezas e escolhas? e onde começa e termina o respeito por ambas?

ponha o seu preconceito no espelho e entenda, o mais rápido que você puder, que o seu preconceito É você e você É o seu preconceito.

*

de 10/02/2006, relembrando belo texto de Pedro Alexandre Sanches:


a montanha do dar-de-ombros

ei, tu, cara-de-tatu. pega teu preconceito mais recôndito, aquele que mais te incomoda porque, quanto mais tu tentas expeli-lo pelo cuspe, mais ele te corrói por dentro.

ei, você aí. que tal levar seu preconceito para passear um pouquinho?

dê uma volta com ele. passeie pelas calçadas, vá pela sombra. mostre ao seu preconceito os cachorrinhos no pet shop. juntos, façam muxoxos às crianças de 12 anos entupidas de consumismo mórbido de shopping center.

ainda que seja difícil, respeite seu preconceito. pague-lhe um sorvete. evite o marketing nas vitrines, sucumba ao marketing onipresente: carregue o seu preconceito para dentro do cinema, conduza-o a assistir um filmão hollywoodiano cotado para ganhar o oscar. compre um saco grande de pipocas.

pague duas entradas, uma meia para você, uma inteira para o seu preconceito. colabore na campanha benemerente que levará o dramalhão da hollywood mountain a faturar bilhões de dólares mundão pobre a fora e umas estatuetas de marketoscar no ex-epicentro do planeta.

e, bingo!, pegue-se de repente de mãos dadas com seu preconceito, no escurinho do cinema, entre beijos lânguidos (de língua) e fogosos, enquanto "brokeback mountain", de ang lee, se avoluma diante de seus (quatro) olhos.

goste. emocione-se um pouquinho assim, ó. derrube uma lágrima furtiva, mas saia do cinema dando de ombros para o "western gay", por não ter se identificado tanto assim.

então olhe de novo para seu preconceito, veja como ele está mudado. pergunte-lhe se gostou do filme (com jeitinho, para não magoá-lo).

molhe seu preconceito com um copinho d'água gelada (antes, faça um bochecho, tire o sal e os piruás do dente, cuspa). teste seu companheirinho eriçado, umedecendo-o, para descobrir se, depois do filme com que você não se identificou tanto assim, seu preconceito irá proliferar feito gremlins n'água, ou se, pluft!, vai se extinguir feito sal diluído em água doce.

dê soro ao seu preconceito. ele merece.

chuvisque-o de lágrimas, suor, urina, sangue, esperma, sucos vaginais, saliva, catarro. cuspa. engula. aplique um chego, uma chegadinha, um xamego, um bole-bole no seu preconceito.

cuide-se bem, perigos há por toda à parte, e é tão necessário viver. mas cuide do seu preconceito no escuro do seu quarto, à meia-noite, à meia-luz. dispa-o de seu capote "pré", desnude-o, acaricie-o e faça-o gozar feito conceito nu (goze com ele), materializado em pré-pós-conceito, em tudo ao mesmo tempo agora onde tudo se mistura.

mate seu preconceito. deixe-o à míngua de inanição. só então olhe-se despido(a) no espelho e veja-o ali de volta, transmutado feito zelig em sua própria face. repita todo o ritual, moldando-se à sua própria imagem e semelhança como fizera até então com seu preconceito (peça o dinheiro de um dos ingressos de volta na bilheteria).

entenda, com carinhos à farta, que o seu preconceito É você, e que você É o seu preconceito.

23.12.08

23 de dezembro


23 de dezembro, quase 5 da tarde.

eu estou na produtora, quase sozinho. as pessoas começam a ir embora.

quando eu era criança eu gostava do Natal. ele fazia mais sentido. agora, eu não gosto.

(talvez estivesse mais feliz em Berlin - onde vou estar, em 7 dias).

a série está entregue. 13 episódios, 8 meses de trabalho, um monte de gente que já sente saudade.

Relicário está aí, Calabar esteve, Vinicius Calderoni ainda estará muito.

e tantas outras coisas. e novidades. e reviravoltas. até quando parecia que não dava mais tempo. porque o mundo não é mesmo chato.

2008, enfim.

*

eu ainda queria escrever sobre as peças boas que vi no último mês, sobre um ou outro filme, sobre Madonna. mas deu preguiça.

sobre Madonna, uma coisa: não se é Madonna à toa. e estamos todos ainda sob o feitiço (não estamos?). quem esteve lá, sabe.

*

até já.

12.11.08

happy birthday, mr. president

ontem, uma pessoa muito querida me escreveu, por email:

Ainda bem q envelhecemos né, pelo menos ando com uma sensação de vida bem vivida, sabe? Boas histórias, boas lágrimas, muita dor, muito gozo, bons amigos, muita bebida, grandes amores e muita alegria. parece q a vida vai passando com tudo preenchidinho, sabe? Olhando pra trás já vejo um caminho muito legal até aqui. Aposto q vc tbm vê!!! Eu vejo o seu! ; )

e outra me disse:

envelhecer é perceber que a velhice só é velha pra quem é novo.


por terem sido ditas não como aforismos, mas de forma corriqueira e inesperada, os dois pensamentos em questão tiveram importância.

na idade que hoje muda, eu fiz uma peça de teatro, um filme, shows de música e uma série de televisão. não vou mentir: eu sinto orgulho e me sinto feliz.


hoje é meu aniversário, parabéns para mim.

saio para jantar com meu pai e nos percebemos, sem combinar, com camisetas exatamente iguais (sorria aí quem entendeu esse recado!);

penso em Cibelle cantando I wanna have white hair;

passo os últimos 20 minutos dos meus 25 anos (essa idade tão central, tão equilibrada, tão... limite) assistindo à genialidade de Tina Fey em 30 Rock;

vou dormir escutando Frank Sinatra, You Make Me Feel So Young:




*


e se alguém acha que é o caso de comemorar comigo, dá uma passadinha lá n'Aloca, no domingo.

23.8.08

eu não tenho tempo de ir ver Ariadne em Naxos, nem as peças da Lu, nem a da Renata, nem a do Julio, nem todas as outras que eu quero ver.

eu não tenho tempo de ler livros, nem de ver televisão, nem de ir ao cinema (contento-me em saber que os filmes existem e são nomes em um Guia de programação).

eu não tenho tempo de encontrar nenhum dos meus amigos, nem o meu pai, nem a minha mãe, nem o meu primo. eu não tenho tempo de tomar vinho, de ir às festas ou de andar na rua, no frio, abraçado com a Thereza.

eu não tenho tempo de fazer os planos (de câmera) que eu talvez considerasse ideais, eu não tenho tempo de fazer reuniões, eu não tenho tempo para a montagem.

eu não tenho tempo para não fazer nada ou para prestigiar curtas no Festival.

eu não tenho tempo para dedicar ao Música de Bolso.

não tenho tempo para ir à praia ou ao campo, para respirar outros ares que não sejam poluídos e causem doenças. eu não tenho tempo para ter folga.

*

eu tenho vontade de escrever novas idéias, de me desamarrar, de ouvir muita música e pensar cenas para elas. eu tenho vontade de criar cenas que atores de quem eu gosto interpretem com paixão. eu tenho vontade de mais paixão, ou de fazer virar verdade cenas que já existem e são geniais como nada que eu escrever jamais será. eu tenho vontade de ver mais filmes, de ver todos os filmes do mundo, de derreter vendo filmes, todos os clássicos do cinema que eu jamais conheci. eu tenho vontade de pensar em cenas bonitas e ouvir tango vendo minha própria sombra quadriculada na parede da minha casa, enquadrada pela janela. eu tenho vontade de ir para Berlim e para o Japão ou de ser um estrangeiro em São Paulo. antes que seja tarde demais.

eu tenho vontade de À Margem da Vida, de Tchekhov, de Felizes Juntos e Amores Expressos, de Hannah e Suas Irmãs, de Acossado e O Desprezo, de Meu Tio, de Morte em Veneza, de A Cabra e de Árvores Abatidas e do musical que eu quero fazer.

*

enquanto isso, minhas unhas crescem rápido demais e meus cabelos crescem lisos.

e tudo parece desordenadamente sob controle.

2.7.08

RECADO NA SECRETÁRIA ELETRÔNICA DO TELEFONE PRETO QUE DISCA PRO CÉU



Meu querido,

amanhã lançamos aquele filme que fiz pra você.

preferia não tê-lo feito, mas nossa avó já dizia que a tristeza é queném chiclete, precisa mastigar. eu resolvi mastigar a minha no cinema, que é onde sempre soube viver melhor (e você sempre soube disso).

eu, a Fabiana e o Henrique morremos de saudade e eu vou dedicar a eles nossa sessão. você acreditaria se eu contasse que o Henrique vai fazer cinema?! nem eu, acho. é difícil acreditar em uma porrada de coisas que acontecem.

deseje-nos sorte. ou “merda”, como dizem no teatro.

(sim, eu agora também sou um rapaz de teatro. nisso dá pra acreditar?)

da próxima vez, atende esse telefone!

e mande um abraço a Stanley Kubrick, se você cruzar com ele.

(dizem que às vezes deus pensa que é Stanley Kubrick e fica andando pelo céu disfarçado)

um beijo pra você,


R.

17.6.08

efeméride




desde há dois dias faz um ano que saí da casa de meu pai, desacompanhado, e me mudei para essa espécie de centro sócio-boêmio-culturete paulistano que é a rua Augusta.

o primeiro ano de existência realmente independente de uma pessoa deve ser talvez um dos períodos de auto-conhecimento (ou auto-engano, dependendo do caso) mais intensos de que se tem notícia.

simplesmente porque parar de ser extensão (filho, no caso) de alguém e ser a extensão só de você mesmo, construindo suas próprias extensões, com necessidade de comando integral sobre a vida (prática e abstrata) não é brincadeira, não, rapaz.


portanto, duas lições aprendidas com vigor:


1) morar sozinho é, em todos os sentidos, limpar sua própria sujeira.

2) quando você faz do movimento um hábito, a quietude parece uma falta.


fez sentido?

27.5.08

pequenas coisas que você aprende num feriado

* das 56 cidades no mundo que o Facebook diz que eu já visitei, a sensação momentânea é de que nenhuma supera o céu estrelado de Campos do Jordão.

* a gente adora aquela casa na proporção inversa da frequência com que a visita. e temos saudades de todas as coisas que já fizemos por lá.

* um dia, sem aviso prévio, a criança mais especial da família, e que nunca foi especialmente com a sua cara, pode se apaixonar irremediavelmente por você.

* é absolutamente impossível continuar vivendo sem um Wii.

20.3.08

a lua cheia sempre volta ou as minhas constantes (todos nós queríamos ser Frank Sinatra)

Hoje, dia 20/03, é lua cheia.

*

No início de 2005, Marco Dutra fez uma música para mim. Para Alice. Caetano Gotardo escreveu a letra intuitiva mais linda do mundo. E Mariana Aydar cantou.

Em maio de 2005, os três foram ao estúdio da MCR gravar Alice, dizer que rio que perde o chão é catarata (numa citação tão clara e tão obscura a Wong Kar Wai e seu Felizes Juntos), encher de beleza os sons e os filmes.

*

Quando, em Relicário, Rodrigo, o protagonista, encontra só um amigo antes de morrer, ele encontra o Marco. Tocando piano.

Se Rodrigo é tão outro mas sou tão eu feito ficção, se tantos amigos há, por que eu encontraria somente o Marco?

Não sei.

Porque eu o amo. Porque ele me ensina coisas sobre a vida e sobre o cinema. Ou talvez porque ele fez uma música para mim. Duas, na verdade.

Agora há pouco, eu e Marco estávamos no estúdio da MCR e ele estava tocando no piano que Tom Jobim tocava, o mesmo piano ao qual ele já se afeiçoara em 2005.

Caetano apareceu para dar boas energias ao momento e estavam os dois ali, enfim, de novo, 3 anos depois.

Marco compôs uma linda peça para piano para um roteiro meu chamado Ismália que não foi feito e provavelmente nunca será. Mas que tranformou-se na música desse filme de agora, numa musica que é réquiem e é tão cheia de sentimento e vida.

Porque quando eu olhei para o Marco lá no fundo do estúdio, com fones de ouvido, sentado àquele piano tão grande e opressor, eu percebi a história acontecendo. A história pequena, a nossa, a de cineastas que fazem música para amigos que são outros cineastas e de outros cineastas que fazem letras ou às vezes não as fazem mas simplesmente estão presentes.

E eu amei ainda mais aquela música, talvez até mais esse novo filme, certamente mais aquelas pessoas. E a Sonatina, que um dia foi chamada de Rejeitada, está no centro da cena.

E ao Caetano, eu pude mostrar que, agora, as cataratas de Wong estão no filme em imagem. Talvez ninguém veja ou entenda. Mas eu sei que ele vai.

Porque Felizes Juntos é minha constante.

O cinema e a música são (nossas) minhas constantes.

Marco Dutra é minha constante.


*

Hoje, dia 20/03, é aniversário da Diana. Antes de antes de ontem, foi o do Marco. E é lua cheia (porque, mesmo com eclipse, as luas cheias sempre voltam. entendeu?).

Para o Marco e para a Diana, que são duas das minhas pessoas preferidas, uma noite de lua cheia esplendorosa.

E uma música.

Porque Frank Sinatra definitivamente é minha constante (porque todos nós queríamos ser Frank Sinatra).

E que ele nos leve voando para a lua (cheia), preferencialmente de tapete voador. (em outras palavras, segure a minha mão...)






PS:


Cena prosaica em estúdio – pianista e observador.

5.3.08

madrugada, uma pequena ficção

hoje, eu queria ter medo do seu lado, já que é pra ter medo de qualquer maneira. andar pela cidade, de noite, num dia de semana, porque ela fica cheia de vazios e é muito mais legal. hoje eu queria ter um tapete voador (mentira, isso eu quero sempre!), para mandar ele te pegar na sua casa. hoje eu queria te telefonar e conversar a conversa mais besta do mundo, só para o tempo passar com alguma graça. e te escrever cartas de amor ridículas e líricas só para ficar relendo e achar que eu sei escrever coisas ridículas e líricas. hoje eu queria ouvir músicas que você gostasse e eu também, músicas para cortar os pulsos. hoje talvez eu esteja perdido sem pai nem mãe bem na porta da sua casa.

hoje eu queria que você desencavasse minha felicidade bem no meio da minha tristeza para só tratar de desimportâncias. ouvir suas histórias e dar risada e tomar sorvete e quem sabe fazer pipoca. e te achar inteligente e achar que você me acha também.

hoje eu queria pegar a saída 60B para a sua casa e fazer todas as outras brincadeiras que a gente aprendeu ou ainda vai aprender em filmes ruins. eu queria ser uma caixa de sapato all star azul, porque estranho seria se eu não me apaixonasse por você. ou uma lata de coca-cola vazia.

hoje eu queria ser perfume de música que é perfume. e ser notas extensas, um violoncelo da Jacqueline Dupré, ou somente um piano. hoje eu queria ser Roberto Carlos e achar que está tudo certo como dois e dois são cinco. exatamente assim.

hoje eu queria que minha taxa de açúcar no sangue subisse, comendo brigadeiros na chuva. mas hoje fez muito sol e meus olhos lacrimejaram o dia inteiro, porque talvez eu esteja fotofóbico.

hoje eu já vou dormir tarde demais, talvez escutando London, London, só para ficar andando em círculos sem saber para onde ir. cheio de dor silenciosa e felicidade.





trilha sonora

Green Grass, Cibelle

don't say goodbye to me, describe the sky to me...

1.3.08

minha vida inteira

em 30 segundos, ela é capaz de saber tudo.

tudo.


(sexta-feira, 29 de fevereiro, às 20:15h)





e eu a amo muito.

26.2.08

dez pras três

tentar ver Paris, Texas e dormir em 10 minutos.

dormir 1 hora e meia no sofá.

tentar misturar O Jardim das Cerejeiras com A Gaivota, tudo muito estabanado, sempre muito às pressas.

descobrir que se planta algodões no estado de São Paulo.

ouvir e maravilhar-se com Bob Dylan e seu Modern Times, afinal, tem show semana que vem.

baixar Interpol, porque também tem show.

(lembrar de comprar o da Fernanda Takai.)

receber uma proposta irrecusável, embora não sem auto-censura. minhas noites de blueberry.


(e alguém mais acha que isso aqui está virando mesmo um diário?)





escrever um poema sem calor em são paulo
um poema sem ação: sem carros, sem avenida paulista

quando eu morava na augusta, escrevia poemas sobre a augusta

a augusta não me deixava dormir

(escrever um poema em que se durma na augusta
e sobretudo, escrever um poema sobre dormir

sem você.) esta é a primavera fajuta da delicadeza
(não consigo terminar este poema).



(Angélica Freitas, "treze de outubro")





eu moro na Augusta. obrigado, Caetano, pelo poema, sem saber.
e Thereza, pelo comentário. e por tudo o mais.

21.2.08

20 de fevereiro





a maia e eu saímos pelo terceiro dia para um lanche, no início da noite. porque eu e a maia somos amigos, de forma rapidamente progressiva. ela me mostrou um lugar que eu não conhecia, mas no qual ela era muito conhecida. caiu uma chuva forte. nós bebemos cerveja e contamos nossas vidas passadas. eu falei de adolescência e desajuste. ela falou de planos sobre uma superfície.

a maia sabia do eclipse. e a mariana tem uma varanda grande, além de a gente amá-la. mas tinha chovido e onde estava o céu para o eclipse?

a gente comprou vinho para ver o eclipse e a mariana comprou a comida mais seca do mundo. a sala da casa dela é imensa e tem um gato com nome revolucionário. os astrônomos são foda! - as coisas acontecem exatamente na hora anunciada. o céu abriu enquanto a lua foi fechando.

há poesia em uma lata vazia de coca-cola e há algumas sincronicidades nas quais simplesmente não se pode acreditar. como assim Guillemots de um dia para o outro? mesa na varanda, mesa mais perto do céu. lua que ia fechando, taças grandes para vinhos tintos.

all of you e fred astaire fazendo cyd charisse dançar sem nem perceber, dobrando-a em música. chico buarque que nos une e nos transpassa e nos dá sentido, sempre. Pois eu sonhei contigo e caí da cama, ai, amor, não briga, ai, não me castiga, ai, diz que me ama, e eu não sonho mais.

tira as mãos de mim e põe as mãos em mim.

a lua fechava e ficava vermelha, em vez de escura. e a gente dava risada e chorava um pouco. dava risada e pensava se as linhas são retas, se os sentimentos perduram. falava de casamento(s) e completudes e faltas e dezenas de interditos. falava ou só pensava, porque a lua ia ficando vermelha.

00:01 é o primeiro minuto do dia que é e seria e estava sendo depois de hoje, que era o dia depois de ontem. e no qual havia um eclipse lunar total. o jornal era claro: uma condição tão favorável quanto esta para observar um eclipse lunar total não ocorrerá no Brasil até 2015. O próximo eclipse lunar total será em 21 de dezembro de 2010. O último havia ocorrido em 28 de agosto de 2007.

pouco tempo desde o último, tanto tempo até o próximo. 00:01 e esses astrônomos são foda! a lua estava inteirinha coberta e vermelha e depois alaranjada. ainda tinha vinho e ainda tinha muito assunto. porque o assunto tende a não acabar nunca, se pensar bem.

a lua fixou o eclipse e a gente queria uma foto. bateria fraca, dizia. você vai me odiar pra sempre por isso? não, amanhã tem centenas de fotos na internet. e a gente rindo alto e sofrendo baixinho. brincando de esconde-esconde no apartamento grande de luzes apagadas.

beatles. with a little help from my friends. me empresta seus ouvidos e eu te canto uma canção e eu vou tentar não cantar fora do tom.

Amelie Poulain é brega. eu adoro o brega. e quantas outras três pessoas realmente tiraram a noite para ver o eclipse, nessa cidade? da varanda, a cidade não tem fim, mas tem construções interessantes. a vila madalena é uma serra. eu quando leio sobre o tamanho das coisas no universo me deprimo na hora. quem não?

você não tem um binóculo? você acha que na minha casa tem tudo rafael? e um telescópio, talvez? velas na lareira, a lua que já começa a clarear de novo. muitas velas na lareira. dança do ventre e pandeiro. maia e mariana sabem tocar pandeiro. quantas pessoas se encontram, assim, sabendo tocar pandeiro? caleidoscópio, microfone. because the night belongs to lovers.

jogo da verdade que é só de mentira, melhor fechar a porta porque os vizinhos, como se sabe, reclamam do tocador de ipods.

dreams. uau! caio no sofá sem reação, mas a mariana insiste que a dolores canta essa música para ela. meus 11 anos, walkman, nem entendendo direito a letra. eu e maia já conversamos sobre adolescência e inadequação, mais cedo. my dreams, it's never quite as it seems, never quite as it seems. amores expressos, um mês para tê-la de volta, abacaxis enlatados com prazos de validade, chaves para abrir portas invisíveis, um amor mais que discreto, um apartamento que chora, duas califórnias, você quer uma passagem para onde? dreams em versão japonesa.

i know i've felt like this before, but now i'm feeling it even more, because it came from you.

tá tarde. a lua eclipsada volta ao normal. um filme pra montar, amanhã cedo. vamos, maia?



*



conheceram-se à noite, na efusividade intensa e fugidia que momentos etílicos proporcionam. um sempre tinha que acordar cedo. o outro dormia mesmo era tarde. eu sou o sol/ ela é a lua/ quando eu chego em casa/ ela já foi pra rua, foi a primeira canção que ele mandou. outras vieram depois, junto com outras coisas, quase sempre à noite. a lua que enchia e esvaziava, aparecia e escondia-se. que ficava brilhante ou alaranjada, alta e baixa, que trocava sempre de lugar. você consegue ver a lua aí de onde você está? você é bonito o bastante e bom o bastante, i wanna hold your hand. havia problemas, impedimentos e interditos. mas alguma outra coisa havia também. guarde segredo que te quero e conte só os seus pra mim.

no dia em que acharam por bem conversar - sóbrios - fizeram-no por duas horas e meia e sabiam que seria o início do fim. ou pelo menos uma suspensão.

na noite seguinte, sem aviso prévio, a lua passava por um eclipse total.

13.2.08

11 de fevereiro





um filme em quatro dias, que talvez pudessem ter sido três. pessoas que acreditaram, por algum motivo, naquilo que você escreveu. um coletivo que trabalha não para uma pessoa, mas para uma idéia em comum.

porque a gente acredita na ilusão. por que a gente acredita no cinema?

pessoas que trabalham de graça, pessoas que trabalham por muito pouco dinheiro. pessoas que querem, talvez sem saber por que querem, ver a cena acontecer. ver o rolo na lata. ver o filme na tela.

tempo que sobra, tempo que falta. enquadrar e iluminar. ensaiar. atores que se descascam e se entregam a outras pessoas que eles nem conhecem. pessoas que eles inventam.

trabalhar para uma idéia, não para uma pessoa. porque ser diretor é basicamente reger. o contratante pode ser o próprio filme?

uma segunda-feira, último dia de uma filmagem ótima. calor, Santos, pessoas felizes que tomam sorvete. uma chuva que já caiu, que já deixou a areia molhada, um céu que quer fechar pra virar o melhor céu que um fotógrafo pode querer.

fazer um filme sobre uma pessoa que vai morrer. e que na verdade é você mesmo, disfarçado de personagem, projeção de uma outra pessoa que morreu de verdade. fazer o filme e morrer um pouquinho também? ou fazer o filme para viver?

levar 22 pessoas para filmar em uma praia que tem uma cidade atrás. e um céu nublado na frente. uma chuva que de repente resolve que quer vir e que se transforma em questão literal de minutos em uma tempestade tropical. um mar pacato que fica furioso, um vento que sopra o ar de uma vida inteira.

o tempo que não se vai mais ter, a pressa, 22 pessoas que não se conhecem ou se conhecem ou se conheceram correndo de um lado para o outro para fazer uma cena, embaixo de uma tempestade tropical que ainda não chegou, que chegará em um minuto. o toureiro diante do touro, os instantes antes do abismo. por que é tão importante uma cena que é só de mentirinha?

na areia, uma mãe, uma avó, um amigo querido que veste capa de chuva e está só de passagem. a última areia da ampulheta, a pressa, filmemos sem o cabo do som, filmemos sem ouvir, filmemos mesmo sem ver.

quase no mar, 20 pessoas em volta de dois atores que tem que dizer coisas tristes sob a tempestade, 7 km de praia que se esvaziam, todas as tonalidades do cinza. 11 minutos sem cortar, porque você não deve perder o impulso antes de pular para o outro lado (do abismo). vento, muito vento.

um rolo na lata. uma ameaça que não se cumpre, uma chuva que cai fraca, que pára de cair. o mar que volta à sua tranqüilidade, o vento que não venta mais.

um dia que acaba, uma luz que cai. dois atores que se amam de mentira pra poder dizer coisas tristes. relâmpagos que vêm sem trovões, mas que são ameaçadores o suficiente mesmo mudos.

uma cena refeita, 20 pessoas às voltas com metros de cabos e equipamentos caros. um picolé que vem, outro que vai. “o marco fez uma musica pra mim”, ele diz. “eu tomo conta do mundo pra você”, ela diz. e o marco fez uma música para mim.

sem vergonha em mudar tão rápido de idéia, um céu que abre e clareia. e um sol que inunda arrombando as retinas de quem vê uma praia de 7 km que a tempestade esvaziou. um ator que mergulha no mar, de pijama. uma luz que parece de outro mundo. um arco-íris sobre a baía. 22 pessoas muito felizes e meio tontas. se acreditássemos em forças superiores, poderíamos saber que elas existem.

um filme que acaba. e alguma coisa que aconteceu.

20.11.07

epístolas eletrônicas

queria ser como você, inventivo, criativo, agitado e jovem. e ter cabelos enrolados, que estão na moda, vide a dona florinda, a elza soares e a maria alice (ps - ela cortou o cabelo, ficou uma graça).

H.C.

13.11.07

aniversário

- Mas você está no cursinho ou na faculdade, já?

(cara de ESPANTO.)

- Não, eu já me formei.

- Mas quantos anos você tem?

- 25. (sentimento interno de abismo)

- Nossa, mas tem cara de moleque. Achei que era 19, 20 no máximo.


Deus é pai.



mudando de assunto...





Annika, uma GÊNIA.

(You call me up in the mornings
We’ll stay on the phone until dawning
You tell me secrets I actually keep
You call me up around noon and
Bring me all the good gossip
You hold my head when I throw up
I hold your hand when you weep

And we talk about friends
And we talk about records
Talk about life
And we’ll talk about death
And we dance in the living room
Dance on the sidewalks, dance in the movies
Dance at the festivals, dance, dance
No men ever really dance like this

Damn! I wish I was a lesbian
Damn! I wish I was a lesbian
Damn! I wish I was, and that you were, too
So I could fall in love with you

You call me up in the evenings
And tell me what they did this time
No matter what, I’m by your side
When it’s raining, we’ll go to the video store
We even like the same movies
No damn jedis or hobbits, this time!

And you laugh at my jokes
And I laugh at your jokes
And I even like the birthday presents you get me
And we dance in the living room
Dance on the sidewalks
Dance in the movies
Dance at the festivals
Let’s dance, dance
No men ever really dance like this

Why don’t I fall?
Why don’t I just fall in love with you?
)