24.12.11

sangue, mas com muita higiene




Blood and Gifts, uma nova peça de J. T. Roger que o Lincoln Center produz em sua sala pequena, a Newhouse, uma semi arena para 300 pessoas (ah, essas salas em semi arena do Lincoln Center...), é boa, eficiente (ou, antes, "eficaz"), pontual, limpa.

Faz uma radiografia dos conflitos no Afeganistão que eventualmente culminaram no 11 de setembro, cobrindo a década de intensa disputa entre EUA e URSS, nos anos 80. Por isso, merece ser louvada - filia-se a um teatro político que não se furta em olhar criticamente para seu tempo (ou para seu passado recente) e que de uma forma ou de outra dá à cena uma camada específica de pertinência.

Mas é justamente na nobreza de seus ideais que o texto não se permite ser grande arte (como são as peças políticas de Tony Kushner, Casa/ Kabul, ainda impresso na memória recente, como exemplo paradigmático). Existe, em seus métodos, uma correção excessiva, um semi didatismo. Conta-se a história, mas sem o brio real de vigor dramatúrgico - ou humano, já que os personagens não movem seus dramas, mas atuam como peças do tabuleiro.

A crítica local adora e a lista entre as melhores coisas de 2011 (e faz sentido ao percebermos que o mea culpa norte-americano, no espetáculo, é brando). É compreensível que assim seja, já que se trata, como dissemos, de teatro competente, "excelente", até - além do texto claro e preciso, atores e aspectos técnicos todos em seus devidos lugares. Mas que não acende aquela faísca.

Resulta, assim, em algo como um relato jornalístico ficcionalizado, aos modos do new journalism, bem pesquisado, bem pensado, bem urdido, mas em que o autor estivesse na verdade só inventando - sem a força bruta da 'experiência real' e sem o refinamento intelectual e estético da grande carpintaria dramática.


23.12.11

dormir, talvez sonhar



Para por de forma simples:

Sleep No More é a mais elaborada experiência de imersão cenográfica com fins dramatúrgicos a que alguém talvez jamais se submeta.

É o fenômeno da direção de arte.

É esperta (inclusive comercialmente), é oportunista (isso não é uma crítica), é levada a cabo de forma vigorosa.

É envolvente, estimulante, às vezes até perturbadora.

E mais do que isso é trabalhoso demais para descrever (ao menos textualmente).

Agora, a parte do teatro... Bem, vale dizer que talvez todos ganhassem muito se eles fossem a São Paulo para uma residência artística com o Teatro da Vertigem.


Senhorhomem




Existe o inexcedível e o quase inexpressivo em Misterman, que Enda Walsh escreveu e dirige no St. Ann's Warehouse.

No primeiro grupo, está este espaço, um enorme armazém no Brooklyn, quase à beira do rio, que recebe recheadas temporadas de música (Lou Reed, Marianne Faithful etc) e de teatro de vanguarda (o termo é auto-proclamado, porque esse blog mesmo o acha meio... velho?). E que, dadas as suas características e o aparato técnico que parece conter dentro de sua aparência de falsa precariedade, pode abrigar, ou gerar, um universo inteiro.

E, nele, Cillian Murphy, este ator que já mostrara tantos recursos no cinema (de vilão de Batman a travesti em Café da Manhã Em Plutão) mas que, presencialmente, como todos os grandes, parece ainda mais múltiplo.

Como pedaço de escrita dramática, digamos que o texto de Walsh não reluz. Ou, antes, talvez sirva sob medida à sua direção expansiva, que faz Murphy preencher (ou vandalizar) cada pedaço do gigantesco espaço cênico. Para não ser injusto, existe uma construção dramatúrgica cuidadosa, que, apoiando-se sobremaneira em uma revelação final, acaba reverberando uma vez concluída.

Mas é no tour de force de Murphy, em um personagem retraído e atormentado, que por sua vez personifica outros tantos 'tipos' de seu cotidiano de pequena cidade, que Misterman vive e potencializa-se.

(E, sendo o mundo do teatro como é, já podemos esperar pelo Hamlet que ele em breve terá que fazer.)


o cafona e o travesti




Existem duas reflexões possíveis (talvez as duas únicas) a se fazer a partir da versão teatral de Priscilla - a Rainha do Deserto - que, ademais, é divertido e calórico como um doce de leite.

A primeira diz respeito ao cafona. Do porquê de um grupo de pessoas vestindo roupas (muito) espalhafatosas, fazendo coreografias corporais pouco elaboradas, ao som de músicas que achamos deliciosamente tentadoras há pelo menos uns 20 ou 30 anos, exercer um fascínio tão grande e tão inelutavelmente instintivo aos olhos e ao espírito.

Seja como for, ponto para eles (e à parte o mérito do valor - especialmente o monetário - de produção, que, evidente, há de sobra).

A segunda se refere ao travestismo. Porque se engana quem acha que em uma peça tão completamente gay (ou seria travesti?) predomina uma plateia de gays e mulheres (elas mesmas às vezes tão... travestis). Nada disso! - o programa, no caso, é para a família (a começar pela minha). E dá-lhe homens-brancos-heterossexuais (essa tão solene e hegemônica maioria) sacudindo-se discretamente ao som de I Will Survive.

Porque, em última (primeira?) instância, o travestismo é mais do que um fetiche, uma profissão ou um chamado divino - ele é só uma porção bastante destacável da esquisita e complexa psicologia da sexualidade humana, capaz de chacoalhar desejos, reflexos, disfarces e identificações (quase ousando dizer que na psiquê masculina ainda mais do que na feminina, mas, né, para que ser sexista?).

Mesmo que, soterrado e subconsciente, só se deixe irromper em um lugar tão pretensamente inofensivo e massificado quanto a Broadway.


Krapp, Hurt, Harvey



A experiência de ver John Hurt fazendo Krapp's Last Tape (papel que foi dele desde a monumental série Beckett On Film) começa pelo Harvey Theater, esse templo - com o perdão do clichê. Não é possível entrar ali e não ser muito feliz.

(Afinal, jamais esqueceremos de Cate Blanchett por lá.)

Hurt carrega essa aura de um ator vocal - da estirpe inglesa onde cada palavra precisa se encaixar em sua pronúncia perfeita para só então merecer ser proferida. Beckett decidiu escrever Krapp ao ouvir no rádio o ator irlandês Patrick Magee, de modo que a enunciação, como a peça não deixa dúvida, pode ser a chave do baú. Assim, Hurt seria talvez um dos atores imbatíveis para o papel.

Sim. E não. Vir da memória recente do Krapp de Bob Wilson e também do de Sergio Britto coloca luzes (e sombras) na apreciação.

Hurt e Michael Colgan, o diretor, limpam tudo - há a mesa, a cadeira, o gravador, os rolos e as bananas (Bob Wilson não suportaria um palco tão grande tão vazio). Em seus primeiros minutos mudos, Hurt estabelece uma presença física forte, mas ao mesmo tempo, por assim dizer, flutuante. Seu Krapp está lá, mas é como se não estivesse exatamente lá.

Wilson não é ator para levar Krapp - e por isso não o fazia, relegando a responsabilidade à sua sempre elaborada mise en scène. De toda forma, em sua encenação o personagem era quase robotizado, um boneco dele mesmo - Wilson, mas também de Beckett. Britto aterrava Krapp de forma terrivelmente bela. Hurt faz Krapp quase não ser.

Sua voz ao gravador (e nas poucas palavras ditas so vivo) é imbatível. Mas seu Krapp ressente-se da ausência de uma força trágica. E esse blog, sabemos, prefere quando o horror da condição humana pesa um pouco a mais.


28.11.11

cumprindo a agenda

Não se entende muito bem por que a versão paulista de Cabaret simplesmente abate do roteiro os números So What e It Couldn't Please Me More, tão vitais para aterrar uma parte importante da trama. As versões das canções (assim como as de todos os musicais encenados no Brasil) deveriam ser feitas pelas pessoas que fazem (ou faziam) as versões dos musicais animados da Disney. Ademais, esse Cabaret tem suas qualidades no exato nível de exigência do público que garante "101% de ocupação" ao Teatro Procópio Ferreira - e o que mais um entretenimento pode querer, não é mesmo?


A Bela e a Fera e Alladin, em revisão, seguem sendo bons pra cacete.


Os Altruístas tem o MC que Cabaret não tem: Kiko Mascarenhas. Que explode em histrionismo mas o calca em dores tenebrosas, num controle impressionante de registro e sentimento. Merece indicações a prêmios e troféus.


Um Coração Fraco e como Dostoiévski sabe mesmo das coisas...


Tratando de Fazer Uma Obra Que Mude o Mundo (O Delírio Final dos Últimos Românticos) é quase tão boa quanto seu título, tropeçando de leve numa certa redundância de efeito, em seu último terço. Mas comprova um interessante fenômeno do teatro chileno em praticar dramaturgias de impactante 'realismo fantástico', por assim dizer, olhando para os aspectos políticos da vida (e abra-se o leque de compreensão desse termo, 'político'). Que já estava tão presente em Diciembre, do Teatro En El Blanco, e em Villa + Discurso, da Cia Playa. Faz pensar que, aqui, quem produz algo que se assemelhe é Grace Passô, à frente do Grupo Espanca!.


Querido Gus, tenho que te dizer: Inquietos não me pegou. Será que sou eu?
(mas posso elaborar esse pensamento mais tarde...)

5.11.11

corra, é novembro!



E nossa equipe de articulistas-ninja preparou a lista do que você ainda pode fazer antes de se preocupar com as compras de Natal.


  • 05 de NOVEMBRO

Se você também já viu os Strokes em 2005, no saudoso Tim Festival, e também vendeu seu ingresso para o Festival Planeta Terra, só há uma coisa a fazer: conhecer o teatro do Sesc Bom Retiro com a peça Credores, em curtíssima temporada. Se a animação for grande, na sequência pesque Fausto, na repescagem da Mostra. No Cinesesc.

  • 06 de NOVEMBRO
John Malkovich está na cidade. É dia de prestigiá-lo na salutar mistura de concerto e teatro que promete ser The Infernal Comedy. No Theatro Municipal.

  • 07 de NOVEMBRO
A estreia de A Pele Que Habito foi adiada, mas agora o novo filme de Almodovar está em cartaz. Não é possível esperar mais um só dia para vê-lo.

  • 08 de NOVEMBRO


Leve seus ouvidos para passear e tire a tarde para ouvir o novo disco de Marisa Monte, O Que Você Quer Saber de Verdade. Delicie-se especialmente com o esmero e a beleza pop-romântico-dramática de Depois, Amar Alguém, Aquela Velha Canção e Era Óbvio.

  • 09 de NOVEMBRO
Dê uma chance para o teatro no meio da semana com As Cegas. No Viga Espaço Cênico.

  • 10 de NOVEMBRO
Almoce no novo restaurante Figurati (aberto há menos de um mês) e prove os nhoques, ou o penne com abobrinha, camarão, aspargos e curry.

  • 11 de NOVEMBRO
Mergulhe no cinema brasileiro: entenda que caminhos percorreu Nando Olival desde Domésticas - O Filme, no novo Os 3; confira a atuação premiada de Maria Luisa Mendonça em Amanhã Nunca Mais, estreia em longa-metragem de Tadeu Jungle; ou arrisque-se no cult (e elogiadíssimo) O Céu Sobre os Ombros, de Sérgio Borges.

  • 12 de NOVEMBRO

No mesmo ano em que pudemos ver a montagem de Daniel Veronese, Espia a Una Mujer Que Se Mata, aproveite para perceber quantas faces há numa obra prima da dramaturgia. Vá ao Sesc Vila Mariana para hipnotizar-se com a iluminação onírica de Pedro Pederneiras, com o cenário belo e engenhosíssimo de Márcio Medina e para ver, afinal, de que forma a encenação estetizante e de grande requinte plástico de Yara de Novaes encampa os atores do tradicional Grupo Galpão, no clássico russo Tio Vânia (aos que vierem depois de nós).

  • 13 de NOVEMBRO
Arranje a companhia de uma criança e leve-a ao espetáculo infantil O Menino Que Vendia Palavras. No Teatro do Shopping Frei Caneca.

  • 14 de NOVEMBRO
Cate Blanchett, a grande, também fez Tio Vânia em 2011, na Austrália. Como não estivemos por lá, aproveitemos a segunda-feira de feriado para apreciá-la em Hanna, thriller de Joe Wright lançado diretamente em dvd no Brasil.

  • 15 de NOVEMBRO
É feriado. Vá à livraria e compre Conversas Com Scorcese, de Richard Schickel, que a Mostra Internacional de Cinema acaba de lançar em parceria com a Cosac & Naify.

  • 16 de NOVEMBRO

Misturar é preciso: então reveja Tio Vânia registrado no já clássico filme de Louis Malle, Tio Vânia Em Nova Yorque (Vanya On 42nd Street, no original, porque é mais provável que só se encontre pra download), e também Moscou, em que Eduardo Coutinho documenta o Grupo Galpão ensaiando As Três Irmãs, do mesmo Anton Tcheckhov.

  • 17 de NOVEMBRO
John Kander e Fred Ebb fizeram um trabalho assombroso, memorável e de delícias infindas ao compor, nos anos 60, as canções do musical Cabaret. De dedos cruzados, tome o rumo do Teatro Procópio Ferreira para conferir o quanto sobrevive da inteligência, do wit e da arrepiante sensualidade original nas versões em português de Miguel Falabella. E também para inevitavelmente comparar Claudia Raia a Judi Dench, Liza Minelli e Natasha Richardson, algumas das maiores que cederam corpo e voz a Sally Bowles antes dela.

  • 18 de NOVEMBRO

BRITNEY. SPEARS. EM. SÃO. PAULO.

  • 19 de NOVEMBRO
A distribuidora promete para essa semana o lançamento nos cinemas de O Garoto da Bicicleta, dos irmãos Dardenne. Para depois da ressaca.

  • 20 de NOVEMBRO
Se você ainda não viu a controversa peça Hipóteses Sobre o Amor e a Verdade, do controverso grupo Os Satyros, pode estar chegando sua última chance. No Teatro dos Satyros.

  • 21 de NOVEMBRO

Depois de gravar CD e DVD ao vivo em três apresentações esgotadas no Auditório Ibirapuera, em junho, o coletivo 5 A Seco faz um show de pré-lançamento no monumental Teatro Bradesco. E se você não os conhece, esperamos sinceramente que você já esteja com seu ingresso em mãos.

  • 22 de NOVEMBRO
O nome do show é Bethânia Canta Chico Buarque. Precisa dizer mais? (Ah, sim: é apresentação única.) No Via Funchal.

  • 23 de NOVEMBRO
Relaxe e tome um chopp no meio da semana. Antes, visite a Bienal de Arquitetura, nesta edição abrigada na Oca. (Para o chopp, recomendamos o Bar Balcão.)

  • 24 de NOVEMBRO
O festival bienal de teatro iberoamericano Mirada, promovido pelo Sesc, faz itinerância de algumas peças em seu ano de recesso. Do Chile, neste mês, chegam quatro de uma vez. A primeira é Loros Negros, cuja sinopse é tão instigante quanto confusa. A checar. No Sesc Belenzinho.

  • 25 de NOVEMBRO
Depois de anos afastada dos palcos, Mariana Ximenes está em cartaz, acompanhada por um time de peso, em Os Altruístas. E sendo uma sexta-feira, você sai do teatro no coração da movimentada e caótica região conhecida como Baixo Augusta - o que pode ser o céu ou o inferno, a depender de sua personalidade e disposição. No teatro Augusta.


  • 26 de NOVEMBRO

Trata-se do último final de semana (e talvez a última chance em sua vida de espectador) de ver Fernanda Montenegro no palco. O texto de Viver Sem Tempos Mortos é muito bom, mas é capaz que você nem preste atenção nele, tamanho o poder encantatório da simples e estrondosa presença da atriz em cena.

  • 27 de NOVEMBRO
Mais um espetáculo Mirada, este já valendo pelo título: Tratatando de Fazer uma Obra que Mude o Mundo. No Sesc Belenzinho.

  • 28 de NOVEMBRO
Marcos de Andrade, um ator fenomenal, deve valer sua ida ao Sesc Consolação, em plena segunda-feira, em horário ingrato, para assistir à décima edição do projeto Prêt-À-Porter.

  • 29 de NOVEMBRO

Você ainda tem energia? Inquietos, de Gus Van Sant, e Isto Não É Um Filme, de Jafar Panahi, se cumprirem o calendário previsto, serão as estreias cinematográficas da semana. Vá a ambos.

  • 30 de NOVEMBRO
Termine o mês vendo mais uma (a terceira) peça com legendas: A Amante Fascista, inspirada em obra do perturbador Thomas Bernhard. Mirada, de novo. No Sesc Belenzinho.



(Agora, já pode ir lá tirar o nome do amigo secreto.)