16.12.10

diários de NY, parte 3: o tempo cristalizado




Bloody Bloody Andrew Jackson é o melhor novo musical da temporada que não chegará ao fim da temporada (com exaltação absoluta da crítica mas venda fraca de ingressos, não bancará a aposta e sairá de cartaz antes do previsto). Reconta de forma muito livre e 'emo-rock', como se autointitula, a vida do 7º presidente americano, cujo legado enfrenta controvérsias entre o patriotismo democrático e o apoio à escravidão e à chacina indígena. É empolgante por todo o tempo de sua curta duração, conta com um score extremamente vivo (apesar de não emplacar nenhuma canção memorável) e, razão principal de sua força e destaque, trabalha uma dramaturgia que joga o tempo inteiro com a mais esperta e deslavada sátira metalinguística, tão escancaradamente (auto) paródica como no melhor de Corra Que A Polícia Vem Aí (ou, digamos, TV Pirata), por exemplo.
Benjamin Walker é o protagonista carismático à frente de um elenco inteiro afiado. Porque é disso que se trata, na melhor tradição da cena 'contemporânea' (oh, esse pavoroso termo!): um estimulante jogo entre bons intérpretes, respaldado por um texto inteligente e que fala a seu tempo (politica e socialmente), narrando o passado com ironia e sagacidade. E o faz na medida certa, em uma encenação enxuta e pulsante, revestida na melhor embalagem do entretenimento.



Deve ser algum tipo de piada interna o fato de todas as biografias de todos os atores, na seção "Who's Who In The Cast", das Playbills distribuídas antes das peças, conter uma participação em Law & Order.



Basicamente desde sua estreia, qualquer espectador de talento sabe perceber que Conduzindo Miss Daisy é uma peça na melhor das hipóteses agradável. Reencená-la, portanto, me parece nada mais do que somente a oportunidade (ou o oportunismo) de criar um veículo para dois atores veteranos brilharem um pouco e lucrarem bastante. É exatamente o que fazem Vanessa Redgrave e James Earl Jones nessa remontagem bem morninha, que, à parte a competência do par central, não empreende nenhum grande momento dramático. Enquanto Earl Jones veste com impacto e propriedade uma partitura física e vocal que é tão bem desenhada em termos de composição quanto difícil de compreender em termos de prosódia (ao menos para ouvidos estrangeiros), Vanessa, bem, vale dizer algumas coisas sobre ela...
Um monstro, Vanessa Redgrave é daquelas atrizes maiores que a vida. Shakespeariana, mitológica, espectral, carrega uma aura que evoca grandes personagens. De alguma forma - e por mais que sua carreira cinematográfica cheia de curvas esquisitas, altos e baixos prove o contrário -, o pensamento nela nunca vem associado a tipos da vida 'real', ao menos não da vida muito ordinária. Mas eis que Miss Daisy é justamente uma senhora bem ordinária do sul dos Estados Unidos, às voltas com o filho e o motorista. Vanessa, a dama inglesa de Retorno a Howards End, o mago Próspero em A Tempestade, Cleópatra, Hécuba, ela em um papel tão... simploriamente americano?
O caso, em verdade, não é nem a questão da nacionalidade, já que ela brilhou alguns anos atrás nesta mesma Broadway como a matriarca de A Long Day's Journey Into Night, a obra-prima absoluta da dramaturgia desse país. O negócio é que Miss Daisy é um papel quase boboca e Vanessa parece ser, literalmente, de um outro lugar. O papel ela tira de letra, é claro. Na segunda cena, já toma conta tão completamente de tudo que passamos até a esquecer que a peça não é tão boa assim. A sensação de miscast, no entanto, deixa seus gosto. Por algum motivo, o próprio físico de Mrs Redgrave diz que ela não precisaria, por exemplo, mexer no que fez Jessica Tandy, essa sim talhada brilhantemente para o papel que lhe encheu de glórias. Ver Vanessa é, apesar de tudo, sem dúvida um momento especial demais, a se reter com afeto para sempre. (Como disse o crítico do NY Times, esses atores gigantes em extinção devem ser vistos em qualquer coisa. Até mesmo em Conduzindo Miss Daisy.)
(Além disso, vê-la encerra uma trilogia que compreende Cate Blanchett e Judi Dench, testemunhadas ao vivo no teatro em 2009. E uma olhadinha nos projetos fílmicos vindouros de Vanessa denuncia que o panorama é de boas expectativas. Ela estará no shakespeariano Coriolanos, dirigido por Ralph Fiennes, e no curiosíssimo Anonymous, de Roland Emmerich, interpretando Elizabeth I. Que vem a ser o papel que consagrou justamente Cate Blanchett e que deu o Oscar a Judi Dench.)



Brief Encounter é uma adaptação para o teatro do filme homônimo de David Lean, de 1945, misturando a ele elementos da peça original de Noël Coward (Still Life) em que se baseou. Trata-se de um achado teatral, pensado e conduzido com muita sensibilidade, extremo senso de ritmo e ideias e soluções cênicas inventivas, trabalhando a favor da narrativa. Como toque final, adicionou-se à trama um punhado de canções do autor, que embalam e ampliam os sentidos do texto. A produção é importada de Londres, de onde vem o elenco inevitavelmente coeso (e que não participou de nenhum episódio de Law & Order). Sem maiores efeitos sentimentais, trata-se de um espetáculo leve que, na medida de de suas pretensões, resulta em agradável surpresa.



Time Stands Still é o exemplo cristalino do fenômeno da dramaturgia norteamericana. Peça passada inteira na sala de estar de um apartamento nova yoquino, é daquelas que você sente que já viu 30 iguais (porque já viu mesmo, em palcos pelo mundo ou importadas para o Brasil, em cartaz em teatros dentro de hotéis, shoppings ou faculdades caras), mas que em nenhum momento falha em ser arrebatadoramente competente. Descendente de uma tradição, saída de um molde, é arriscada e provocadora sem no entanto correr o risco de tirar os pés do chão firme. Um primoroso feito de escrita, é o resultado concreto de uma cultura que leva a autoria a sério - 'creative writing', aqui, se ensina na escola, e pra valer!
Donald Margulies, cujas Jantar Entre Amigos e Histórias Roubadas efetivamente já figuraram em palcos brasileiros, é esse autor de extrema 'correção': escreve peças a partir do cânone, de condução horizontal, com pouca ou nenhuma ousadia ou invenção maior, mas que não falham em refletir assuntos e seres de seu tempo, em criar grandes personagens, em remexer o mundo moral e mover a engrenagem mais primordial do drama - peças para se estudar na escola, enfim.
Aqui, guerra, exploração humanitária, sucesso e fracasso profissional, bombas, cicatrizes, casamento, escolhas pessoais e o tempo que tudo enquadra e congela e transmuta, mesmo parecendo ficar imóvel. Laura Linney, que em anos de papeis coadjuvantes e algumas fortes protagonistas cinematográficas - além do furacão na recente série televisiva The Big C - há muito já comprovou a que veio, entrega uma sólida e comovente performance. Mais à sombra, Bryan D'Arcy James e Eric Bogosian (sim, Vinicius Calderoni, o autor de subUrbia) impulsionam com discrição e plenitude as mulheres que mandam na cena. Além de Linney, num papel originalmente criado por Alicia Silverstone, está Cristina Ricci, mostrando para quem ainda tinha qualquer dúvida que, sim, atua feito gente grande. É ela basicamente que proporciona o alívio cômico maior da peça e o faz com domínio total de tempo e palco.
Poderosa em sua temática, finamente esculpida em sua técnica dramatúrgica, dirigida com sobriedade e belamente atuada, Time Stands Still é o programa teatral imperdível da cidade. (Que o diga Rodrigo Santoro, ali sentado na plateia.)



E o Globo de Ouro, né? Um sorriso amarelo e um muxoxo. Mas daí você pensa "opa, peraí, Meryl Streep cadê? Será que ela não fez nenhum filme nesse ano?". Não, de fato não fez. Mas vem aí em 2011 (provavelmente dessa vez para GANHAR o Oscar) como Margaret Tatcher. No entanto, o que ela FEZ esse ano foi uma participação hilária no já por si hilário Web Therapy, websérie de Lisa Kudrow. Streep como gênia absoluta da invenção, do controle físico e da inteligência (contracenando com Kudrow, que nunca deixou por menos), pode ser vista aqui.





13.12.10

diários de NY, parte 2: o Mercador e os Pianos

  • Edward Hopper é pintor daquelas telas para as quais se poderia olhar durante uma vida inteira. O Whitney Museum o recorta em Modern Life: Edward Hopper and His Time de maneira interessante, mas também preguiçosa. Segundo consta, há 2.500 obras do artista no acervo da instituição, então por que mostrar ao público pouco mais de uma dúzia? Estão lá as míticas Gas, A Woman In The Sun e Early Sunday Morning, além de maravilhas surpreendentes como South Carolina Morning, The Sheridan Theater e The Barber Shop (essa um quase Vermeer de seu tempo). Na seleção da curadoria, pode-se ler Hopper como um elo entre um Realismo subjetivo (ou um Impressionismo realista) e um Futurismo conservador. Ou o ponto fora da curva do Abstracionismo, simplificando formas sem abandonar o figurativo. Fato é que Hopper desde sempre explode sentidos humanos em suas telas como poucos. Curiosamente, é como se suas pinturas tivessem dramaturgia, como se as ferramentas visuais admiravelmente manejadas existissem para dar sentido emotivo pleno ao quadro, mesmo que se trate de uma paisagem deserta.

  • Al Pacino é um monstro e quase todo mundo sabe disso. No entanto, em sua carreira cinematográfica recente - a não ser por excessões pontuais como a série Angels In America ou, dizem, o telefilme You Don't Know Jack -, o comentário recorrente aponta a facilidade com que ele liga o piloto automático. A experiência de vê-lo ao vivo, nesse sentido, adiciona tempero à discussão ao escancarar um 'método' que pode ser também uma espécie de álibi (para Mr. Pacino, entenda-se). Clarifica-se uma sensação de que para Al Pacino (assim como para talvez qualquer ator largamente experimentado), atuar e viver são estados basicamente indissociáveis, complementares, unos até. Há sempre uma máscara no rosto de Al Pacino e essa máscara pode nem sempre apresentar tantas nuances ou variações, pode muitas vezes focar-se em um repertório que achamos já conhecer bem. O que separa o mergulho definitivo e profundo de Al Pacino de uma certa 'canastrice' determinada por uma abordagem mais 'careteira' e imediata, é, portanto, o número de tijolos com que se ergue o personagem. Porque o corpo é aquele, a técnica é aquela, o homem é o mesmo. Seu Shylock, nesse O Mercador de Veneza que é o ingresso mais difícil e disputado da cidade, é uma baita de uma atuação (em termos de voz, partitura física, prosódia, emissão das palavras, domínio do tempo e, acima de tudo, sentido do texto), mas olhando bem de perto (e a segunda fila é bem de perto!), enxerga-se com extrema transparência a construção, os detalhados pedaços de uma vasta parede. E entende-se que um mau Al Pacino e um Al Pacino fascinante são mesmo dois lados da mesma moeda, variando em cada um deles a quantidade e dificuldade das peças no quebra cabeça.

No mais, trata-se de uma montagem boa e correta, poucas vezes realmente empolgante, mas com competente fluidez na travessia de uma dramaturgia prolixa. Um ótimo ensemble, com destaque absoluto para a protagonista Lily Rabe, um rosto assustadoramente igual ao de Laura Linney, com os timbres roucos da voz de Cate Blanchett. Ela e Pacino, como dizem as manchetes, são 'as performances da temporada'.




  • Three Pianos, uma peça-concerto cômico-musical do New York Theater Workshop, nem estreou oficialmente ainda, correrá em temporada limitadíssima, mas é a atração off-Broadway de que se houve falar. Três músicos que também atuam e compõe e cantam (ou pelo menos é assim que se consegue comprender a hierarquia de suas 'funções') escreveram - ou, mais provavelmente, improvisaram - digressões dramatúrgicas para acompanhar o ciclo Winterreise, de 24 canções de Schubert. Três pianos em cena movimentam-se frequentemente em um cenário combinado entre elementos oníricos e realistas, criando imagens estimulantes tanto quanto repetitivas. A música não aparece em sua plenitude, sendo na maioria das vezes apenas citada. As digressões extrapolam e requerem coesão e os talentos estritamente 'dramáticos' dos três performers tampouco seguram com o brio que se pretende as duas horas inteiras de espetáculo. A premissa de criar uma fantasia teatral ao redor de uma peça da música erudita soa apetitosa e promissora (e foi o que nos levou ao teatro, pra começo de conversa), mas, apesar de no geral proporcionar uma experiência consistente e estar muito longe de se configurar como um desperdício (de tempo e/ou da ideia), tampouco realiza-se por inteiro.
PS: Na bilheteria, a atendente: "carteira de identidade, por favor?". Eu: "identidade?". Ela: "vinho é servido durante a peça". Eu: "mas você acha que nós não temos 21 anos?". Ela: "acho". Isso é felicidade (ou, vá lá, cegueira).

12.12.10

diários de Nova York - parte 1

Algumas notas esparsas, a constar:

  • Danny Boyle afunda 127 Hours na exata mesma lama onde os críticos (não americanos, em sua maioria) acusavam-no de emporcalhar Quem Quer Ser Um Milionário. A diferença é que este último aceitava o emporcalhamento e refestelava-se nele (ou era capaz de conduzir o público a assim o fazer, de toda forma), enquanto o primeiro só exaspera-se para sair do atoleiro. James Franco faz o que pode (seu convite de apresentador do Oscar, dizem, terá dupla serventia) e há, por parte do roteiro e da direção, de fato uma força em segurar um filme inteiro sobre (ou sob) uma situação dramática literalmente muito restrita. Mas quando vai-se desenhando a perspectiva da pieguice destrambelhada e da diluição das boas ideias, o erro já se apresenta sem volta. (As críticas, aqui, são majoritariamente festivas, não obstante.

  • Soa como um provincianismo deslumbrado achar que a grama da metrópole do vizinho é mais verde, suculenta, esperta e cosmopolita do que a sua própria, mas se já é cantiga velha dizer que passou da hora de São Paulo ter sua Time Out, que dizer então do New York Times e sua edição de fim de semana?! Bem, ela é, assim... ela é o jornal que qualquer culturete (deslumbrado?) merece. Em Arts & Leisure, a reportagem sobre o 'novo' disco de Michael Jackson, uma análise acerca do fracasso das peças de cunho histórico da temporada de outono, o novo dos irmãos Coen, uma revisão da carreira de Bernardo Bertolucci, um perfil de Sofia Coppola, uma entrevista com James L Brooks e outra com a dupla John Cameron Mitchell/ Nicole Kidman. Isso tudo num mesmo caderno de cultura. E não é só uma questão de 'as celebridades deles brilham mais do que as nossas' e sim uma questão de o que se pode fazer/ como abordar essas celebridades. Porque não se trata de textos rápidos e 'releasísticos', mas conteúdos substanciais produzidos a partir dos eventos/ personagens/ tópicos da semana. Para coroar, a The New York Times Magazine traz as fotos e o 'making of' de 14 Actors Acting, mais irmãos Coen, uma investigação sobre as estrelas mirins (a propósito de Elle Fanning), 'o que o filme sobre o Facebook falhou em capturar sobre a era digital', e matéria sobre a noção de realidade fílmica entre documentários verdadeiros e falsos e ficções inspiradas na realidade. This is it.

  • La Bohème em montagem do Metropolitan encenada por Franco Zeffirelli é a opulência que se pode esperar, com cenários de grandioso e meticuloso realismo (praça em Paris com centenas de figurantes, neve artificial etc). Joseph Calleja e Fabio Capitanucci destacando-se sobre as colegas Krassimira Stoyanova e Ellie Dehn, competentes porém sem brilho. Mas a efervescência emocional de uma Bohème bem conduzida (em termos musicais e cênicos) é sempre irresistível.






23.9.10

23 de setembro

hoje, você faria aniversário.

e na cozinha, nessa madrugada, eu sinto o cheiro do pano de prato que costumava ser seu e me desespero menos com a saudade avassaladora que eu já sinto e mais com a perspectiva do quanto, infinitos dias, eu ainda vou senti-la.

10.8.10

ninguém nunca vai saber

...eu sabia que um monte de gente ia olhar pra mim com pena e querer me abraçar e beijar e tocar em mim e eu não queria nada disso, só queria ficar bem quieta e encolhida no meu canto, chorando ou gritando exatamente como eu fiz no chuveiro, esmurrando os azulejos e dobrando o corpo sem força como se ele fosse escorrer pelo ralo que era na verdade o que eu queria ou o que parecia que ia acontecer e também olhando pra dentro de mim mesma porque só eu sabia o que era aquilo, aquela dor, aquela queda looooooooooooooooooooooooooooooooooooonga, contínuacontínuacontínuacontínuacontínuacontínuacontínuacontínInfinita infinita infinita
três vezes infinita, infinitas vezes infinita, sem super herói pra vir salvar mas também sem gravidade, como se eu caísse da lua pra dentro do espaço, um grande nada, um vácuo sufocante, prestes a me despedaçar e ninguém sabia o que eu estava sentindo, ninguém jamais iria entender o que é ter que ver o Tio Tuta indo embora, então por isso eu não quis ver, não quis ver cadáver, não quis ver caixão, não quis chegar perto e enxergar uma tampa de madeira sendo colocada em cima da pessoa que me ensinou tudo o que eu sei e tudo o que eu sempre soube, tudo o que eu era e sou, a pessoa pra quem eu queria mostrar as coisas bonitas que eu fizesse, de quem eu precisava do consentimento e aprovação, e pra quem eu vou mostrar as coisas agora?, pra quem eu vou fazer as coisas?, para quê eu vou fazer?, e que me mostrou todos os lados mais divertidos da vida e as belezas dela e também algumas atrocidades e agora a maior delas porque ele ir embora era a pior de todas e eu não queria participar daquilo para ver se de repente percebiam que estava errado e era mentira e cancelavam tudo e o tempo voltasse atrás e o desespero não existisse; as pessoas que falam em vazio falam porque não querem perceber direito que não tem nada de vazio, é uma grande cheia, um vulcão transbordante de lava entrando em erupção e te queimando toda e subindo pelos seus pés, e seu espírito trancado dentro de um túnel cheio de terra, querendo cavar pra não sufocar em tanta tristeza, e cavando é como se cada punhado de terra fossem todas as lembranças mais palpáveis que você não quer que deixem de ser palpáveis, então na verdade você quer cavar para não se asfixiar mas você também não quer parar de cavar porque quer sentir de forma táctil, e não quer parar de sentir e de entender mas não se entende nada porque ninguém te prepara pra isso, ninguém nunca te avisa que essa sensação existe, te preparam pra um monte de responsabilidades e dizem que a vida vai te ensinar muitas coisas e alertam que nem sempre tudo é alegre e prazeroso mas ninguém te conta que isso é possível, esse momento, isso aqui agora, alguém tira isso daqui, de mim, alguém me tira de mim e todos me deixem sozinha porque ninguém nunca vai saber, sozinha, só nós, só ele sabe e só eu sei e por que ninguém te conta que existe uma queda livre para dentro, uma explosão que despedaça partes de você que você nem sabia que existiam, ninguém, nada, nunca.

9.8.10

em 67


O excelente documentário Uma Noite Em 67 opera destreza, reflexão e prazeres em alguns niveis:

- Surgido em época na qual documentar é tão banal, o documentário trabalha justamente no resgate de um documento histórico único, valioso e ocorrido em um momento em que o registro audiovisual significava outra coisa - tendia a ser portentoso, histórico, testemunha ocular insubstituível de um momento. E, buscando seu documento em arquivos de outrém (especificamente nos da TV Record), ocupa-se em acrescentar a ele pontuais, elegantes e não menos valiosos complementos.

- Possui aquela atmosfera melancólica e efusiva de álbum de retratos e dá a ver a gênese de gigantes - uma experiência sempre efusiva, melancólica e desconcertante.

- Vinga o atabalhoado e trôpego Dzi Croquettes, mostrando como se opera linguagem, discurso, bom gosto e raciocínio cinematográfico. Empreende um documentário, portanto, digno da alcunha.

24.7.10

majestade


é importante que a gente saiba quem é que a gente chama de 'rei
'.


30.6.10

a estrela brilhante


Ela costura, ele escreve.

Ela, o mundo concreto do tato, da precisão do ponto, da obra útil e com valores comerciais.
Ele, o universo abstrato da poesia, a absoluta imaterialidade, a pretensão em alcançar o sublime.

De um para o outro, o mistério, o intangível e a complexa atração instintiva que escapa à sensatez prática e ao intelectualismo estético. O insondável encontro.

Nas imagens enxergadas e (re)produzidas com depuração, nos corpos de Abbie Cornish e Ben Whishaw, a própria invenção do sentimento romântico, tornado Romântico.

No amor entre Fanny Brawne e John Keats, a formulação de uma tese, um experimento científico de (auto)observação sobre algo que nada tem de cartesiano.

Nos sentimentos do espírito, respostas e reflexos do corpo. E no entendimento das sensações físicas, o intelecto conscientizando um desenho que o resguarde, a estratificação de um molde.

Naquele casal de amantes, acontecendo aquilo que chamavam amor no momento mesmo em que a literatura inventava isso que chamamos amor. Sentir encaixar num pré-conceito as vivências que buscamos tais quais aprendidas em arquétipos. A fabricação dos arquétipos, enfim.

Nos labirintos dos desenhos poéticos, a apreensão de uma fôrma precisa como o corte de um vestido.

Na captura de borboletas, entre palavras ao vento, dentro do fascínio da natureza florida ou nevada, diante do doce voar de uma cortina, atrás de paredes de madeira, sob o olhar infantil ou tomados pelo mais genuíno e primário espírito lúdico daquilo que é mesmo um jogo. Na hipérbole da falta, a metonímia dos gestos.

Nas cartas, nas visitas, na dança, no cerimonial da sala de chá, nas viagens, na doença e na morte, o derramamento e a amplificação das dores e delícias, o extravasamento agigantado dos sentidos que carecem de explosão para saberem-se vivos. O sagrado nos afetos do coração.

Um filme Romântico, enfim, sobre um Romantismo que é matéria prima e produto final, realizado com astúcia, perícia, a delicadeza da grande arte e um senso equilibrado de sentimentalidade e rigor estético.

Salve Jane Campion.

12.6.10

o homem do lado


De
: Rafael Gomes
Data: 12 de junho de 2010 19h56min42s GMT-03:00
Para: Thiago Ledier
Assunto: o homem do lado


amor,

"Sideman" é mesmo teatríssimo.

sinto naquele texto o peso da tradição da dramaturgia 'clássica' norte-americana, aquelas peças de O'Neill, Tennessee e Miller, uma maneira de radiografar um período, um grupo, uma sociedade, compondo cenas do simples fluir da vida (como no 1º ato de vocês) e de sua natural derrocada (como no 2º ato de vocês), sem necessariamente uma grande explosão, um grande incidente ou propósito engatilhador de um conflito dramático principal e progressivo. e a moral do perder e ganhar, o ímpeto e a desistência em construir algo.

há beleza de sobra no pequeno drama e nós sabemos disso. e quanta não fervilha na melancolia do jazz (eita música para cortas os pulsos, essa...), no desacerto que é a convivência, na busca por um espaço (para a arte, para si mesmo, para estar, para se esconder). nos escorregadios entremeios dos solos de trompete que conseguimos alcançar, que cansamos de fazer, nos quais não somos creditados.

que maravilha é acompanhar Zé Henrique de Paula (e você ao lado dele), sendo essa coisa tão difícil e exigente que é o encenador. quanto êxito colocando de pé de forma tão competente espetáculos tão díspares como os dos últimos anos e quanto cuidado em se ater ao particular de cada um deles, em não aplicar fórmulas mas empreender de dentro pra fora esse árduo e ardiloso trabalho da direção, erguendo a cena sobre o texto - isso que poderia ser tão básico mas cujo resultado eficaz tão usualmente sequer é esboçado.

que glória são Otávio e Sandra. que glória! atingem a plenitude do arquétipo sem descuidar da individuação.

que bonito é o desnudamento e a coragem de Slaviero em encarar essa 'peçona' literalmente de frente, ele que deve saber-se tão sujeito a pré-conceitos e críticas apressadas, derivados de sua carreira na televisão.

que medo de Eric Lenate, amor. que medo! nunca pensei (naturalmente porque não o conhecia como ator) que ele fosse capaz desse negócio tão difícil que é transcender o naturalismo para tão inteiramente conseguir fincar-se nele, embebedando-se em verdade (e que cena estupenda aquela em que ele é preso!)

que coesão o elenco inteiro, enfim (mas, olha, diz pra Gabriela que ela precisa falar um pouco mais alto).

e cenografia, figurinos, iluminação, sons e todos os afins...

é teatro de se aplaudir de verdade, sabe (porque quantas e quantas vezes aplaudimos protocolarmente, não é?)? e que fenomenal é constatar que pode ter gente capaz de fazer, por exemplo, O Idiota, uma jóia tão fora (e tão dentro, também) de padrões secularmente estabelecidos para essas tais "artes cênicas", e também esse Sideman, tão clássico e tão translumbrante em seu equilíbrio e limpidez, em sua atenção ao padrão e ao convencional (extraindo desses conceitos qualquer carga pejorativa). porque quem consegue fazer teatro "clássico" com essa elegância, esse controle e essa inteligência (emocional, acima de tudo) que atire a primeira crítica.

(quantos parênteses, né? acho que a peça abre parênteses na gente.)

e olha só, não tem nada de "muito longo", não. isso é coisa de gente estúpida que não passa mais de meia hora sem checar iphone ou sem mudar de canal. para eles, os guias de programação agora até possuem toda uma sessão separada para aquelas peças ditas de "Humor".

salve os artistas de teatro!

um beijo


R

9.5.10

burrices sobre um filme excelente


há duas grandes burrices sendo repetidas sobre Tudo Pode Dar Certo:

1) que Larry David é mais um dos clones de Woody Allen no qual o diretor transforma os atores que protagonizam seus filmes quando ele mesmo não o faz.

Larry David não é um ator. Larry David é um brilhante roteirista, criador da melhor série de tv de todos os tempos, Seinfeld, e eventual atuador daquilo que escreve, como em Curb Your Enthusiasm, em que aparece como ele próprio. Larry David sempre interpreta a si mesmo.

o que se opera em Tudo Pode Dar Certo, portanto, não é que Woody Allen tenha contratado um grande ator para encarnar um tipo próximo do que ele consideraria ideal para o papel (como já fez com intérpretes diversos, de John Cusack a Kenneth Branagh, por exemplo). Woody Allen apenas entendeu que o personagem do texto que ele escreveu (muito mais ácido e cáustico do que o próprio Allen jamais foi) poderia ser (de) Larry David. a transmutação é na direção oposta: Larry David é que transforma Woody Allen em Larry David - e não o contrário.

quem não entende isso não sabe nada sobre Larry David (e talvez nem sobre Woody Allen) e não sou eu quem vou explicar.


2) que o filme é "mais do mesmo".

de que "mesmo"?

nos anos 90, Woody Allen dirigiu um climático filme noir sobre um assassino serial em uma pequena cidade perdida no tempo (Neblina e Sombras), um drama atordoante sobre casais em crise (Maridos e Esposas), uma comédia de erros sobre vizinhos, espionagens atrapalhadas e, por que não?, invasão de privacidade (Misterioso Assassinato em Manhattan), uma refinada comédia sobre a cena teatral - e marginal - da Nova York dos anos 20 (Tiros na Broadway), um filme sobre adoção e descendência narrado por nada menos do que um coro grego (Poderosa Afrodite), um delicioso musical sobre amores e família (Todos Dizem Eu Te Amo), uma mordaz sátira metalinguística (Desconstruindo Harry), um painel sobre o mundo da fama (Celebridades) e um falso docudrama sobre um violonista de jazz temperamental, ambientado nos anos 30 (Poucas e Boas).

na década passada, um hilário filme sobre ladrões pé-de-chinelo e novos ricos (Os Trapaceiros), uma trama nostálgica sobre crimes sonâmbulos e guerra dos sexos (O Escorpião de Jade), uma corrosiva comédia ligeira sobre o olhar e a Arte, a partir de um diretor de cinema que fica cego (Dirigindo no Escuro), um drama-cômico existencial juvenil (Igual A Tudo na Vida), um estudo comparativo entre os intrumentos da comédia e do drama (Melinda e Melinda), um retumbante thriller psicológico sobre poder, cobiça e culpa (Match Point), uma divertida trama amalucada e de tintas fantásticas (Scoop), um seríssimo e cinzento embate familiar acerca de um crime (O Sonho de Cassandra) e um reluzente e solar triângulo amoroso em terras espanholas (Vicky Cristina Barcelona).

Tudo Pode Dar Certo é uma devastadora, cínina e amarga comédia contemporânea sobre uma Nova York contemporânea, narrada por um personagem inteligente, prepotente, ambíguo e muito contemporâneo, discorrendo sobre as improbabilidades da vida e a felicidade possível em um mundo tornado caótico por indivíduos que de modo geral fracassaram no projeto humano. ou que dão um jeito de as coisas funcionarem (ou darem certo) apesar de tudo.

se alguém realmente vê nele, em relação aos 18 títulos citados anteriormente, "mais do mesmo", então deus nos acuda! para a burrice de cada um, whatever works.



PS:
e se Patricia Clarkson já há muito é das mais espetaculares e subestimadas atrizes em atividade, que extasiante talento se mostra Evan Rachel Wood.

*

e no mesmo tema, Inácio.

6.5.10

os muitos teatros de O Idiota


há muitas teatralidades presentes em O Idiota - ou, antes, muitos teatros.

na chegada, há o singelo, o sussurro, o acolhimento de várias pequenas moradias, atores em mais de um sentido nus vestindo-se de personagens com poucos aparatos e muita delicadeza.

num trem que atravessa mundos, há a imediata instituição de um sentimento épico, platéia feita cenário e o encontro dos corpos potencializando a cena.

não tarda para a música mostrar que não está para a brincadeira - este Idiota é também um musical.

trem vira palco e os brincos de Nastássia Filípovna, esmeraldas verdes translumbrantes na escuridão de todo um universo, são a mais preciosa e sutil indicação de que este é um espaço - e um teatro - construído(s) por luz.

é de uma encenação maiúscula que se trata, expansiva, espalhada, fragmentada na ocupação de múltiplos focos para o olhar, vistos sob muitos pontos de vista diferentes. na soma dos sentidos de todos que o testemunham, é um teatro cubista.

mas o trem chega e há movimento. platéia de pé, vagando. a cena assume de vez sua itinerância.

na casa da mãe, somos um corredor, teatro-passagem. a fábula é narrada por um e enfeitada por muitos - teatro coral.

na casa do pai, somos um amontoado de platéia e a cena em andaimes expõe sua mais crua estrutura ilusionista. é um teatro-estádio onde os atores estão nas arquibancadas.

a música nunca para. há um piano em cena, afinal.

na casa da dama, um salão de festas de tijolos aparentes e um largo semi-círculo. taças de champagne e uma fogueira, um teatro do desfrute. no drama, limite.

em Luah Guimarãez, o teatro da exuberância.

antes da segunda parte, uma retrospectiva que nem séries americanas fariam melhor (previously on The Idiot...). um teatro de pontuações e sínteses.

na casa do irmão, o trem virou lago. na água, em mais e maiores andaimes, um teatro de sensações físicas.

no drama, a exaltação. surge a besta do apocalipse e com ela um certo teatro do caos, do transtorno.

na casa do cavaleiro pobre, encontros. em Fredy Allan, o afeto. em Silvio Restiffe, o teatro da energia represada. em Luís Mármora, uma morte de profundos desalentos.

no banco verde, cenas em mútliplas camadas e um teatro do deslumbre.

com o vaso chinês, o teatro do teatro da vida, do teatro ele mesmo, do teatro interior.

em Sylvia Prado, a autoridade sem perder a ternura. a musicalidade.

no quarteto, a beleza do teatro em um auge difícil de ser alcançado. forma e conteúdo, drama e encenação - teatro de constrição, de concisão, de puro maravilhamento.

por todos os cenários, Lúcia Romano e o doce veneno da verdade.

na casa da morte, um teatro de sombras. em Sergio Siviero, a loucura.

na ressurreição, tudo ao mesmo tempo agora. o teatro feito ritual, celebração, densa e transbordante humanidade.

em três jornadas de 7 horas, o teatro do domínio, do propósito, do conteúdo tanto quanto da forma, da comunicação.

na direção, na iluminação, na cenografia, na adaptação, no elenco, na música, nos figurinos, no trabalho de todos os envolvidos, uma arte maior, insubstituível, séria, profunda, justa.

que significa, ressignifica, alimenta e preenche. para isso estamos aqui, afinal.


29.4.10

hora de despertar



A questão não é gostar ou não gostar da produção brasileira do musical O Despertar da Primavera porque não é ela que importa, aqui, para mim. Eu não gostava de O Despertar da Primavera. Essa resposta eu já cheguei ao teatro sabendo.

Em maio de 2009, pela ocasião de tê-lo visto encenado em Londres, escrevi:

... se em Rent as canções eram muito mais carismáticas e o espetáculo radiografava com alguma precisão o tal “espírito do tempo”, quando de seu lançamento em 1996, Spring faz a crônica generalista de uma idéia de adolescência que soa francamente anacrônica e aproxima-se perigosamente da ingenuidade tola. Ou, em outra chave, talvez só eu esteja velho demais para me envolver com questões tão estritamente juvenis tratadas sob uma ótica de desajuste já por demais desgastada (e já incontornavelmente pouco verdadeira).


Não acho que eu esteja velho demais, não acho que nenhum de nós esteja. Mas fiquei horrorizado feito um avô sensível ao testemunhar a adoração que o espetáculo provoca numa juventude (arquetipicamente adolescente) paulistana que não tem (ou não deveria ter) nada de ingênua, não - a começar pela iniciativa de gastar um bom dinheiro com o ingresso, em mais de uma ocasião, já que a taxa de reincidência da platéia é notável no momento mesmo em que se ouvem os primeiros acordes das canções.

Se fosse só um caso de má arte (e é), o susto poderia ser menor. Porque a força da grana que ergue um determinado tipo de "competência" capaz de impressionar o público, isso já estamos carecas de conhecer. E no sentido artesanal, técnico, não há dúvida de que é competência o que vemos.

(E reparem, por gentileza, que nenhuma vírgula desse texto diz respeito especificamente à adaptação nacional e/ou a maneira como a equipe criativa local optou por encenar o espetáculo. Isso não é uma crítica aos colegas e jamais será. O ponto, aqui, é a matéria prima original e a forma como ela opera sobre e é processada pelo público).

O negócio é que tudo é completamente datado, chato, careta, moralista. Estamos num teatro musical que dá uma roupagem rock, devidamente enérgica e/ou sentimentalista como a grande música pop gosta de ser, a um drama teenager passado na Alemanha de 1891. Vou repetir: mil oitocentos e noventa e um.

Assim como as comédias 'adolescentes' de Shakespeare encenadas hoje ou amanhã em um palco perto de você cintilam de inteligência, sagacidade, luz e brilho dramático, provando-se "imortais" e "eternas" em sua radiografia do ser humano de qualquer tempo, esse deve ser também o caso desse texto clássico do teatro, então?

NÃO
.

Como é possível se identificar com uma dramaturgia tão pífia, banal e frouxa, claudicante, apressada, que opõe forças construídas de maneira rasinha, rasinha, chegando a ser ofensiva?

- Eu sou um garoto de 16 anos, mas o sexo oposto é pra mim um mistério insondável e proibitivo.
- Eu sou praticamente uma mulher, mas ajo sentimentalmente (e discurso) como se tivesse cinco anos.
- Eu apanho do meu pai, sou terrivelmente infeliz.
- Oi, como vai?, eu não sinto nada, me bate, mas me bate forte?
- Eu sou bichinha do modo mais idiota que eu poderia ser.
- Eu vou repetir de ano então talvez seja melhor eu me matar e, opa!, me matei mesmo.
- Eu fiz sexo e fui punida com uma gravidez e tive que abortar e, opa!, morri.

O QUÊ? Cê tá falando sério?? Uma bunda, um peitinho, um "vai se fuder" e nós somos "ousados"? E os adolescentes efetivamente se identificam???

SIM.

Pelamordedeus, alguém me salva! Alemanha, 1891, é você batendo na porta?? Não tem como o sujeito não se deprimir.

Em primeiro lugar, porque talvez a resposta seja, de novo,"sim": 1891, seja bem vindo. Estaria o pêndulo da História Moral da Humanidade em seu lado mais reacionário e insuportável?

Porque se as Grandes Questões são essas, se fazer sexo é a maior transgressão de que um espírito jovem é capaz, se uma peça existe para retratar uma juventude aprisionada que desafia valores, mas na qual os amantes, o questionador, o ateu, o intelectual, os que pensam e raciocinam e realmente reagem para sair da roda-viva são sumariamente punidos, expelidos, massacrados, onde está o chamado à transgressão? Onde está a ousadia? A rebeldia tem valor (e exala energia de ação) quando exposta operando de forma tão avessa?

Será esse mesmo o grau de cegueira e castração das liberdades/ vontades individuais em que vivemos? Essa peça faz sentido por refletir com precisão a juventude que vai assisti-la ou para dizer-lhe "viu, querido, como os tempos já foram piores? que bom que hoje papai te traz ao teatro, até, né? agradeça pela vida que tem!"???

E, nesse caso, ela faz isso organizando o que não deixa de ser uma celebração em torno do moralismo paternalista, sufocante e conservador?

Em segundo lugar, é possível somente (somente?) que a oferta de arte que de fato dialogue com honestidade com adolescentes seja tão escassa que um negócio desses passa bem (como outras coisas vem passando há anos). É uma latente possibilidade (ou uma peremptória verdade?).

Em qualquer uma das duas hipóteses, no entanto, vem a calhar que As Melhores Coisas do Mundo esteja aí para mostrar que não é bem assim.

Mesmo que um crítico que muito respeitamos aponte no filme, com alguma propriedade, justamente uma visão edulcorada da vida e de suas possibilidades de redenção, a complexidade do mundo que a dramaturgia dele apresenta e a maneira como ela de fato estabelece pontes sólidas de contato com uma realidade imediata (daquilo que é a subjetividade juvenil hoje e as circunstâncias do mundo possíveis de nela interferir), demonstram articulação, "atualidade" e honestidade tão infinitamente superiores que colocam a obra de Wedekind de onde não há motivo para ela ter jamais sido tirada. Ou seja: 1891.

E pra completar, não há uma, uminha só música capaz de cativar ou empolgar. Nada que você consiga sair do teatro feliz por ter ouvido.

Mas a joça faz sucesso (aqui, em Londres, em Nova York...). Estamos fritos!

18.4.10

carta para vocês de 'as melhores coisas do mundo'



Você certamente não se lembra, Laís, mas lá se vão quase 10 anos desde que eu te mandei um email depois de ter ido ver Bicho de Sete Cabeças com meus colegas de faculdade, em uma sessão no Espaço Unibanco de Cinema, sexta-feira à tarde, dia da estréia. A sala estava cheia de jovens como nós então éramos e lembro de meu entusiasmo duplo: naquele alvorecer da profissão que eu decidira seguir, comprovar que havia um cinema brasileiro possível e que ele chegava a seu público. Sobre isso te escrevi, no entusiasmo daquele momento, e você respondeu meu email – lembro-me com clareza. (Você inclusive me disse para mandar meu currículo já que, quem sabe, estudante que eu era, talvez não surgisse um estágio na produtora de vocês. Eu nunca mandei.)

Ontem fui ver As Melhores Coisas do Mundo, novamente no dia de estréia, mas agora sem os mesmos amigos, já há muito formado, avançando em anos no exercício da profissão. Eu mesmo, agora, já criei e dirigi uma série de televisão para adolescentes, além de ter passado por tantas outras experiências audiovisuais.

E por algum motivo relutei a entregar-me a seu filme, incomodei-me com a apresentação dos personagens e conflitos, não acreditei neles de imediato. Mas de uma hora pra outra, magicamente, eu estava pego. Ouso precisar em qual momento: a conversa de Mano com seu irmão mais velho sobre a primeira experiência sexual de ambos, construída sobre uma honestidade narrativa que dali em diante só faria crescer.

Eu então consegui finalmente sair de mim e abandonar os tantos assuntos e preocupações que ultimamente teimam em não largar minha cabeça (não importando a qualidade da arte que elejo para assistir). E, fazendo isso, espatifei-me em cheio contra mim mesmo.

Passei pelo que deve ser a experiência padrão dos adultos que vêem o filme com o coração aberto: senti-me um adolescente, encantado pelo frescor de sensações e descobertas que soavam tão antigas e tão vivas, indesviáveis, arrebatadoras. E falo em “experiência padrão” sem medo de me inserir no clichê, porque só os clichês são verdade (e será que eu já sou adulto?).

Ensaiei ressentir-me da velocidade dos acontecimentos, do ar de painel que advém de uma multiplicidade de pequenos dramas, da duração rápida das cenas. Mas o outro jeito de olhar para isso é achar que a vontade de que as cenas perdurem são reflexo da qualidade humana que elas engrendram. A travessia dos lugares comuns é a consciência de que, meu deus!, como a adolescência é, mesmo, cheia de lugares comuns - só os clichês são verdade.

Luiz, obrigado por batalhar para que estereótipos sejam representados como arquétipos, que é o que são. Por escrever jovens que não fogem muito à regra de como os imaginamos porque eles são, enfim, como os imaginamos. O que inconscientemente sempre achamos que sabemos deles são o que eles nos mostram. E que sabemos, enfim, porque estivemos lá, não estivemos?

Francisco, obrigado pelo seu olhar portador de todas as dores do mundo e capaz da alegria mais genuína. Obrigado, Francisco, pela verdade. E por aquele sorriso que encerra o diálogo final, uma das coisas mais lindas do mundo.

Paulo e Caio, obrigado por envelhecermos. Pela maturidade. Por assumirem com tanta propriedade papéis de mentores de personagens que até outro dia eram vocês que faziam. Paulo, obrigado especialmente pela serenidade e por duas cenas tão bonitas com Francisco.

Gabriela, me desculpe por torcer o nariz para você no início da história. Obrigado pela melhor piada de todos os tempos. Obrigado por ser o reflexo tão adequado de gente que eu conheci e amei tão igualzinha a você. (E cuida bem do coração do Mano, tá?)

Denise, eu quero jogar ovos na parede com você todos os dias da minha vida.

Luiz, será que você também viu Domingos dizendo “fica com os dois, Glorinha, eu agüento!”? Será que você também ama (o texto, a cena, o Domingos)? Fiuk, e você, será que viu?

Laís, será que você viu Passagem Azul enquanto Mano andava de bicicleta pelas ruas de São Paulo? Será que você viu Mano andando de bicicleta enquanto via Passagem Azul?

Por que será que eu ri e chorei e me deixei conquistar tão reconfortantemente pelo afeto e o calor que esse filme de vocês dá em abundância para a platéia? Como, mesmo sem vossos corpos presentes, há tanta troca de energia?

E, Arnaldo, obrigado por mais essa canção linda de morrer. Já que ela aparece tão escondidinha nos créditos finais, assino essa carta cantando-a (em sua voz).

Um beijo,

Rafael



20.2.10

as delícias coquetes de 'Chéri' (e um pouquinho de 'A Fita Branca')


Chéri foi lançado nos cinemas - brasileiros e internacionais - de mais a mais sem grande relevância, perdido entre outras estréias e com pouco espaço em imprensa e/ou atenção do público.

é certo que não se trata de um grande filme, mas notemos que Stephen Frears é na maior parte do tempo um narrador invulgar, de Ligações Perigosas (1988) a A Rainha (2006). mais: trata-se de um cineasta inteligente e que se ocupa verdadeiramente dos temas, das circunstâncias e das implicações morais de seus personagens e seus atos, em seu tempo.

o desenrolar de Chéri é permanentemente prazeroso, apesar de se poder levantar inúmeras acusações contra ele. sim, há música em excesso (mas é uma bela música, não é?) e as causas dramáticas muitas vezes soam incipientes, mas ouso gostar do filme ao preferir frui-lo em uma chave literária - a que, ademais, ele paga tributo, adaptado que é de dois romances da autora francesa Colette, cria legítima da Belle Époque retratada no trio de obras.

o texto de Chéri, dessa forma, possui um sabor específico ao ser escutado como um 'romance em cena' (e Aderbal Freire-Filho que nos permita dizer isso). importa menos que os diálogos soem consistentes em termos das motivações das personagens e mais que eles consigam fazer parte de um determinado jogo da encenação de uma forma artificiosamente relevante.

aos moldes de A Fita Branca, por esdrúxulo que possa parecer o paralelismo, Frears retrata uma determinada dinâmica social e sua conjuntura às margens da História, sintetizando a Belle Époque, sua superficialidade irresistível e suas contradições - frutos legítimos de seu tempo tanto quanto agentes transformadores dos tempos que se seguiriam - momentos antes de sofrerem violento revés com a eclosão da I Guerra Mundial.

e o faz a partir de um estimulante jogo de sedução, paixão, amor, recusa, ciúme, poder e tantos outros sentimentos tão antigos quanto persistentes. e que vêm à tela com um vigor todo próprio.

acompanhar o caso de Lea de Lonval e Cheri é um sentimento sedutor e inebriante em termos cinematográficos mais epidérmicos, no que diz respeito a cores, movimentos, luzes, dinâmicas, figurinos e direção de arte luxuriantes, assim como também humanamente reflexivos, no ponto de chegada do drama. sempre na chave de um realismo 'de mentira', como na leitura encenada de uma obra literária que não necessariamente precisa transcender seu material de origem.

parte desse prazer há de vir sem dúvida de Michelle Pfeifrer, translumbrante em longos cabelos, sofisticados vestidos e muitos sussurros, e de suas cenas de fragilidade e poder com o amante tanto quanto de seus duelos cínicos com 'a sociedade' incorporada em uma Kathy Bates em piloto automático mas nem por isso menos saborosa.

Chéri, esse 'drama de alcova' que é quase uma redução de câmara da grandiloquência de Ligações Perigosas, tem a elegância e o encanto de uma coquete - da frívola sonoridade do termo tanto quanto de seu significado.

*

pegando a isca do assunto, sobre A Fita Branca mapear a conjuntura social de ascendência no nazismo, Michael Haneke tem palavras diretas e elucidativas sobre o caso:

Tinha vontade de tratar da educação que impõe valores absolutos às crianças, que acabam por interiorizá-los. Queria mostrar que, se têm o caráter formado a partir de um princípio absoluto, elas se tornam inumanas. Cada ato terrorista, cada manifestação de fanatismo, seja ele político, religioso ou de outra natureza, é alimentado por essa fonte de intransigência. Qualquer idéia se torna perversa se tem, como ponto de partida, o autoritarismo. Esse é um tema universal, que não tem ligação direta com a problemática alemã. O filme não é sobre nazismo.

palavras secas e depositárias de uma inquietante (e, por que não?, "óbvia") verdade, tão perturbadora quanto facilmente relegada. e que encontra no filme uma dramatização rigorisíssima e sufocante, uma espécie de cinema que vai ao alvo dos instintos e dos sentimentos mais inelutáveis para provocar em verdade o intelecto. um cinema que Haneke faz como ninguém e que chega como míssil em quem se dispõe a encará-lo de frente.

27.1.10

Douglas Sirk impõe a essência do melodrama

por INÁCIO ARAÚJO

A coisa mais impressionante nos melodramas de Douglas Sirk é isso que se pode chamar de "o olhar do cego".

Seus personagens, no entanto, nada têm de cegos, caso de Fred McMurray em Chamas Que Não Se Apagam.

Ele é um próspero industrial numa cidadezinha do interior, casado com Joan Bennett, que em outros carnavais já foi bem mulher fatal.

Mas quem surge (ou ressurge) na vida do industrial é ninguém menos que a atriz Barbara Stanwick, a essência da "femme fatale".

Ora, o bom homem ficará suspenso entre sua linda casa e seus belos filhos - ou seja, essa vida pacata e, vamos admitir, insossa que as coisas muito certinhas propiciam - e a tremenda atração que sobre ele exerce a outra.

Desde então ele vê, mas não enxerga o mundo: por mais que olhe, ele só vê a si memso, ali onde o mundo desmorona.

O melodrama é fundamentalmente isso: não uma choradeira, mas a percepção de que a vida realmente não perdoa.

11.1.10

Nova York - dia 10: um arremate Romântico

(um tempo considerável passou e agora esse relato tem tudo menos o calor do momento. então vai ser na base do resumão...)


Fela! é o novo musical da temporada outono/ inverno que qualquer resenhista de qualquer publicação vai te jurar que é imperdível (entre 'melhores do ano' e afins). tendendo a ter um fraco por críticas persuasivas, lá fui conferir a história de Fela Anikulapo-Kuti, com direção e coreografia de Bill T Jones e produção apadrinhada por Jay-Z e Will Smith.

antes de peça, é um recital. chamam-no de "o mais original musical em cartaz na Broadway" e há uma medida de verdade nisso no sentido em que ele faz de uma maneira que nenhum outro faz. a forma é a chave.

um enérgico e estrondoso ator, Kevin Mambo (revezando-se com Sahr Ngaujah), literalmente conta a história de Fela, compositor, músico, cantor e ativista revolucionário. pequenas cenas são encenadas, mas a coisa toda funciona mais como show.

o intuito é envolver o espectador na atmosfera do bar original que Fela possuia na Nigéria em seus anos de esplendor musical e político, onde todas as noites fazia grandes apresentações sonoras e inflamados discursos contra a ditadura governante (e o Imperialismo Britânico).

o teatro inunda-se em Afrobeat, nas canções de Fela, em improvisos intrumentais, em coreografias eletrizantes, cores, projeções, atores e dançarinos movidos a poderosas baterias movimentando-se pela platéia e por todos os outros lugares que eles conseguem preencher com corpos que parecem bombas artísticas.


em 12 espetáculos vistos na cidade, não há nem de longe aplausos tão calorosos e entusiasmados quanto aqui - e a platéia até é convidada a ficar de pé e dançar em dado momento, o que faz sem qualquer inibição. isso transmite a medida precisa de quanto fascínio a arte de uma cultura "exótica", quando bem representada, pode exercer, levando o público a lugares onde ele realmente não fora antes.

legítimo e honesto a seu biografado e aos princípios de fazer viva uma manifestação artística específica e especial, vigorosíssimo em sua realização, Fela! não é o tipo de musical que exatamente faz minha cabeça, embora assisti-lo (ou, antes, experimentá-lo) seja um grande prazer.

e pode-se dizer seguramente que, evitando folclorizações e escapes fáceis ao "estrangeiro", temos aqui, sim, algo de intensa originalidade.

*


Os Contos de Hoffmann, no Metropolitan, com direção do mesmo Bart Sher de South Pacific, veio vingar a letargia e o peso da Elektra vista aqui alguns dias atrás.

a partitura solar e fragmentada de Offenbach vaz vibrar sua leveza em uma encenação delicada, caprichosa, cheia de pequenos detalhes e prazeres. seja na inebriante área de Olympia, cantada com brio e sutil fantasia pela understudy Rachele Gilmore, à intensidade dramática quase fantasmagórica da cena de Antonia, no corpo de Anna Netrebko, a sensação é de uma sedutora e apaixonante viagem pelos sentidos.

(conduzida ela toda com o exato senso de inteligência, o interessante distanciamento e as qualidades dramáticas com que Kate Lindsey interpreta/ canta o duplo papel de Nicklausse/ Musa.)


cores, texturas, luzes, sombras, coreografias, movimentos, tudo gira com a mecânica simples e precisa de um carrossel - o que, de certa forma, dramaturgicamente o libretto sempre fez mesmo.

espetáculo de sonho e encatamento, uma pequena refeição para a alma, um arremate refinado para a temporada de espetáculos nova-yorquinos.

1.1.10

Nova York - dia 9: tarde de esplendor colorido e musica de à noitinha



é um dia de quase tudo fechado, então por que não dormir até mais tarde, tomar um café da manhã que é quase almoço e se enfiar no cinema?

seguindo a recomendação mandatória de Marco Dutra, decido ver Avatar em "um Imax de verdade, e não esse Imax 'de bolso' que a gente tem aqui no Pompéia". então tá.

bom, a sala de cinema é um negócio realmente monstruoso - defronte à primeira fila de cadeiras há um pequeno abismo. sessão lotada, uma voz falando no auto-falante para as pessoas não deixarem cadeiras vazias entre si, trailers que passam antes da hora marcada.

e o que dizer sobre Avatar? realmente não sei, porque acho que já se disse tanto... em página dupla num anúncio no Times esses dias, era possível ler, por exemplo (em tradução livre e preguiçosa):

* "Abrace o filme - certamente a mais vívida e persuasiva criação de um mundo de fantasia jamais visto na história do cinema - como uma experiência totalmente sensorial, sensual, voluptuosa. 'Avatar' é uma experiência de ponta que, nos anos por vir, definirá aquilo que os filmes podem alcançar." (Richard Corliss - TIME)

* "Restaura um senso de maravilhamento à experiência cinematográfica que estava em falta há tempo demais. O choque e espanto de 'Avatar' merecem ser vistos. Você nunca experimentou algo como ele, assim como ninguém mais. Ver 'Avatar' é sentir que você entende o cinema em três dimensões pela primeira vez." (Kenneth Turan - LOS ANGELES TIMES)

* "Vendo 'Avatar' eu me senti mais ou menos como quando vi 'Star Wars' em 1977. O filme de James Cameron tem sido assunto de um incansavelmente dúbio falatório antecipado, assim como o seu 'Titanic' foi. Uma vez mais, ele silenciou os duvidosos simplesmente entregando um filme extraordinário. 'Avatar' não é simplesmente um entretenimento sensacional, embora ele seja isso. É um evento, um desses filmes que você sente que precisa ver para não ficar de fora da conversa." (Roger Ebert)

* "Glorioso. Se a história de um paraíso encontrado e potencialmente perdido parece ressoante é porque 'Avatar' é tanto sobre a nossa Terra quanto o universo que o sr. Cameron inventou. Mas o mais verdadeiro significado do filme está na audácia de sua realização." (Manohla Dargis - NEW YORK TIMES)

todos esses críticos estão certos, a seu modo, até na medida em que determinadas afirmações precisarão passar pela prova dos anos. para mim, Avatar é o encontro de tantos filmes e referências e experiências e aspectos mitológicos. o mundo intergaláctico de Star Wars, as sociedades e criaturas de Senhor dos Anéis, o encantamento juvenil que tanto me marcaram em Caravana da Coragem, o gênio e pioneirismo de 2001 (não importa quão longe se vá, o homem não escapa de si mesmo), O Novo Mundo de Mallick e a terra maculada, a destruição da cultura nativa, a força da grana que ergue e destrói coisas belas.

em verdade, a metáfora política é quase um panfleto de tão evidente, mas as questões da dominação colonizadora (e aí Malick está lá de novo, acenando na dianteira) empreendem uma reflexão não banal sobre natividade, oposição, Maniqueísmo, o olhar sobre o outro e a mudança que esse olhar sofre diante da efetiva possibilidade de estar em seu lugar.

quem diria que James Cameron é um pacifista e que quer nos dizer que raça, ou aquilo que somos, não é uma predestinação, mas um estado mutável - no fim das contas, somos aquilo que sentimos/ queremos ser, onde pertencemos.

visualmente, acho tudo mesmo um desbunde.

(e as cores, meu deus, as cores... esses diretores de arte devem ter se afogado em Picasso - da fase azul, especificamente - Kandinsky, Paul Klee e tantos etcs...)

na história de qualquer arte, raramente costuma ser à toa que se passa tantos anos sobre uma realização. e nesse sentido, o filme é um império de enorme porte, beleza e significado.

a tecnologia importa na medida daquilo que ela é capaz de fazer. toda a história poderia ser contada sem um segundo de 'efeitos especiais'? claro que sim (como dissemos, Terrence Malick o fez). mas ela não é, aqui, e esse é o ponto. os 'efeitos' passam a ser toda a realidade cinematográfica em si e isso, em termos imaginativos, fantasiosos e escapistas é de fato o que conta.

as qualidades de Avatar, hoje, são ir aonde ninguém foi antes. e me parece que esse sentimento é vivo não por raciocínio intelectual, mas pelas mais primitivas respostas sensoriais, físicas, emotivas e estéticas advindas da experiência que se tem em sentar e assisti-lo.

pelo menos em Imax 3D "de verdade".

(ah, e Sigourney, né?, pondo aquela dignidade na coisa toda... e era só eu que, desde Lost, morria de saudade da masculinidade de Michelle Rodriguez?)

*


A Little Night Music é uma montagem que eu realmente não veria de novo, em tão curto espaço de tempo, não fosse pela atração inescapável exercida pelas presenças de Catherine Zeta Jones e Angela Lansbury no elenco (e, afinal, elas estão lá para isso mesmo).

ao ver a exata mesma produção em Londres, em maio, escrevi:

Para fechar tudo com chave de ouro, no entanto, houve A Little Night Music. E por mais que Marco Dutra sempre houvesse me alertado das delícias das partituras de Stephen Sondheim, há coisas que nós temos mesmo que aprender sozinhos - ou, na melhor das hipóteses, guiados por uma montagem tão afinada quanto essa. Não há nada fora de lugar, mas a alma de tudo é sem dúvida um elenco que canta tão bem quanto atua e que valoriza com perfeição as muitas nuances (cômicas) do texto. Ressoam pelo palco as comédias mordazes de Oscar Wilde e os labirintos sentimentais de Tchekhov, amarrados em música e cena que são puro deleite intelectual e estético. Não poderia haver melhor final de temporada londrina, nem melhor porta de entrada de uma paixão por Sondheim."


continuo achando a mesma coisa, mas algo do frescor se esvai na reprise. em particular, o elenco londrino parecia estar sempre em maior domínio do jogo de cena, indivual e coletivo.

Angela Lansbury é uma lenda e vê-la não tem preço. ela passa pela peça sentada (literalmente) sobre o talento burilado em 84 anos de vida, tantos deles dedicados aos palcos. é perfeita em cada segundo, mas é uma coadjuvante. a atuação de Maureen Lipman em Londres, por exemplo, não deve em absolutamente nada a de Madame Lansbury, no sentido em que essa última não cria um personagem memorável ou arrebata com uma força ou personalidade específicas. seu trabalho é tão afiado quanto pode ser o de qualquer grande atriz, mas trata-se de uma execução, somente.

já Catherine Zeta Jones poderia aprender com Hannah Waddingham, sua equivalente londrina, algumas sutilezas da fina arte de estar ao vivo diante da platéia. Jones desfila pelo palco como se não pudesse conter sua sensualidade e poder de sedução. a flechada da luxúria é efetiva, por certo, mas excessiva também. como disse um crítico, ela atua como se fosse Velma Kelly, sua famosa personagem na adaptação cinematográfica de Chicago, tentando conviver com as convenções da vida social na Suécia da virada do século (passado).

não é nem que Zeta Jones não tenha o wit. mas ela não parece destilá-lo nem nas doses precisas, nem no tempo correto. de onde não se deve inferir, no entanto, que sua performance é uma catástrofe - não é. é satisfatória e o público certamente se encanta. mas lembremos que eu, aqui, tenho uma base muito próxima de comparação, de uma atriz no mesmo papel, na mesma montagem e no melhor de seu jogo. nessa, portanto, Catherine Zeta Jones sai perdendo. como atriz de teatro é quase todo o tempo uma fulgurante estrela de cinema.

na mais estranha das reviravoltas irônicas, no entanto, em seu grande momento, a bela canção Send In The Clowns - a qual Marco Dutra me ensinou que deve ser cantada sem arrebatamento musical e com um complicado equilíbrio entre melancolia triste e resignação confortante -, a estrela de cinema baixa a guarda e a atriz brilha. brilha de verdade. humaniza-se, deixa passar por si um raio de energia honesta, como se conseguisse acessar, ainda que por um momento, a verdade e a essência dessa Desiree Armfeldt. ali, ela vale o show.

Nova York - dia 8: uma pausa de mil compassos

desde criança, fui ensinado a significar as datas. eu adorava o Natal, o encontro, o entusiasmo, a espera, o Papai Noel, a casa da minha avó, os presentes, o dia, a noite, os primos, a energia coletiva e até mesmo essa esperança, que hoje meu cinismo vê como patética, das pessoas tentarem praticar coisas como paz, harmonia e amor (como se esses estados de espírito tivessem hora marcada).

hoje eu detesto o Natal e tudo o que eu mais quero, todo ano, é poder fazer com que ele simplesmente não exista - obrigado, eu finalmente consegui!

acordo para alguns consumismos pontuais e demorados, que acabam me levando a Greenwich Village. estou na rua 8 e decido que o melhor caminho de volta à 59 é andando. que mal podem fazer 51 quarteirões em uma tarde de frio e sol em Manhttan, certo?

e os percorro em zigue-zague, entrando em Barnes & Noble, Dunkin Donuts, dando com a cara na porta da Drama Bookstore (o que foi realmente muito triste), comprando presentes no MoMa.

e o faço na excelente companhia de Chris Garneau, Wilco, Pato Fu, Roberto Carlos, Los Hermanos, Cazuza, Radiohead, The Smiths, Tiê, Nina Simone, Astor Piazzolla, Caetano Veloso, Stars, Jon Brion, Arnaldo Antunes, Marisa Monte, David Bowie, música para cortar os pulsos, muitas delas.

quando chego de volta ao hotel, é noite. dou os presentes comprados e saímos para jantar no convidativo e descomplicado Serafina, com os mais do que agradáveis amigos de papai.

vinho, comida boa, conversa divertida, uma 'noite feliz' como outra qualquer.

quem precisa de Natal?