18.4.10

carta para vocês de 'as melhores coisas do mundo'



Você certamente não se lembra, Laís, mas lá se vão quase 10 anos desde que eu te mandei um email depois de ter ido ver Bicho de Sete Cabeças com meus colegas de faculdade, em uma sessão no Espaço Unibanco de Cinema, sexta-feira à tarde, dia da estréia. A sala estava cheia de jovens como nós então éramos e lembro de meu entusiasmo duplo: naquele alvorecer da profissão que eu decidira seguir, comprovar que havia um cinema brasileiro possível e que ele chegava a seu público. Sobre isso te escrevi, no entusiasmo daquele momento, e você respondeu meu email – lembro-me com clareza. (Você inclusive me disse para mandar meu currículo já que, quem sabe, estudante que eu era, talvez não surgisse um estágio na produtora de vocês. Eu nunca mandei.)

Ontem fui ver As Melhores Coisas do Mundo, novamente no dia de estréia, mas agora sem os mesmos amigos, já há muito formado, avançando em anos no exercício da profissão. Eu mesmo, agora, já criei e dirigi uma série de televisão para adolescentes, além de ter passado por tantas outras experiências audiovisuais.

E por algum motivo relutei a entregar-me a seu filme, incomodei-me com a apresentação dos personagens e conflitos, não acreditei neles de imediato. Mas de uma hora pra outra, magicamente, eu estava pego. Ouso precisar em qual momento: a conversa de Mano com seu irmão mais velho sobre a primeira experiência sexual de ambos, construída sobre uma honestidade narrativa que dali em diante só faria crescer.

Eu então consegui finalmente sair de mim e abandonar os tantos assuntos e preocupações que ultimamente teimam em não largar minha cabeça (não importando a qualidade da arte que elejo para assistir). E, fazendo isso, espatifei-me em cheio contra mim mesmo.

Passei pelo que deve ser a experiência padrão dos adultos que vêem o filme com o coração aberto: senti-me um adolescente, encantado pelo frescor de sensações e descobertas que soavam tão antigas e tão vivas, indesviáveis, arrebatadoras. E falo em “experiência padrão” sem medo de me inserir no clichê, porque só os clichês são verdade (e será que eu já sou adulto?).

Ensaiei ressentir-me da velocidade dos acontecimentos, do ar de painel que advém de uma multiplicidade de pequenos dramas, da duração rápida das cenas. Mas o outro jeito de olhar para isso é achar que a vontade de que as cenas perdurem são reflexo da qualidade humana que elas engrendram. A travessia dos lugares comuns é a consciência de que, meu deus!, como a adolescência é, mesmo, cheia de lugares comuns - só os clichês são verdade.

Luiz, obrigado por batalhar para que estereótipos sejam representados como arquétipos, que é o que são. Por escrever jovens que não fogem muito à regra de como os imaginamos porque eles são, enfim, como os imaginamos. O que inconscientemente sempre achamos que sabemos deles são o que eles nos mostram. E que sabemos, enfim, porque estivemos lá, não estivemos?

Francisco, obrigado pelo seu olhar portador de todas as dores do mundo e capaz da alegria mais genuína. Obrigado, Francisco, pela verdade. E por aquele sorriso que encerra o diálogo final, uma das coisas mais lindas do mundo.

Paulo e Caio, obrigado por envelhecermos. Pela maturidade. Por assumirem com tanta propriedade papéis de mentores de personagens que até outro dia eram vocês que faziam. Paulo, obrigado especialmente pela serenidade e por duas cenas tão bonitas com Francisco.

Gabriela, me desculpe por torcer o nariz para você no início da história. Obrigado pela melhor piada de todos os tempos. Obrigado por ser o reflexo tão adequado de gente que eu conheci e amei tão igualzinha a você. (E cuida bem do coração do Mano, tá?)

Denise, eu quero jogar ovos na parede com você todos os dias da minha vida.

Luiz, será que você também viu Domingos dizendo “fica com os dois, Glorinha, eu agüento!”? Será que você também ama (o texto, a cena, o Domingos)? Fiuk, e você, será que viu?

Laís, será que você viu Passagem Azul enquanto Mano andava de bicicleta pelas ruas de São Paulo? Será que você viu Mano andando de bicicleta enquanto via Passagem Azul?

Por que será que eu ri e chorei e me deixei conquistar tão reconfortantemente pelo afeto e o calor que esse filme de vocês dá em abundância para a platéia? Como, mesmo sem vossos corpos presentes, há tanta troca de energia?

E, Arnaldo, obrigado por mais essa canção linda de morrer. Já que ela aparece tão escondidinha nos créditos finais, assino essa carta cantando-a (em sua voz).

Um beijo,

Rafael



6 comentários:

Ledier disse...

é por coisas assim que eu acho que vc deve escrever sempre e mais. e depois dirigir, pq não é só com letras que se escreve.

hollow cloud disse...

E esse texto você manda pra Laís?

F@! disse...

Que loucura. Vi o filme agorinha, escrevi alguma coisa no twitter, li uns posts em qualquer lugar e cheguei nisso aqui. Ilustra um pouco do que eu senti :)

Beijo
@fabiagalvao

Jair disse...

Que postagem emocionante.
Fiquei maravilhado e emocionado com o texto.
O filme é assim, é tudo isso mesmo. Dificil não se identificar com algum personagem, dificil não se ver em alguma situação, dificil não se apaixonar pelo filme.
Que equipe maravilhosa. Técnica, elenco, Luiz Bolognesi, Caio Blat, Daniel Rezende, Mauro Pinheiro Jr, enfim, soma-se isso a regência da diretora Laís Bondanzky.
Escrevi sobre filme no meu blog, "sobretudofilmes" se quiser dar uma olhada. Mas não foi tão emocionante quando esse post aqui.

Ti disse...

Foi por causa dessa critica que eu fui assitir, voce sabe.
E, assim como eu esperava, nao me decepcionei.
Texto adorável e filme, hum... adorável tambem.
E qual é a melhor piada do mundo da Gabi?

Thiago Camelo disse...

Olá Rafael. Citei o seu texto na crítica que fiz do filme para o site em que trabalho. Abraço.
http://cienciahoje.uol.com.br/alo-professor/intervalo/cliche-carinhoso-2