24.11.09

2009, episódios finais

nos palcos:

24/11 (ter) - Alguém Para Chamar de Seu
25/11 (qua) - Festa de Separação, um Documentário Cênico
26/11 (qui) - Restos
27/11 (sex) - Ensaio Sobre Carolina
28/11 (sab) - As Meninas - 18h/ Sonho de Outono - 21h

03/12 (qui) - Cloaca
04/12 (sex) - Escuro
05/12 (sab) - Da Possibilidade de Alegria no Mundo

09/12 (qua) - Anatomia Frozen
10/12 (qui) - OSESP
11/12 (sex) - Justine
12/12 (sab) - A Terrível Voz de Satã - 20h/ show Maria Bethania - 22h
13/12 (dom) - Exercício nº 2 - Formas Breves



na Mostra Woody Allen:

25/11 (qua) - Um Misterioso Assassinato Em Manhattan; Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão
26/11 (qui) - Todos Dizem Eu Te Amo
27/11 (sex) - A Outra
28/11 (sab) - Poderosa Afrodite; A Rosa Púrpura do Cairo
29/11 (dom) - Neblinas e Sombras; Hannah e Suas Irmãs, Manhattan

02/12 (qua) - Maridos e Esposas; Desconstruindo Harry
03/12 (qui) - Zelig; A Rosa Púrpura do Cairo
04/12 (sex) - Tiros Na Broadway; Broadway Danny Rose
0512 (sab) - A Última Noite de Boris Grushenko; Um Assaltante Bem Trapalhão; Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
06/12 (dom) - A Era do Rádio; Crimes e Pecados; Memórias; Interiores

09/12 (qua) - Simplesmente Alice; Setembro
10/12 (qui) - A Outra

22.11.09

2009 não foi um ano assim tão bom (?)

em 2007 eu vi 26 peças e 36 shows e em 2008 eu vi 23 shows e 32 peças e em 2009 eu vi 19 shows e 83 peças e fico é muito feliz de olhar os guias de programação e as revistas e saber que tem tanto show que eu não vou ver e que não preciso me preocupar em ver e que não estou sofrendo de não ver e saber que não vi nenhum show do Planeta Terra e nem sequer me comove a passagem do The Killers por São Paulo e então eu não preciso me preocupar se chove e se haverá lama na Chácara do Jockey porque eu não vou pra lá mesmo e eu no máximo vou encontrar o Marco e o Fernando numa noite chuvosa de sábado na Paulista e eles vão me falar da lama do The Killers e comer uma sobremesa no América e eu nem sei falar direito o nome dos shows da Natura porque eu não preciso saber os nomes porque eu não vou lá ver os shows e nem vou comprar ingresso caro pra ver o Coldplay porque eu nunca gostei de Coldplay mesmo mas gosto de Franz Ferdinand mas não ouvi direito ainda o disco mais recente então não preciso da histeria de comprar ingressos antecipados para um show que só acontece em março porque se acabarem os ingressos tudo bem porque eu não vou sofrer mas eu sofreria se acabassem os ingressos do show da Bethânia então eu já fui lá comprar o meu embora não no melhor lugar possível mas ainda assim comprado apesar de eu também não ter ouvido os discos novos ainda assim como não ouvi os discos novos do Arctic Monkeys nem de um monte de outras bandas que eu conheço e gosto e todas as outras que eu ainda não conheço e gosto mas eu continuo indo ao teatro com prazer e dor e hoje mesmo vi uma peça de que gostei bastante chamada Hamelin e ainda tenho 18 outra peças para ver até o final do ano e vou a cada uma delas e pode ter certeza que eu vou porque com teatro sou queném com filme ou com filme eu sou queném com peças e vi 63 filmes em cartaz nos cinemas esse ano o que é pouco se comparado ao número de peças e essa proporção deveria estar invertida porque eu trabalho fazendo filmes e não peças (ainda) mas a proporção está como está e desses 63 filmes alguns eu fui ver nos cinemas mesmo durante esse ano e outros eu perdi talvez porque estivesse vendo peças e outros eu fui rever porque já tinha visto antes em Mostras passadas como Horas de Verão ou só quis ver mais de uma vez mesmo na sala de cinema como Amantes e Bastardos Inglórios e esses 3 talvez junto de Moscou são os 4 melhores filmes que se pôde ver esse ano e pelo menos na Mostra eu fui como há muito tempo não ia e vi 46 filmes que é quase o total de filmes que eu tinha visto até outubro no circuito de estréias e vários desses filmes eram bons e vão estrear para eu poder dizer que já vi ou rever e outros jamais estrearão e ainda bem que eu os vi então quando pude e como pode dar tempo de ver tanta coisa e ainda querer ver séries de tv americanas como agora que eu tento acompanhar 5 e todas de comédia e é muita coisa mesmo para ver e lembrar ou esquecer mas para acompanhar que seja e como é possível fazer tudo isso e ainda tantas outras coisas mais boêmias e menos louváveis e muito divertidas e ainda conseguir produzir e produzir dramaturgia e escrever filmes e peças e não sei como é possível e talvez por isso eu não tenha produzido tanto quanto um ano inteiro possibilitaria que eu fizesse.

2009 não foi um ano assim tão bom. foi?

semana passada eu fiz aniversário e tenho cada vez mais cabelos brancos e uma idade de algarismos crescentes apesar da atendente da loja de roupas achar que não parece e agora e sempre vamos ouvir Cibelle cantar White Hair e, quem sabe, se houver tempo e disposição, comemorar um pouco, ainda hoje mesmo.





8.11.09

'500 Dias Com Ela' e o retrato de uma geração

500 Dias Com Ela não é um filme de grande estatura. Como o amor vende bem, é filme que, sem grandes atrativos comerciais - como nomes famosos no elenco -, lota a sala principal do shopping num domingo à noite, mas que talvez para a maioria dos casais espectadores não vá tão além justamente de um bom programa de fim de semana.

Cativante, trabalha basicamente no terreno da ternura (muito graças ao encanto sutil da atriz Zooey Deschanel e de bem manejados artifícios de linguagem) e da plena capacidade de identificação, já que (mas não só) Joseph Gordon-Levitt é o mais possível herói que Hollywood pode oferecer no âmbito de gente como a gente - franzino, não especialmente bonito nem cool nem inteligente, mas com gostos e opiniões e personalidade.

Mas por mais que isso soe como discurso geracional boboca, é um fato que 500 Dias Com Ela opera diferente para quem hoje está entre os 20 e 0s 30 anos, talvez até mais em torno dos 25. Dizer que ele é um Annie Hall dessa geração talvez não seja exatamente preciso, mas não é nem de longe uma grande mentira, já que é em terreno não só semelhante como marcadamente arado pelo anterior que esse filme trabalha.

Porque, convencionalismos do cinemão à parte (e também excetuados, já que muitas escolhas são sinceras e pouco óbvias), este é um filme que radiografa hábitos da década de 00 e elementos de sua cultura pop com uma afetividade pouco (ou nunca) vista. Na verdade, consuma-se uma plena retroalimentação, na medida em que, crias que somos daquilo que vemos/ouvimos/consumimos nesses últimos anos, vemos na tela seres como nós, agindo e sentindo como o cinema e as séries de televisão nos ensinaram a fazer e, dessa forma, consolidando e transmitindo esse modus vivendi aos que já vem depois de nós.

Regina Spektor, Feist, Belle & Sebastian, a melancolia já clássica de The Smiths, psiques influencidadas por A Primeira Noite de Um Homem e Simon & Garfunkel (ou tantos outros filmes), encenações particulares em lojas de móveis (no estilo Tok & Stok), fabulações da vida de modo geral, idealizações, muito fone de ouvido, karaokês, bebedeiras, adolescência extendida, pequenos jogos de sedução, irmãos menores espertos demais, a família patriarcal como elemento completamente ausente da vida amorosa, um cosmopolitismo tão redentor quanto opressor, as armadilhas da expectativa, a desilusão com o "mundo real" (ou a noção de que a realidade não pode ser fabular e dramaturgizada todo o tempo), o amor como uma grande brincadeira nutritiva e a causa de todos os males.

entendeu?

Mostra - premiação

46 filmes depois, eis o pequeno balanço possível:


* Grande Prêmio Especial do Júri:
Seguindo Em Frente


* Prêmio Grandes Filmes Previsivelmente Incríveis:
A Fita Branca
O Que Resta do Tempo


* Prêmio Velhos Cineastas, Obras Rejuvenescidas:
Alga Doce
Singularidades de Uma Rapariga Loira

outros indicados: Trilogia II - A Poeira do Tempo


* Prêmio Somos Bons, Mas Não Levamos o Ouro :
Morrer Como Um Homem
Vencer


* Prêmio Novos Cineastas, Grandes Surpresas (ou O Que O Troféu Bandeira Paulista Deveria Ser):
Dente Canino
O Primata

outros indicados: Camas Desfeitas, Eu Matei Minha Mãe


* Prêmio Não Exatamente O Que Esperávamos (ou Consideráveis Decepções):
Carmel
Perseguição

outros indicados: Faça-me Feliz, Making Plans For Lena


* prêmio Crescendo na Cabeça Conforme Passam os Dias:
35 Doses de Rum
A Ressurreição de Adam


* prêmio O Pequeno Filme Que Se Impõe:
Amreeka

7.11.09

Mostra - dia 13 (último dia): o pior pecado de um filme é ser chato

04/11/2009















Samson & Delilah, de Warwick Thornton (AUSTRÁLIA)
* * *
O filme começa antropológico e com uma equilibrada, senão delicada, exposição de ações. Logra, acima de tudo, em construir uma ambientação, situar o que se entende como alguma propriedade ser o interior árido de uma Austrália onde descendentes de aborígenes nativos digladiam-se na tentativa de se adaptar ao mundo como ele (hoje) é. Mas o ato seguinte, que seria o da transgressão, do rompimento do casulo e contato com a vida real, vai esmaecendo as forças do primeiro discurso em uma trama irritantemene fatalista. Mesmo a semi-redenção e o retorno ao espaço dramático do início não melhoram o gosto artificioso experimentado. E abandonando aquilo que seria a contemplação de seu instigante início, em troca de um miolo de inúmeros acontecimentos que se sucedem rumo à tragédia, o filme vai tornando-se ironicamente desinteressante.


Todos Os Outros, de Maren Ade (ALEMANHA)
[zero]
Em plena feitura da programação da Mostra desse ano, manifestei-me no twitter com a seguinte: "critério: filme alemão? NÃO. filme dirigido por mulher? pensar duas vezes (risos). filme alemão dirigido por mulher? NEM MORTO." Piadas à parte, eis que Todos Os Outros vem confirmar a tese sem qualquer margem de erro. Chato, chato e mais chato. Uma enorme pasmaceira psicológica mal desenhada, mal conduzida, irritantemente atuada. Nada acontece - mas nada acontece MESMO. E o espectador é deixado por duas longas horas na companhia do que talvez sejam os dois personagens mais desinteressantes e irritantes da história do cinema.


Irene, de Alain Cavalier (FRANÇA)
* * 1/2
Aqui, quem sabe do que se trata, sabe do que se trata. Quem não sabe, sai da sessão depois de alguns minutos, como fez um terço da sala onde estávamos. A questão, para mim, era descobrir o quanto Cavalier poderia me dar com esse cinema rigorosamente em 1ª pessoa, com sua narrativa radical, ou mesmo anti-narrativa. E a resposta foi: não muito. Mesmo com predisposição e boa vontade, a tal da fabulação faz falta. Sua inexistência deixa o espectador à deriva de uma voz explicativa que raras vezes atinge o cerne de um sentimento. E, que de tão real, chega mesmo a dar a impressão de ilegitimidade (como se o diretor-narrador estivesse por vezes deliberadamente "atuando" uma determinada lembrança ou sensação). Fato é que, ao mesmo tempo que se trata de um filme a descobrir, não há muitos caminhos que o desviem do enfado.

Mostra - dia 12: o retorno de um grande fazedor de filmes

03/11/2009















Seguindo Em Frente, de Hirokazu Kore-Eda (JAPÃO)
* * * * 1/2
Obrigado, Kore-Eda, por voltar! Depois da enormidade do conjunto constituído por Maborosi, Depois da Vida e Ninguém Pode Saber, e da inexpressividade de Hana, este grande cineasta japonês retorna à sua melhor forma. Aqui, como disse algum crítico, seu grau de depuração é tamanho que se tem a impressão de se assistir à vida ela mesma. Mas justamente pela qualidade e minuciosidade da fabulação dramática e de um trabalho de decupagem cinematográfica nunca menos do que perfeito (é impressionante como cada momento, ação e sentimento materializam-se em toda sua essência e fazem pleno sentido devido ao posicionamento exato da câmera - o que parece simples, mas é uma arte e tanto) é que Seguindo Em Frente impõe com tanta beleza sua humanidade alentadora. O mosaico de pequenos gestos e acontecimentos, durante um curto período de 24 horas no encontro entre três gerações de uma família, faz esquecer que o histrionismo possa existir nas tantas histórias de premissa semelhantes que o cinema já contou - a simplicidade é o tom exato e desvia de qualquer ranço de tédio. É na verdade de simplesmente ser - e das experiências passadas acumuladas que sempre resultam no estado presente - que está o esmero da dramaturgia em dar conta de algo tão pequeno e tão enormemente fundamental como a perpetuação da raça humana através de seus descendentes (e os vários solavancos desse processo).


Aviões de Papel, de Simon Szabó (HUNGRIA)
*
Depois de meia hora sem QUALQUER capacidade de construção de personagem ou de exposição de acontecimentos minimamente interessantes, optei pelo sono.


A Oeste de Plutão, de Henry Bernadet e Myriam Verreault (CANADÁ)
* * 1/2
Personagens reluzem nos primeiros 10 minutos de filme como fogos de artifício. Através de um expediente de linguagem tão simples quanto eficaz, ficamos conhecendo e simpatizando com as múltiplas personalidades adolescentes apresentadas. Mas a trama que os une dali em diante desenvolve-se de forma predominantemente superficial, não dando vazão à luminosidade, possibilidades e complexidades que o início faz vislumbrar. Não dói, mas tampouco empolga.

Mostra - dia 11: o filme que eu ainda não fiz

02/11/2009















Camas Desfeitas, de Alexis dos Santos (INGLATERRA)
* * * *
Nos últimos anos eu tenho pensado e atualmente trabalho em um projeto de peça e filme chamado "Música Para Cortar Os Pulsos". É como se o filme eu não precisasse mais fazer porque Alexis dos Santos já fez.

(climas, atmosferas, sensorialidade, geografias sentimentais e sentimentos sem vergonha, digressões e pequenas belezas, pequenos acontecimentos e singelas epifanias, trilha sonora, Wong Kar Wai, camas e espaços e movimentos de anos de juventude cheios de explosões e melancolias)


Making Plans For Lena, de Christophe Honoré (FRANÇA)
* * *
Toda a admiração incondicional nutrida por Honoré e seus três filmes anteriores depara-se com a decepção. A liberdade de ação do diretor, no sentido da escrita cinematográfica, aqui soa um pouco como desorientação. Culpa da expectativa de quem assiste ou não, a verdade é que esse seu novo trabalho termina sem que jamais ganhe corpo.

5.11.09

Mostra - dia 10: vigor francês

01/11/2009















Ricky
, de François Ozon (FRANÇA)
* * *
Um Ozon despreocupado, acreditando em seu início de tintas naturalistas (e até com questões socio-econômicas) tanto quanto no puro realismo fantástico que invade a ação, levando-a por fim a um desfecho fabular. O livre fluir com que o filme alterna seus gêneros (ou os funde) me parece seu grande feito, já que não alça maiores vôos. Em nenhum momento, no entanto, deixa de ser ser absolutamente agradável de assistir.















A Família Wolberg, de Axelle Ropert (FRANÇA)
* * * *
A crítica generalizante aos "filmes de mulher" (ou seja, dirigidos por elas) dobra-se diante dessa incomum obra francessa e do improvável feito de Axelle Ropert em dar novos tons a mais uma história de família disfuncional. A chave parece ser a ausência de alarde e até uma espécie de naturalidade que os personagens impõe a seus próprios problemas (como se fosse Um Conto de Natal, de Arnaud Desplechin, sem o histrionismo de linguagem), bem como o recorte dramatúrgico que esses conflitos ganham. Não se vê as coisas exatamente pelo ângulo que se espera e os momentos centrais do roteiro são encenados de modo menos dramático, com menos alarde e sob ponto de vista mais oblíquo do que se poderia supor. Floresce daí uma verdade tão mais verdadeira, portanto - a teia de relações erguida sobre as oscilações entre contenção pública e desespero íntimo (e a eventual mistura entre os dois pólos) resulta não só em grandes cenas, com teor cinematográfico rico, mas em matéria humana plenamente legítima.


I Love You Phillip Morris, de Glenn Ficarra e John Requa (EUA)
* * 1/2
Jim Carrey é engraçado. O roteiro é esperto, fluido, com alguns momentos divertidos. Ewan McGregor é bom ator. Jim Carrey cansa. O roteiro é redundante e superficial. Ewan McGregor fica muito perto do estereótipo.

Mostra - dia 9: vivacidade grega

31/10/2009















Dente Canino
, de Yorgos Lanthimos (GRÉCIA)
* * * * 1/2
Uma porrada vinda da Grécia. A Vila com toques de crueldade. Jogo de tensão e hipnose. Organizações sociais e civilizatórias postas em cheque. A família como casulo - refúgio ou prisão? A mamãe passarinha empurra o filhote para fora do ninho - ele precisa voar para sobreviver, mas e se ela o prendesse pra sempre? O mundo dentro de uma casa, um filme dentro de uma casa, personagens exatos, cenas precisas. Sentimentos ambíguos e o maniqueísmo derretendo-se. Eros e Tanatos. A tragédia não como fuga, mas como base da constituição humana, como fim inevitável de qualquer relação perversa de poder. Um surpreendente, conciso, desnorteante e consistente filme, em suma.


Perseguição, de Patrice Chéreau (FRANÇA)
* * 1/2
É como se o Chéreau do drama apurado e cru, cheio de pulsões dos anteriores Intimidade e Irmãos, se diluísse, perdesse o foco. A câmera solta acompanha os personagens em planos próximos, sempre muito corporalmente, sempre tentando aproximar-se de seus conflitos e sua psique (seguindo a máxima do diretor de que o ator comanda a cena e o plano). Mas de que mesmo se trata a história? O protagonista flutua entre três relações (namorada, amigo, perseguidor) às quais se compreende com dificuldade e a que nunca temos verdadeiro acesso emocional. Não é nem dizer que se trate de um filme confuso, mas de um filme perdido. Que não tarda a perder o espectador dentro de sua ciranda dramática dispersiva.


A Invenção Da Carne, de Santiago Loza (ARGENTINA)
* *
É evidente que, assim como Patrice Chéreau, Santiago Loza possui um projeto artístico. E seria injusto desprezar seu cinema de olhar que, da mesma forma que Perseguição, busca na relação atores-câmera a essência de sua narrativa, porém com muito menos texto e mais aproximação sensorial. A carne dos atores interessa ao cineasta e a trama que dela pode emanar. Com organização primordialmente subjetiva, portanto, Loza corre abertamente o risco de não conseguir construir conexões que cativem e/ou envolvam o público (num expediente que o coloca curiosamente perto - ainda que trabalhando em tom distinto - de Insolação, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas, por exemplo). O sutil e o elíptico, no entanto, operam no limite do subnarrado e a falta ou a volatilidade das superfícies de contato nem sempre jogam a favor.















Aquiles e a Tartaruga, de Takeshi Kitano (JAPÃO)
* * *
Ainda que redundante e um tanto cansativa, a história construída como fábula tem seus encantos. Kitano adere sem medo ao humor como linguagem dominante, sem negligenciar (mas também sem aprofundar) a matéria humana e uma açucarada crítica aos excessos das Artes, seus artífices e mercados. Para o fim de um dia como esse, fácil de ver e de gostar.

Mostra - dia 8: a habilidade de Bellocchio e a preguiça de Amos Gitai

30/10/2009















Vencer
, de Marco Bellocchio (ITÁLIA)
* * * *
Todos os mecanismos do grande cinema manejados de forma mais do que hábil. Operístico e épico, sem descuidar das subjetividades - melodrama, enfim. Belíssima encenação, dos atores à fotografia, tudo no lugar. E uma sensação viva das bordas do mecanismo do mundo, que roda impiedoso, com tramas de poder sempre sufocando as experiências humanas menores e mais... humanas. Os detratores gostam de dizer que toda a amplitude do leque "pequeno homem X História" já foi vista e mais vista. É verdade. Mas nem sempre com tamanha e tão bem organizada pompa, pungência, fluência e envolvimento emotivo sincero.


Carmel, de Amos Gitai (ISRAEL, FRANÇA, ITÁLIA)
*
E Amos Gitai abre a temporada de "vale tudo"! Num lance que soa a picaretagem mesmo sabendo que a matéria prima é de ordem tão pessoal e auto-biográfica, o tédio e o aborrecimento imperam, como se o cineasta se afundasse na auto-indulgência e não prestasse qualquer atenção real no filme que de fato está pretendendo oferecer ao público. Ou, antes, como se o público sequer importasse (ou existisse). Gitai (que, vale dizer, é diretor que já muito admirei em ocasiões anteriores) faria melhor resolvendo-se em sessões de análise e poupando sua filmografia de uma bobagem tão sem acabamento, tão chata e inócua de ver e que chega a soar mesmo a um bocado de preguiça de fazer um filme com coesão e sentido, quaisquer que fossem. Como disse um amigo, impossível não pensar em Elia Suleiman (e na estatura a que ele elevou seu próprio material auto-biográfico) e suspirar.


O Dia da Transa, de Lynn Shelton (EUA)
*1/2
Outra bobagem. Com um certo ar moral "progressista" e modernoso em sua feitura barata e simplificada, O Dia da Transa é mesmo só um filme simplista. Ou um filme fracote, sem ganas de ir muito além de uma premissa curiosa (se eu disser que é "filme de mulher", será que o esquadrão anti-misoginia vai apitar?).

4.11.09

Mostra - dia 7: filmes banais, estética e mais narrativas portuguesas

29/10/2009



Amanhã Ao Amanhecer, de Denis Dercourt (FRANÇA)
* * 1/2
A experiência de vê-lo possui interesses, é certo. O jogo de encenações é estimulante como ponto de reflexão e a "trama dentro da trama" é construída em tensão crescente e real. Mas a memória de ter visto o filme é pálida e parece que não tem realmente para onde crescer a partir do que nos é dado. Ou seja, dignamente "regular".

Mau Dia Para Pescar, de Alvaro Brechner (ESPANHA, URUGUAI)
* *
Assim como o filme anterior, este apresenta um esforço real de estabelecimento de um espaço narrativo particular e dá pernas sustentáveis à sua história para que ela exista nesse ambiente. Mas os personagens não possuem grande pulsão de vida, o drama não engata, as coisas ficam a meio de caminho.

Ainda Adoráveis, de Nicholas Fackler (EUA)
*
Eu nem sequer pretendia entrar na sala, mas a informação de que se tratava de obra de um jovem diretor (25 anos) que trabalhou durante anos em um roteiro pelo qual o (grande) ator Martin Landau se apaixonara etc etc me pareceu convincente. Em vão. O resultado é um enorme esforço de parecer "sensível" e "relevante" (em âmbito humano e social, até) através dos mais banais e manjados artifícios de que os jovens cineastas americanos (do tipo que procuram legitimamente um lugar ao sol dentro da indústria) lançam mão.















Insolação, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas (BRASIL)
* * 1/2
"Confie no mistério", disse Daniela Thomas ao apresentar a sessão e repetiu o personagem de Paulo José minutos depois. Mas não se trata exatamente da confiança, embora o filme trabalhe o tempo inteiro para que, sim, nós efetivamente aceitemos seus mistérios e lacunas. Trata-se das possibilidades de acessar e ser acessado pelos tais mistérios, por uma narrativa calculadamente estilhaçada, por dramas rascunhados, personagens que existem como sombras, como aparições. Trata-se de um delicado equilíbrio. Equilíbrio que está, por exemplo, na captação precisa e algo deslumbrante das formas e paisagens de uma Brasília abandonada, no espaço que ocupam os personagens, nessa cidade e no plano. Equilíbrio de sentimentos que são evocados como momentos estéticos (por vezes em cenas realmente belas), em frases esparsas, às vezes de efeito, em silêncios eles também de efeito. Equilíbrio de uma música onipresente que transforma algumas imagens em balé, que procura dar liga a outras que encontram dificuldade em se relacionar por si, em emanar sensações reais. Equilíbrio de um filme que se agarra no sensorial para existir, na busca do belo - e isso vale até mais para sua estilizada matéria dramática oriunda da literatura russa do que para aquilo que, com efeito, pode ser entendido como estética visual e sonora em si. O ponto de equilíbrio de Insolação, portanto, me parece complexo, delicado, perigoso. Suas pontes são deliberadas ruínas a serem completadas pelo público, num trabalho que vai além do relacionamento puro e simples com as obras em geral. E ele ser ou não um filme bom ou satisfatório provém unicamente da qualidade desses complementos subjetivos (ou mesmo da capacidade do filme de provocá-los, individualmente).















Morrer Como Um Homem, de João Pedro Rodrigues (PORTUGAL)
* * * *
É um susto, para quem viu O Fantasma, sombria obra anterior do diretor, lançada no Brasil, deparar-se com esse filme tão solar. E é, acima de tudo, com um manuseio todo próprio e pleno de encantos que João Pedro Rodrigues vai moldando essa história em si tão triste. O pessimismo dá lugar à esperança e a uma resignação que, longe de ser lamuriosa, é a própria alegria (não sem alguma melancolia). Seu tratamento do drama e dos tempos, seu desenrolar detalhista da história, atento e carinhoso no trato com seus personagens, a própria existência fílmica desses personagens tão carismáticos, defendidos por valentes atores, combinam-se em narrativa nada convencional e, até por isso, nada fácil. Mas que é capaz de arrebatar com intensidade impressionante diversos corações cinéfilos. Se não é exatamente o caso comigo, não é sem força e admiração, no entanto, que Morrer Como Um Homem me chega ao coração (e que deixa as portas abertas para uma oportuna revisão).

1.11.09

Mostra - dia 6: reencontrando velhos conhecidos

(28/10/2009)













Singularidades De Uma Rapariga Loura
, de Manoel de Oliveira (PORTUGAL, FRANÇA, ESPANHA)
* * * *
O primeiro filme de Manoel de Oliveira que vi no cinema na ocasião de seu lançamento foi Inquietude (1998). Nunca mais o revi, mas lembro perfeitamente do fascínio por um universo além, um mundo de homens, idéias e discursos apresentados como à parte, embora tremendamente familiares. Senti, enfim, uma noção de penetrar uma realidade que me era próxima e convidativa (não só, mas também, pela língua portuguesa e pelas raízes pátrias), mas encenada como uma verdade paralela - pessoas da vida real não falavam nem agiam exatamente daquela forma, mas seus mecanismos de existir na tela elevavam a tal vida real a um patamar (idealizado?) de perfeita harmonia, de plenas delícias e estímulos intelectuais e humanistas. Manoel de Oliveira inventava, enfim, uma espécie de realismo literário, onde as coisas eram mais uma representação ficcional atingindo o cerne da verossimilhança e menos uma tentativa imediata de mimese naturalista. Acreditar na trama de Manoel era acreditar na ficção, em personagens dizendo um texto (e, assim, dizendo sobre nós), e não em entender as imagens imediatamente como uma verdade (por trás da qual, claro, há sempre o artifício da ficção). Seguiram-se, no mesmo feitiço, A Carta, Palavra e Utopia (esse, sem dúvida, um filme portentoso sobre a palavra, antes de qualquer outra coisa), Vou Para Casa, Um Filme Falado, Espelho Mágico e Cristóvão Colombo - O Enigma.

Singularidades De Uma Rapariga Loura, adaptação de e homenagem a Eça de Queirós, é tudo isso em um admirável olhar sobre as entrelinhas e os mistérios da atração (ou do que se pode chamar de "paixão"). Seria redundante dizê-lo magicamente jovial para um cineasta de 101 anos, mas, opa!, de tão inevitável, já disse.


Estrelando Maja, de Teresa Fabik (SUÉCIA, IRLANDA)
* *
Foram as boas lembranças do filme anterior da diretora, O Efeito Ketchup, visto na 28ª Mostra, que me levaram a esse seu novo trabalho. Mas o divertimento sem compromissos que existia lá não se repete aqui, já que a história de superação e aceitação das diferenças não escapa do tom moralizante e tolamente redentor. Assiste-se com prazer graças em grande parte ao carisma indesviável da protagonista, mas é de se esquecer sem demora.

Faça-me Feliz, de Emmanuel Mouret (FRANÇA)
* * 1/2
Da mesma forma que a diretora de Estrelando Maja, Emmanuel Mouret já fora uma surpresa de tempos idos com Mudança de Endereço, uma das mais satisfatórias jóias escondidas da 30ª Mostra. A expectativa por mais do talento cômico, da sagacidade verbal e da apurada construção narrativa (com fortes tintas rohmmerianas) que ele demonstrara no filme anterior, portanto, era grande. Mas Faça-me Feliz chegou como um inevitável desapontamento. É possível que ele seja culpa, sim, justamente da expectativa, essa eterna vilã. Mas é fato também que a divisão em três atos um tanto desiguais desse novo filme ergue uma trama oscilante. Piadas com decupagens precisas e textos certeiros alternam-se com gags visuais tão velhas quanto o próprio humor e contadas sem recriação ou estímulos originais. Isso somado a uma (voluntária) ausência de real estofo dramático, fica um filme de engrenagens talentosas, mas cujo funcionamento esbarra na inexpressividade.