19.7.05

bobagens, epifanias e tragédias gregas

De mais um fim de semana, o saldo:

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“Madagascar” tem poucas boas piadas. Passa incólume, como passava “O Espanta Tubarões”. A Dreamworks, ao que parece, quando não faz “Shrek” acerta pouco.

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“Amores Expressos”, filme visto com atraso de anos (que parece ainda maior considerando-se o signatário um fã irremediável), roça o sublime. É construção audiovisual acachapante, que nem uma cópia de projeção ruim pôde destruir.

Wong Kar-Wai, anos antes do ápice estonteante de “Felizes Juntos” e “Amor à Flor da Pele”, conta histórias de amores fugazes, fugidios, profundos, desencontrados, ilusórios, sólidos. Ou, antes, desmembra o amor em algumas de suas muitas facetas, por várias pessoas – mas sempre falando do mesmo sentimento. Poderia ser um único amor, em várias fases.

Fato é que a capacidade de Kar-Wai para transformar imagens em sensações puras – e profundas – é admirável. Suas cenas explodem os sentidos, sem deixar de calar fundo no intelecto, no coração e na alma.

Sabe-se pouco sobre os personagens de “Amores Expressos”. Descobrimo-los em pequenos atos, em pensamentos breves. Mas os compreendemos, nos maravilhamos aos poucos com as imagens e as metáforas sentimentais que eles evocam.

Nos filmes de Wong Kar-Wai, as cores, os enquadramentos, a montagem, a música, o corpo dos atores, os diálogos, enfim, o corpóreo e o abstrato da e na imagem unem-se em um todo indesmembrável. E que não se cansa de ser fascinante.

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“A Vida Secreta dos Dentistas” é o cinema independente americano indo, desvindo, não-indo e acabando em lugar nenhum. Ameaça-se tomar alguns caminhos interessantes, mas parte-se para outros, e outros e depois outros. E não é de se dizer que a mistura funcione por si. Acaba quase tudo no “quase”.

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“Dança Lenta no Local do Crime” é mau teatro.

O texto é in-analisável, já que sofre golpes sucessivos até chegar ao público. Primeiro, sofre com uma má tradução. Depois, com atores fracos. A encenação é anódina.

Apesar disso, suspeita-se que o texto não é mesmo dos melhores. É um esquema batido de “encontro-de-estranhos-com-segredos-a-revelar-e-que-acabam-sendo-revelados-na-energia-e-nas-forças-do-encontro-com-os-estranhos-já-citados”. E sem um bom texto pode-se até fazer boa pirotecnia – o que, diga-se, nem é o caso. Mas quase nunca bom teatro.

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“Antígona”, em montagem de Antunes Filho, é teatro esplendoroso.

Antes de uma conclusão do quanto a encenação pode ser chamada de “boa” ou “ruim”, há muito a observar.

Antunes lapidou com seu grupo de atores toda uma prosódia específica, uma fala-canto, ou um canto-fala, uma melodia especial que ele considerou adequada para a encenação de tragédias gregas na atualidade.

Antunes montou, antes desse, outros dois textos trágicos, em três peças: “Fragmentos Troianos” e duas versões de “Medéia”. A busca por um método de encenação, portanto, igualmente é um trabalho de pesquisa e aperfeiçoamento de anos.

Montar uma tragédia grega, em si, é um empreendimento, um desafio arriscadíssimo. A chance de ser simplesmente patético e banal é gigantesca. Qual é, então, esse caminho das pedras? Como conjugar tantos e tão grandes elementos?

Há um texto clássico. Uma métrica nesse texto. Há a métrica, ou o canto, da fala, que deve acompanhar esses versos. Há o ator em si, sua existência em cena. Há a contracenação. Há um coro. O que, meu deus, fazer com o coro? Há a trama, a história em si a ser narrada. E o trágico, o sentido do trágico, tão magnânimo e secular. Como encher de verdade uma tragédia sem que ela perca seu sentido irrevogável de simulacro, que a torna uma “tragédia”? Como equacionar essa balança? E por que, afinal, montar uma tragédia grega nos dias de hoje? Como resgatá-la, re-inventá-la ou, simplesmente, ser essencialmente fiel a ela?

Antunes Filho não está brincando em seu projeto. Pode-se gostar mais ou menos das opções, considerar mais ou menos válidos alguns preceitos. Mas se há, no espectador, algum gosto pela dramaturgia e pela encenação dramática – em seu sentido mais e mais amplo, que compreende do trabalho do ator aos elementos do cenário, embutida aí, naturalmente, a mise-èn–scéne em si – há de se prestar atenção no que está sendo feito.

Indiferente se a olhos leigos ou estudiosos, é difícil resumir “Antígona” em adjetivos simples ou opiniões cheias de “achismos”. O espetáculo hora apresentado é um irrecusável convite ao pensamento e ao olhar atento.

Na trama, pela força do que é dito e mostrado, o texto em si, em uma dilacerante contraposição entre Estado e indivíduo, política e família, leis e sentimentos. O ser que sente e enfrenta um sistema de soberania. O amor em tempos de guerra.

Na montagem, por uma cenografia que traz idéias realmente surpreendentes, por elementos que se complementam, por uma força de corporificação de conceitos, preceitos, abstrações e deuses em estatura física de atores muitíssimo bem ensaiados e cientes de seus papéis. E por Juliana Galdino, sempre um assombro, e Arieta Correa, um novo choque de vida.

Mas, uma vez mais, “Antígona”, texto, significados, importância e essa montagem em si, não cabem em qualquer pequeno texto. É todo um oceano mesmerizante no qual mergulhar.

2 comentários:

Bia disse...

eu diria que bia é uma menina de dezesseis anos que como você, Fábio, bem descreveu é apaixonada. por cinema. e muito. e eu também diria que ela nunca quis se passar por culta nem nada, ela não pode, não tem idade, nem estudo e nem arrogância pra tanto. o que eu sei é que ela passa muito tempo visitando sites como esse, sobre cinema, porque ela gosta, porque ela tem prazer em ler sobre filmes e aprender sobre eles. e eu acho que ela tem todo o direito de dizer o que eu pensa ou de ler blogs, contanto que não desrespeite ninguém.
se eu desrespeitei o Rafael de alguma forma, acho que ele tem que reclamar comigo. e não você, que nem sabe quem eu sou ou que eu faço.

Gal disse...

Já viu meu site novo?