26.9.08

diários da televisão - 36

(segure-se, porque agora eu vou escrever.)





E acabamos o segundo bloco de episódios.

(Mesmo com a entrada e colaboração essencial do Esmir, houve momentos em que eu achei que não fosse conseguir. Mas estamos aí, conseguimos, o trabalho pronto está dando um orgulho fela-da-puta e vamos em frente porque ainda falta pouco menos de um terço.)

(As fotos dos vários dias que já foram e ainda não vieram pra cá, virão, em breve)


A dizer:


No domingo passado, dia 21, filmamos aqui no meu apartamento – uma invasão para a qual me preparei razoavelmente bem. A cena tinha Lucci deitado no sofá, como Tio Augusto, e Thereza vindo acordá-lo, tentando fazê-lo sair pro cinema. Trata-se de uma cena do episódio 08, escrito por mim, abordando o poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens.

Desde o colégio conheço o poema, mas despertei realmente para ele em um espetáculo teatral chamado “Histórias Para Ninar Gente Grande”, dirigido por Flavia Pucci com quem, na época (2002), eu acabara de participar de uma tentativa de filme baseado em “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues. Havia ali uma cena com o poema e, desde aquele momento, eu particularmente, mas acredito que também o Esmir, queríamos transportá-lo para o cinema.

Em 2005 eu escrevi um roteiro baseado em Ismália. Algumas pessoas gostaram, outras se emocionaram, mas o roteiro não viu a luz da lente. Ficou lá, guardado. Quando toda essa série virou verdade, Ismália era uma das escolhas de obra mais certas que poderia haver. O roteiro de 2005 não virou o episódio de 2008, mas alguns dos sentimentos dele, sim.

Para fazer Ismália, a personagem, Carol Abras subiu na torre, sobre o mar de papel e a lua de isopor, com toda sua profundidade serena e seu olhar capaz de uma tormenta de sentimentos. Ouvimos a Sonata ao Luar, no estúdio, e Carol quis a lua do céu e a lua do mar.

Carol Abras surgiu em nossas vidas em 2005, quando da realização de “Alguma Coisa Assim”, filme de Esmir. Conheci-a no dia em que ela foi fazer teste de vt. Nesse dia, estava lá a Mayara, em quem o Esmir (como diretor) e eu, como “palpiteiro oficial”, acreditávamos poder existir uma protagonista para o curta. Carol conta que eu fiz festa excessiva para a Mayara e ela sentiu-se imediatamente preterida. Carol pegou o papel e depois muitos outros papéis e está já hoje sendo o que ela será – uma das grandes atrizes de sua geração. Mayara hoje tem uma série inteira dela. E aparentemente não há nada de que ela não seja capaz.

Na cena em minha sala de televisão, Tio Augusto dorme. Sobre sua mesa, um livro com a obra poética completa de Garcia Lorca, autor que aprendi a gostar com Lucci. Ao lado do livro, um caderno meu, aberto nas páginas onde, escrito a mão, estava o primeiro esboço do roteiro de Relicário, filme sobre uma pessoa que morreu cedo demais, talvez como Ismália. Na sala, Mônica, Lia, Tarsila e o próprio Lucci tinham feito esse filme comigo. E nossos encontros ecoaram e prosseguem, pelo tempo que durar. (E ninguém saberá dessas pequenas coisas quando vir a cena. Mas eu sei.)

*

Na terça-feira, fomos ao teatro João Caetano gravar mais cenas do mesmo episódio 08. A primeira vez em que eu fui ao teatro João Caetano, assisti a “Moço Em Estado de Sitio”, de Vianinha. O ano era 1997. Depois, aquele palco me deu também “Calendário de Pedra”, de Denise Stoklos, entre outras coisas.

Enquanto o cenário e a luz eram preparados para a nossa cena, a caminho do camarim eu parei atrás da cortina do palco, sozinho, na penumbra. E senti evidente a energia que só o teatro consegue gerar em mim, eu que nem nunca fui ator e nem nunca subi em um palco. Desci e continuei trabalhando, sem contar isso a ninguém.

Lucci fez uma cena com Mayara no palco.

- Que energia de “Ato II Cena 5” isso aqui, né?, ele comentou.

Sim, havia mesmo. Em 2003, eu dirigi meu primeiro filme, um curta-metragem em 16mm, feito em parceria com o Esmir. Coloquei em cena, homenageando-os, Maria Alice e Lucci, meus dois imensos amores e musos. Cinco anos depois, estávamos de novo em um palco de teatro, de novo eu e Esmir na direção, de novo Lucci em cena. E já se tratava de meu quarto trabalho onde havia um teatro.

Mais tarde, Alejandra fez Ofélia e Hamlet voltava, uma vez mais, essa angústia da influência da qual eu talvez jamais consiga me livrar. Hamlet, ele mesmo, em espírito imortal, sorria em algum lugar, eu tenho certeza.

Ainda mais tarde, Tiê, uma outra e mais recente musa, atendia resplandecente a meu convite e participava como ela mesma de uma cena em que os personagens da série assistem a um show seu. Mariana Bastos, amiga desde antes disso tudo e agora nossa roteirista, me apresentou a música de Tiê há algum tempo. E eu mesmo tratei de ir para perto dela, depois disso.

Na platéia, Thereza, eu em versão feminina, a minha deusa maia, nos visitava. E sentei a seu lado para a cena, fazendo figuração como um casal de namorados que não somos de verdade, mas talvez sejamos em alma. Eu e Thereza víamos Tiê, sentados atrás da Thereza da ficção, nomeada em homenagem a ela. Thereza da ficção que sou eu, Marcos da ficção que sou eu, Thereza da vida real que sou eu. Todas as paixões do mundo.

Ismália, Esmir, Carol, Lucci, um apartamento, Mayara, curtas-metragens, o teatro, a ficção, Tiê, Thereza e meu coração vagabundo querendo guardar o mundo em mim.

E um episódio sobre SIN-CRO-NI-CI-DA-DE.

Os fios da história se atam e desatam com tanto sentido e sem nenhuma lógica. Mas na terça-feira eu soube que estava muito feliz.

Um comentário:

Thereza disse...

às vezes eu amo a vida e cheguei à conclusão de que são por estes motivos.