3.2.09

derrocada, mas com sex appeal



o que me parece especialmente relevante em Revolutionary Road (onde, meu deus, foram buscar esse horrendo título de Foi Apenas Um Sonho??!), sem muita reflexão aprofundada sobre o filme e seus efeitos (ou defeitos), é a maneira como, em algum ponto, ele consegue ser ambíguo sobre aquilo que aborda.

além disso, seus atores.

se pensarmos no Sam Mendes que execrou com acidez embrulhada em sarcasmo esperto o subúrbio norte-americano e suas "criaturas" em Beleza Americana, onde a noção de felicidade parecia inevitavelmente inalcançável ou distorcida, esse novo filme abre uma janela para a possibilidade.

é profundamente moral, todavia, e parece deixar a mancha como imagem síntese – há coisas que não se limpam ou negligenciam, ponto. mas é preciso dizer que não são poucos os momentos em que se pode sentir os personagens ou simplesmente satisfeitos com suas vidas ou, o que é bem mais interessante, intensamente em dúvida.

e, correndo o risco de isso dizer mais sobre o espectador do que sobre o filme (como quase sempre, de todo modo), não é ofensivamente explícito que a obra ou seu(s) autor(es) estejam julgando. em certa medida, encampa-se a dúvida, não obstante.

a “vida no subúrbio” ou a “vida familiar” ou a “vida de aceitações” nem sempre possui o peso mortal da “vida de desistências e frustrações”. em breves momentos, frestas apontam para uma oscilação. em outros, a “frustração” deixa de ser frustração na medida em que quase se transforma em uma resignação consciente e capaz de (alguma) plenitude.

permitir que a realidade se sobreponha aos sonhos é o pecado supremo para uma alma esclarecida ou é o jeito mesmo que as coisas são (ou acabam sendo)?

a mim, Sam Mendes parece permitir que a contradição aflore.

nesse caminho, Kate Winslet e Leonardo DiCaprio parecem ter momentos em que são donos completos de suas verdades. no que pese um roteiro que os faz serem sôfregos e dolorosamente óbvios nos pontos chave de encadeamento do conflito central, há cenas ali belas e assustadoras.

(e com os dois, a crise pode ser sempre e também sexy!)

a briga final e definitiva do casal, por exemplo, salta da tela e ressoa como um raio. estarrecedora.

Revolutionary Road não é, definitivamente, um grande filme porque não luta com bravura contra seus defeitos. e são altas as probabilidades de ser esquecido logo. mas, hoje, há ali coisas que ficam na cabeça e pelas quais ele talvez deva ser visto.

Um comentário:

Thereza disse...

Pois é, concordo 100% com sua crítica, mas não te pareceu que, em vez de Sam Mendes ter aberto possibilidades (ao contrário de Beleza Americana), que ele tenha se perdido várias vezes ao longo do filme? Pq foi isso que me pareceu... confuso ao extremo naquilo que parecia ser mais um filme com um ponto a provar.