16.4.09

e você, quem é?

ir a Santos de carona com seu pai, passear com sua mãe, visitar as duas avós, o avô e encontrar com uma porção de tios e primos.

observar as ações pouco gentis do tempo. passar em frente à grande casa onde sua avó morou por quase 30 anos e ver um imenso prédio ser erguido - camadas agressivas de concreto duro onde antes havia jardim.

no fundo da alma, a matriarca de O Jardim das Cerejeiras (comédia dramática em quatro atos de Anton Tchekhov) clama com os sentidos em chama:

Oh, meu belo, maravilhoso e querido jardim! Minha vida... estas janelas... minha juventude... Adeus. Adeus!

*

Em Temporada de Gripe (peça de Will Eno), a personagem que Maria Alice fazia diria em dado momento algo parecido com:

Famílias são apenas grupos de pessoas.

*

A gente escolhe raspar o cabelo, escolhe deixá-lo muito grande ou pintá-lo de cores diferentes, escolhe cortar as unhas ou deixá-las compridas, escolhe cuspir no chão ou assoar o nariz no lenço, escolhe em geral onde depositar nossas excreções (e secreções), escolhe tomar banho, escolhe que desodorante usar, escolhe que roupa vestir, escolhe o que comer, escolhe que carro dirigir, escolhe que livros ler, escolhe o que ver na televisão, escolhe com quem conviver, escolhe que horas dormir, escolhe para onde viajar, escolhe nossa religião, escolhe nosso presidente, escolhe... ih, a gente escolhe tanta coisa...

a gente escolhe ser bonito ou ser feio? a gente escolhe nascer rico ou pobre? a gente escolhe nossa cor preferida? a gente escolhe ser sensível? e ser durão? a gente escolhe quando a gente chora? a gente escolhe nossa matéria preferida na escola? e nosso tipo de filme? e gostar de brócolis? e de chocolate? a gente escolhe gostar de pegar ônibus? e saber dirigir? a gente escolhe a hora de ter sono? e as pessoas de quem gostamos? a gente escolhe nossa profissão? a gente escolhe... a gente escolhe o quê, mesmo?

religião a gente escolhe? e não é curioso que havendo tantas “verdades” religiosas diferentes, há quem ESCOLHA acreditar em UMA verdade absolutista e definitiva? quem está errado, nessa brincadeira? quem está mais certo?

a gente não escolhe ser gay, a gente não escolhe ter fome, a gente não escolhe ser rico, a gente não escolhe o país onde nasce, a gente não escolhe ter ou não irmãos, a gente não escolhe ser circuncidado, a gente não escolhe nascer com síndrome de Down, nem perder um dedo, nem ficar surdo, nem ter miopia, nem ter dentes tortos, nem ter mal hálito, nem ser careca, nem ser negro, nem ser branco, a gente não escolhe ser adotado, a gente não escolhe ter pais bêbados ou violentos, a gente não escolhe nascer, a gente não escolhe ser abusado sexualmente, a gente não escolhe ser roubado, a gente não escolhe ter diabetes ou câncer, a gente não escolhe ter alergia.

por que a gente tem alergia, afinal?

e intolerância? e preconceito?

preconceito contra quem é gay, contra quem é travesti, contra quem é machista, contra quem é misógino, contra quem é pobre, contra quem é muito rico, contra quem é mauricinho, contra quem é hippie, contra quem é caipira, contra quem é nordestino, contra quem gosta de axé, contra quem ouve musica clássica, contra quem é exibido, contra quem é tímido, contra quem é feio, contra quem faz plástica, contra quem é manco, contra quem fala alto, contra quem não fala, contra quem é judeu, muçulmano, budista, evangélico, contra quem é estrangeiro, argentino, oriental, negro, índio, contra quem torce pro Corinthians ou pro Palmeiras ou não torce, contra quem é violento, contra quem é bunda mole, contra quem sonega imposto, contra quem é funcionário público, contra quem é detento, contra quem é advogado, contra quem é brega, contra quem é chique, contra quem é velho, contra quem é adolescente, contra quem é adotado, contra quem não tem filhos, contra quem é suicida, contra quem é depressivo, contra quem é alegre demais, contra quem é político, contra quem tem caspa, contra quem é loiro, contra quem rói a unha, contra quem é alcoólatra, contra quem fuma maconha, contra quem é arrogante, contra quem é esquisito, contra quem é emo, gótico, skinhead, contra quem vê novela, contra quem não vai ao teatro, contra quem faz teatro, contra quem... contra quem mesmo?

quem é você, cara pálida, para não aceitar a natureza do outro? quanto você mesmo realmente escolheu para não aceitar quem ele escolhe ser?

o quanto se divide naturezas e escolhas? e onde começa e termina o respeito por ambas?

ponha o seu preconceito no espelho e entenda, o mais rápido que você puder, que o seu preconceito É você e você É o seu preconceito.

*

de 10/02/2006, relembrando belo texto de Pedro Alexandre Sanches:


a montanha do dar-de-ombros

ei, tu, cara-de-tatu. pega teu preconceito mais recôndito, aquele que mais te incomoda porque, quanto mais tu tentas expeli-lo pelo cuspe, mais ele te corrói por dentro.

ei, você aí. que tal levar seu preconceito para passear um pouquinho?

dê uma volta com ele. passeie pelas calçadas, vá pela sombra. mostre ao seu preconceito os cachorrinhos no pet shop. juntos, façam muxoxos às crianças de 12 anos entupidas de consumismo mórbido de shopping center.

ainda que seja difícil, respeite seu preconceito. pague-lhe um sorvete. evite o marketing nas vitrines, sucumba ao marketing onipresente: carregue o seu preconceito para dentro do cinema, conduza-o a assistir um filmão hollywoodiano cotado para ganhar o oscar. compre um saco grande de pipocas.

pague duas entradas, uma meia para você, uma inteira para o seu preconceito. colabore na campanha benemerente que levará o dramalhão da hollywood mountain a faturar bilhões de dólares mundão pobre a fora e umas estatuetas de marketoscar no ex-epicentro do planeta.

e, bingo!, pegue-se de repente de mãos dadas com seu preconceito, no escurinho do cinema, entre beijos lânguidos (de língua) e fogosos, enquanto "brokeback mountain", de ang lee, se avoluma diante de seus (quatro) olhos.

goste. emocione-se um pouquinho assim, ó. derrube uma lágrima furtiva, mas saia do cinema dando de ombros para o "western gay", por não ter se identificado tanto assim.

então olhe de novo para seu preconceito, veja como ele está mudado. pergunte-lhe se gostou do filme (com jeitinho, para não magoá-lo).

molhe seu preconceito com um copinho d'água gelada (antes, faça um bochecho, tire o sal e os piruás do dente, cuspa). teste seu companheirinho eriçado, umedecendo-o, para descobrir se, depois do filme com que você não se identificou tanto assim, seu preconceito irá proliferar feito gremlins n'água, ou se, pluft!, vai se extinguir feito sal diluído em água doce.

dê soro ao seu preconceito. ele merece.

chuvisque-o de lágrimas, suor, urina, sangue, esperma, sucos vaginais, saliva, catarro. cuspa. engula. aplique um chego, uma chegadinha, um xamego, um bole-bole no seu preconceito.

cuide-se bem, perigos há por toda à parte, e é tão necessário viver. mas cuide do seu preconceito no escuro do seu quarto, à meia-noite, à meia-luz. dispa-o de seu capote "pré", desnude-o, acaricie-o e faça-o gozar feito conceito nu (goze com ele), materializado em pré-pós-conceito, em tudo ao mesmo tempo agora onde tudo se mistura.

mate seu preconceito. deixe-o à míngua de inanição. só então olhe-se despido(a) no espelho e veja-o ali de volta, transmutado feito zelig em sua própria face. repita todo o ritual, moldando-se à sua própria imagem e semelhança como fizera até então com seu preconceito (peça o dinheiro de um dos ingressos de volta na bilheteria).

entenda, com carinhos à farta, que o seu preconceito É você, e que você É o seu preconceito.

3 comentários:

Ti disse...

Tão sensacional primito.
Mas só uma coisa... =P

"ou se, pluft!, vai se extinguir feito sal diluído em água doce."

O sal vai se dissociar, porque os íons já presentes no NaCl ficaram separados e a sua solução vai ser boa condutora de eletricidade. Ou seja, o preconceito ficará dissociado e, analogicamente, extinto. De quebra ainda vai acender umas luzes... AMO!

Paula Manzo disse...

renda-se, como eu me rendi. mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

- clarice.

Pedro Alexandre Sanches disse...

ai, meu deus, o que será que aconteceu com rafaello pra encafifar assim com o preconceito?...

(obrigado pela citação!)