21.1.11

um pouco de teatro no início de ano

  • Ligações Perigosas faz lembrar: que belíssimo, que saboroso romance epistolar escreveu Choderlos de Laclos (é uma pena a prodigiosa tradução de Sergio Milliet estar fora de catálogo, embora haja circulando uma de Carlos Drummond que eu desconheço) e com que adequação ele se presta à cena teatral na transposição de Christopher Hampton; o quanto o teatro é uma corda de tensão que precisa manter-se vibrante na inteligência, tempo e domínio dos atores; que domínio de cena possui Marat Descartes, de tal nível que chega a ser quase injusto; que baita atriz é Sabrina Greve.


  • Marcha Para Zenturo, uma peça estranha, é talvez a menos obviamente gostável das montagens que o Grupo XIX ou o Grupo Espanca! realizaram em suas trajetórias individuais. E, por isso mesmo, é cheia de camadas e estimulante da primeira a última cena - desde já um espetáculo marcante para quando e onde quer que se esteja.


  • Apesar de ser um 'clássico' gasto por décadas e décadas de produção dramatúrgica audiovisual voltada para os embates de tribunal, das leis de direito e da investigação criminal, Doze Homens E Uma Sentença é um ponto alto da carreira recente (leia-se de pelo menos os últimos dez anos) do diretor Eduardo Tolentino. Discrição, elegância, equilíbrio, plena visão de conjunto (inclusive e especialmente na concepção/ uso do cenário e luz) e a condução de doze atores quase todos eles no melhor de seu jogo. Norival Rizzo faz valer sua alcunha de grande homem de teatro, Brian Penido simplesmente não erra, José Renato é um sopro de frescor em plena maturidade e Oswaldo Mendes nos faz pensar por que ele não está fazendo mais e maiores papéis por aí.


  • Se Lee Thalor estivesse fazendo em Lamartine Babo o que faz Marcos de Andrade, seria chamado de 'gênio'. De Marcos, fala-se pouco. Mas é mister dizer que se trata de um trabalho simplesmente assombroso. Para brindá-lo, João e Rita:


3.1.11

diários de NY, parte 4: desligando a escuridão

em breves notas:

Chaos and Classicism, em cartaz no Guggenheim, é louvada não à toa como uma das grandes exposições do ano (de 2010). Apresenta um olhar curatorial revelador que recorta obras de peso, traçando panorama de uma época de não pouca importância para a Arte e para a História (o período entre guerras na Espanha, França e Alemana). No retorno à inspiração Classicista trazida pelas enormes convulsões do período, a pintura revela facetas surpreendentes de determinados artistas. Em Woman In White e The Source, Picasso é um pouco Renoir. The Fishermen of Santo Spirito é Ubaldo Oppi conversando com o Visconti de A Terra Treme. Nas fotos de Isadora Duncan at the Portal of the Parthenon, Steichen é um pintor Renascentista, assim como Carlo Carrá em The Daughters of Lot e De Chirico em The Eventuality of Destiny (Monumental Figures). Os ideais da purificação racial saltam direto da sala de estar de Hitler para o museu com The Four Elements, de Adolf Ziegler, enquanto a evocação de um nazi-fascismo belo e agressivo surge em Youths at the Seashore, de Franco Gentilini, e Water Sports, de Albert Janesch. A cor e a beleza não falham nos maravilhosos Harlequin and Pierrot, de Andre Derain, e The Street, de Balthus.

E se é para falar em beleza, no pequeno anexo destinado a exibir diminuta seleção do acervo permanente, é possível se perder para sempre nas cores, formas e nas ideias de Paris Par la Fenêtre, de Marc Chagall, e Blue Moutain, de Kandinsky (cujas telas ocupavam toda a rotunda do museu no ano passado, em uma retrospectiva só sua).

*

Abstract Expressionism New York é um olhar do MoMA sobre o mais norte-americano (e quiçá nova-yorquino) dos movimentos artísticos do século XX. Mas, de todo modo, não parece acrescentar muito àquilo que o museu já expõe habitualmente em sua fantástica coleção permanente.

Adolph Gottlieb, respondendo à pergunta "o que essas imagens significam?":
- Visual images do not have to conform to either verbal thinking or optical facts. A better question would be: do these images convey any emotional truth?

Pollock, em 1951:
- It seems to me that the modern painter cannot express this age, the airplane, the atom bomb, the radio, in the old forms of the Renaissance or any other past culture. Each age finds its own technique.

Assim, temos entre suas telas o percurso mesmerizante entre Mask, Shimmering Substance e Gothic. Depois, deliberadamente sem nomes evocativos, só números neutros - que façam com que o espectador "olhe para a tela pelo que ela é, somente uma pintura" -, a monumental One: Number 31, 1950, White Light, Number 1A, 1948 e Full Fathom Five, que contém pequenos objetos (chaves, pregos, cigarro) grudados em sua superfície, junto da tinta.

De Pousette-Dart, Desert e Fugue nº 2.

De Lee Krasner, mulher de Pollock, Untitled (1949).

De Rothko, que queria que os blocos coloridos flutuassem, que almejava que a relação do espectador com a tela fosse particular e inexplicável, evocando sensações, climas, temperaturas, nº 10, nº 5/ nº 22, nº 37/ nº 19, nº 3/ nº 13.

De Jack Tworkov, The Wheel. De Sam Francis, Big Red ("color is light on fire"). De Philip Guston, Painting (1954), um por do sol de Monet, e The Clock.

*


Não é possível realmente falar sobre Spider Man: Turn Off The Dark, simplesmente porque há dublês caindo, atores abandonando o elenco, trilha sonora sendo refeita, estreia sendo adiada e, segundo consta, falas e cenas mudando noite após noite para dar conta de uma melhor transmissão da história.

Vale dizer, no entanto, que o fracasso em roteiro, em storytelling, é retumbante. Na exata mesma proporção em que Julie Taymor é, sim, capaz de criar mágica teatral, ser inventiva e coadunar múltiplas e fascinantes técnicas cênicas, quase sempre dentro do princípio do 'truque duplo' que a consagrou em O Rei Leão (vê-se a máscara e o rosto do ator - a ilusão se dá pelo manejo da exposição e não pela tentativa de suspensão completa da descrença).

Ah, e as músicas são bastante, bastante fraquinhas.


.

16.12.10

diários de NY, parte 3: o tempo cristalizado




Bloody Bloody Andrew Jackson é o melhor novo musical da temporada que não chegará ao fim da temporada (com exaltação absoluta da crítica mas venda fraca de ingressos, não bancará a aposta e sairá de cartaz antes do previsto). Reconta de forma muito livre e 'emo-rock', como se autointitula, a vida do 7º presidente americano, cujo legado enfrenta controvérsias entre o patriotismo democrático e o apoio à escravidão e à chacina indígena. É empolgante por todo o tempo de sua curta duração, conta com um score extremamente vivo (apesar de não emplacar nenhuma canção memorável) e, razão principal de sua força e destaque, trabalha uma dramaturgia que joga o tempo inteiro com a mais esperta e deslavada sátira metalinguística, tão escancaradamente (auto) paródica como no melhor de Corra Que A Polícia Vem Aí (ou, digamos, TV Pirata), por exemplo.
Benjamin Walker é o protagonista carismático à frente de um elenco inteiro afiado. Porque é disso que se trata, na melhor tradição da cena 'contemporânea' (oh, esse pavoroso termo!): um estimulante jogo entre bons intérpretes, respaldado por um texto inteligente e que fala a seu tempo (politica e socialmente), narrando o passado com ironia e sagacidade. E o faz na medida certa, em uma encenação enxuta e pulsante, revestida na melhor embalagem do entretenimento.



Deve ser algum tipo de piada interna o fato de todas as biografias de todos os atores, na seção "Who's Who In The Cast", das Playbills distribuídas antes das peças, conter uma participação em Law & Order.



Basicamente desde sua estreia, qualquer espectador de talento sabe perceber que Conduzindo Miss Daisy é uma peça na melhor das hipóteses agradável. Reencená-la, portanto, me parece nada mais do que somente a oportunidade (ou o oportunismo) de criar um veículo para dois atores veteranos brilharem um pouco e lucrarem bastante. É exatamente o que fazem Vanessa Redgrave e James Earl Jones nessa remontagem bem morninha, que, à parte a competência do par central, não empreende nenhum grande momento dramático. Enquanto Earl Jones veste com impacto e propriedade uma partitura física e vocal que é tão bem desenhada em termos de composição quanto difícil de compreender em termos de prosódia (ao menos para ouvidos estrangeiros), Vanessa, bem, vale dizer algumas coisas sobre ela...
Um monstro, Vanessa Redgrave é daquelas atrizes maiores que a vida. Shakespeariana, mitológica, espectral, carrega uma aura que evoca grandes personagens. De alguma forma - e por mais que sua carreira cinematográfica cheia de curvas esquisitas, altos e baixos prove o contrário -, o pensamento nela nunca vem associado a tipos da vida 'real', ao menos não da vida muito ordinária. Mas eis que Miss Daisy é justamente uma senhora bem ordinária do sul dos Estados Unidos, às voltas com o filho e o motorista. Vanessa, a dama inglesa de Retorno a Howards End, o mago Próspero em A Tempestade, Cleópatra, Hécuba, ela em um papel tão... simploriamente americano?
O caso, em verdade, não é nem a questão da nacionalidade, já que ela brilhou alguns anos atrás nesta mesma Broadway como a matriarca de A Long Day's Journey Into Night, a obra-prima absoluta da dramaturgia desse país. O negócio é que Miss Daisy é um papel quase boboca e Vanessa parece ser, literalmente, de um outro lugar. O papel ela tira de letra, é claro. Na segunda cena, já toma conta tão completamente de tudo que passamos até a esquecer que a peça não é tão boa assim. A sensação de miscast, no entanto, deixa seus gosto. Por algum motivo, o próprio físico de Mrs Redgrave diz que ela não precisaria, por exemplo, mexer no que fez Jessica Tandy, essa sim talhada brilhantemente para o papel que lhe encheu de glórias. Ver Vanessa é, apesar de tudo, sem dúvida um momento especial demais, a se reter com afeto para sempre. (Como disse o crítico do NY Times, esses atores gigantes em extinção devem ser vistos em qualquer coisa. Até mesmo em Conduzindo Miss Daisy.)
(Além disso, vê-la encerra uma trilogia que compreende Cate Blanchett e Judi Dench, testemunhadas ao vivo no teatro em 2009. E uma olhadinha nos projetos fílmicos vindouros de Vanessa denuncia que o panorama é de boas expectativas. Ela estará no shakespeariano Coriolanos, dirigido por Ralph Fiennes, e no curiosíssimo Anonymous, de Roland Emmerich, interpretando Elizabeth I. Que vem a ser o papel que consagrou justamente Cate Blanchett e que deu o Oscar a Judi Dench.)



Brief Encounter é uma adaptação para o teatro do filme homônimo de David Lean, de 1945, misturando a ele elementos da peça original de Noël Coward (Still Life) em que se baseou. Trata-se de um achado teatral, pensado e conduzido com muita sensibilidade, extremo senso de ritmo e ideias e soluções cênicas inventivas, trabalhando a favor da narrativa. Como toque final, adicionou-se à trama um punhado de canções do autor, que embalam e ampliam os sentidos do texto. A produção é importada de Londres, de onde vem o elenco inevitavelmente coeso (e que não participou de nenhum episódio de Law & Order). Sem maiores efeitos sentimentais, trata-se de um espetáculo leve que, na medida de de suas pretensões, resulta em agradável surpresa.



Time Stands Still é o exemplo cristalino do fenômeno da dramaturgia norteamericana. Peça passada inteira na sala de estar de um apartamento nova yoquino, é daquelas que você sente que já viu 30 iguais (porque já viu mesmo, em palcos pelo mundo ou importadas para o Brasil, em cartaz em teatros dentro de hotéis, shoppings ou faculdades caras), mas que em nenhum momento falha em ser arrebatadoramente competente. Descendente de uma tradição, saída de um molde, é arriscada e provocadora sem no entanto correr o risco de tirar os pés do chão firme. Um primoroso feito de escrita, é o resultado concreto de uma cultura que leva a autoria a sério - 'creative writing', aqui, se ensina na escola, e pra valer!
Donald Margulies, cujas Jantar Entre Amigos e Histórias Roubadas efetivamente já figuraram em palcos brasileiros, é esse autor de extrema 'correção': escreve peças a partir do cânone, de condução horizontal, com pouca ou nenhuma ousadia ou invenção maior, mas que não falham em refletir assuntos e seres de seu tempo, em criar grandes personagens, em remexer o mundo moral e mover a engrenagem mais primordial do drama - peças para se estudar na escola, enfim.
Aqui, guerra, exploração humanitária, sucesso e fracasso profissional, bombas, cicatrizes, casamento, escolhas pessoais e o tempo que tudo enquadra e congela e transmuta, mesmo parecendo ficar imóvel. Laura Linney, que em anos de papeis coadjuvantes e algumas fortes protagonistas cinematográficas - além do furacão na recente série televisiva The Big C - há muito já comprovou a que veio, entrega uma sólida e comovente performance. Mais à sombra, Bryan D'Arcy James e Eric Bogosian (sim, Vinicius Calderoni, o autor de subUrbia) impulsionam com discrição e plenitude as mulheres que mandam na cena. Além de Linney, num papel originalmente criado por Alicia Silverstone, está Cristina Ricci, mostrando para quem ainda tinha qualquer dúvida que, sim, atua feito gente grande. É ela basicamente que proporciona o alívio cômico maior da peça e o faz com domínio total de tempo e palco.
Poderosa em sua temática, finamente esculpida em sua técnica dramatúrgica, dirigida com sobriedade e belamente atuada, Time Stands Still é o programa teatral imperdível da cidade. (Que o diga Rodrigo Santoro, ali sentado na plateia.)



E o Globo de Ouro, né? Um sorriso amarelo e um muxoxo. Mas daí você pensa "opa, peraí, Meryl Streep cadê? Será que ela não fez nenhum filme nesse ano?". Não, de fato não fez. Mas vem aí em 2011 (provavelmente dessa vez para GANHAR o Oscar) como Margaret Tatcher. No entanto, o que ela FEZ esse ano foi uma participação hilária no já por si hilário Web Therapy, websérie de Lisa Kudrow. Streep como gênia absoluta da invenção, do controle físico e da inteligência (contracenando com Kudrow, que nunca deixou por menos), pode ser vista aqui.





13.12.10

diários de NY, parte 2: o Mercador e os Pianos

  • Edward Hopper é pintor daquelas telas para as quais se poderia olhar durante uma vida inteira. O Whitney Museum o recorta em Modern Life: Edward Hopper and His Time de maneira interessante, mas também preguiçosa. Segundo consta, há 2.500 obras do artista no acervo da instituição, então por que mostrar ao público pouco mais de uma dúzia? Estão lá as míticas Gas, A Woman In The Sun e Early Sunday Morning, além de maravilhas surpreendentes como South Carolina Morning, The Sheridan Theater e The Barber Shop (essa um quase Vermeer de seu tempo). Na seleção da curadoria, pode-se ler Hopper como um elo entre um Realismo subjetivo (ou um Impressionismo realista) e um Futurismo conservador. Ou o ponto fora da curva do Abstracionismo, simplificando formas sem abandonar o figurativo. Fato é que Hopper desde sempre explode sentidos humanos em suas telas como poucos. Curiosamente, é como se suas pinturas tivessem dramaturgia, como se as ferramentas visuais admiravelmente manejadas existissem para dar sentido emotivo pleno ao quadro, mesmo que se trate de uma paisagem deserta.

  • Al Pacino é um monstro e quase todo mundo sabe disso. No entanto, em sua carreira cinematográfica recente - a não ser por excessões pontuais como a série Angels In America ou, dizem, o telefilme You Don't Know Jack -, o comentário recorrente aponta a facilidade com que ele liga o piloto automático. A experiência de vê-lo ao vivo, nesse sentido, adiciona tempero à discussão ao escancarar um 'método' que pode ser também uma espécie de álibi (para Mr. Pacino, entenda-se). Clarifica-se uma sensação de que para Al Pacino (assim como para talvez qualquer ator largamente experimentado), atuar e viver são estados basicamente indissociáveis, complementares, unos até. Há sempre uma máscara no rosto de Al Pacino e essa máscara pode nem sempre apresentar tantas nuances ou variações, pode muitas vezes focar-se em um repertório que achamos já conhecer bem. O que separa o mergulho definitivo e profundo de Al Pacino de uma certa 'canastrice' determinada por uma abordagem mais 'careteira' e imediata, é, portanto, o número de tijolos com que se ergue o personagem. Porque o corpo é aquele, a técnica é aquela, o homem é o mesmo. Seu Shylock, nesse O Mercador de Veneza que é o ingresso mais difícil e disputado da cidade, é uma baita de uma atuação (em termos de voz, partitura física, prosódia, emissão das palavras, domínio do tempo e, acima de tudo, sentido do texto), mas olhando bem de perto (e a segunda fila é bem de perto!), enxerga-se com extrema transparência a construção, os detalhados pedaços de uma vasta parede. E entende-se que um mau Al Pacino e um Al Pacino fascinante são mesmo dois lados da mesma moeda, variando em cada um deles a quantidade e dificuldade das peças no quebra cabeça.

No mais, trata-se de uma montagem boa e correta, poucas vezes realmente empolgante, mas com competente fluidez na travessia de uma dramaturgia prolixa. Um ótimo ensemble, com destaque absoluto para a protagonista Lily Rabe, um rosto assustadoramente igual ao de Laura Linney, com os timbres roucos da voz de Cate Blanchett. Ela e Pacino, como dizem as manchetes, são 'as performances da temporada'.




  • Three Pianos, uma peça-concerto cômico-musical do New York Theater Workshop, nem estreou oficialmente ainda, correrá em temporada limitadíssima, mas é a atração off-Broadway de que se houve falar. Três músicos que também atuam e compõe e cantam (ou pelo menos é assim que se consegue comprender a hierarquia de suas 'funções') escreveram - ou, mais provavelmente, improvisaram - digressões dramatúrgicas para acompanhar o ciclo Winterreise, de 24 canções de Schubert. Três pianos em cena movimentam-se frequentemente em um cenário combinado entre elementos oníricos e realistas, criando imagens estimulantes tanto quanto repetitivas. A música não aparece em sua plenitude, sendo na maioria das vezes apenas citada. As digressões extrapolam e requerem coesão e os talentos estritamente 'dramáticos' dos três performers tampouco seguram com o brio que se pretende as duas horas inteiras de espetáculo. A premissa de criar uma fantasia teatral ao redor de uma peça da música erudita soa apetitosa e promissora (e foi o que nos levou ao teatro, pra começo de conversa), mas, apesar de no geral proporcionar uma experiência consistente e estar muito longe de se configurar como um desperdício (de tempo e/ou da ideia), tampouco realiza-se por inteiro.
PS: Na bilheteria, a atendente: "carteira de identidade, por favor?". Eu: "identidade?". Ela: "vinho é servido durante a peça". Eu: "mas você acha que nós não temos 21 anos?". Ela: "acho". Isso é felicidade (ou, vá lá, cegueira).

12.12.10

diários de Nova York - parte 1

Algumas notas esparsas, a constar:

  • Danny Boyle afunda 127 Hours na exata mesma lama onde os críticos (não americanos, em sua maioria) acusavam-no de emporcalhar Quem Quer Ser Um Milionário. A diferença é que este último aceitava o emporcalhamento e refestelava-se nele (ou era capaz de conduzir o público a assim o fazer, de toda forma), enquanto o primeiro só exaspera-se para sair do atoleiro. James Franco faz o que pode (seu convite de apresentador do Oscar, dizem, terá dupla serventia) e há, por parte do roteiro e da direção, de fato uma força em segurar um filme inteiro sobre (ou sob) uma situação dramática literalmente muito restrita. Mas quando vai-se desenhando a perspectiva da pieguice destrambelhada e da diluição das boas ideias, o erro já se apresenta sem volta. (As críticas, aqui, são majoritariamente festivas, não obstante.

  • Soa como um provincianismo deslumbrado achar que a grama da metrópole do vizinho é mais verde, suculenta, esperta e cosmopolita do que a sua própria, mas se já é cantiga velha dizer que passou da hora de São Paulo ter sua Time Out, que dizer então do New York Times e sua edição de fim de semana?! Bem, ela é, assim... ela é o jornal que qualquer culturete (deslumbrado?) merece. Em Arts & Leisure, a reportagem sobre o 'novo' disco de Michael Jackson, uma análise acerca do fracasso das peças de cunho histórico da temporada de outono, o novo dos irmãos Coen, uma revisão da carreira de Bernardo Bertolucci, um perfil de Sofia Coppola, uma entrevista com James L Brooks e outra com a dupla John Cameron Mitchell/ Nicole Kidman. Isso tudo num mesmo caderno de cultura. E não é só uma questão de 'as celebridades deles brilham mais do que as nossas' e sim uma questão de o que se pode fazer/ como abordar essas celebridades. Porque não se trata de textos rápidos e 'releasísticos', mas conteúdos substanciais produzidos a partir dos eventos/ personagens/ tópicos da semana. Para coroar, a The New York Times Magazine traz as fotos e o 'making of' de 14 Actors Acting, mais irmãos Coen, uma investigação sobre as estrelas mirins (a propósito de Elle Fanning), 'o que o filme sobre o Facebook falhou em capturar sobre a era digital', e matéria sobre a noção de realidade fílmica entre documentários verdadeiros e falsos e ficções inspiradas na realidade. This is it.

  • La Bohème em montagem do Metropolitan encenada por Franco Zeffirelli é a opulência que se pode esperar, com cenários de grandioso e meticuloso realismo (praça em Paris com centenas de figurantes, neve artificial etc). Joseph Calleja e Fabio Capitanucci destacando-se sobre as colegas Krassimira Stoyanova e Ellie Dehn, competentes porém sem brilho. Mas a efervescência emocional de uma Bohème bem conduzida (em termos musicais e cênicos) é sempre irresistível.






23.9.10

23 de setembro

hoje, você faria aniversário.

e na cozinha, nessa madrugada, eu sinto o cheiro do pano de prato que costumava ser seu e me desespero menos com a saudade avassaladora que eu já sinto e mais com a perspectiva do quanto, infinitos dias, eu ainda vou senti-la.

10.8.10

ninguém nunca vai saber

...eu sabia que um monte de gente ia olhar pra mim com pena e querer me abraçar e beijar e tocar em mim e eu não queria nada disso, só queria ficar bem quieta e encolhida no meu canto, chorando ou gritando exatamente como eu fiz no chuveiro, esmurrando os azulejos e dobrando o corpo sem força como se ele fosse escorrer pelo ralo que era na verdade o que eu queria ou o que parecia que ia acontecer e também olhando pra dentro de mim mesma porque só eu sabia o que era aquilo, aquela dor, aquela queda looooooooooooooooooooooooooooooooooooonga, contínuacontínuacontínuacontínuacontínuacontínuacontínuacontínInfinita infinita infinita
três vezes infinita, infinitas vezes infinita, sem super herói pra vir salvar mas também sem gravidade, como se eu caísse da lua pra dentro do espaço, um grande nada, um vácuo sufocante, prestes a me despedaçar e ninguém sabia o que eu estava sentindo, ninguém jamais iria entender o que é ter que ver o Tio Tuta indo embora, então por isso eu não quis ver, não quis ver cadáver, não quis ver caixão, não quis chegar perto e enxergar uma tampa de madeira sendo colocada em cima da pessoa que me ensinou tudo o que eu sei e tudo o que eu sempre soube, tudo o que eu era e sou, a pessoa pra quem eu queria mostrar as coisas bonitas que eu fizesse, de quem eu precisava do consentimento e aprovação, e pra quem eu vou mostrar as coisas agora?, pra quem eu vou fazer as coisas?, para quê eu vou fazer?, e que me mostrou todos os lados mais divertidos da vida e as belezas dela e também algumas atrocidades e agora a maior delas porque ele ir embora era a pior de todas e eu não queria participar daquilo para ver se de repente percebiam que estava errado e era mentira e cancelavam tudo e o tempo voltasse atrás e o desespero não existisse; as pessoas que falam em vazio falam porque não querem perceber direito que não tem nada de vazio, é uma grande cheia, um vulcão transbordante de lava entrando em erupção e te queimando toda e subindo pelos seus pés, e seu espírito trancado dentro de um túnel cheio de terra, querendo cavar pra não sufocar em tanta tristeza, e cavando é como se cada punhado de terra fossem todas as lembranças mais palpáveis que você não quer que deixem de ser palpáveis, então na verdade você quer cavar para não se asfixiar mas você também não quer parar de cavar porque quer sentir de forma táctil, e não quer parar de sentir e de entender mas não se entende nada porque ninguém te prepara pra isso, ninguém nunca te avisa que essa sensação existe, te preparam pra um monte de responsabilidades e dizem que a vida vai te ensinar muitas coisas e alertam que nem sempre tudo é alegre e prazeroso mas ninguém te conta que isso é possível, esse momento, isso aqui agora, alguém tira isso daqui, de mim, alguém me tira de mim e todos me deixem sozinha porque ninguém nunca vai saber, sozinha, só nós, só ele sabe e só eu sei e por que ninguém te conta que existe uma queda livre para dentro, uma explosão que despedaça partes de você que você nem sabia que existiam, ninguém, nada, nunca.

9.8.10

em 67


O excelente documentário Uma Noite Em 67 opera destreza, reflexão e prazeres em alguns niveis:

- Surgido em época na qual documentar é tão banal, o documentário trabalha justamente no resgate de um documento histórico único, valioso e ocorrido em um momento em que o registro audiovisual significava outra coisa - tendia a ser portentoso, histórico, testemunha ocular insubstituível de um momento. E, buscando seu documento em arquivos de outrém (especificamente nos da TV Record), ocupa-se em acrescentar a ele pontuais, elegantes e não menos valiosos complementos.

- Possui aquela atmosfera melancólica e efusiva de álbum de retratos e dá a ver a gênese de gigantes - uma experiência sempre efusiva, melancólica e desconcertante.

- Vinga o atabalhoado e trôpego Dzi Croquettes, mostrando como se opera linguagem, discurso, bom gosto e raciocínio cinematográfico. Empreende um documentário, portanto, digno da alcunha.

24.7.10

majestade


é importante que a gente saiba quem é que a gente chama de 'rei
'.