11.3.08

how does it feel?

quarta-feira, 05/03


sozinho na cidade, fui ao cinema. estava em falta com Sean Penn e seu Na Natureza Selvagem, que recebeu pouca chance dos exibidores e já estava em salas pequenas e poucos horários em sua segunda semana de exibição.

o prazer de sair andando para o cinema exatos 10 minutos antes da sessão, gozando uma proximidade geográfica tão rara em São Paulo, foi logo estragado pela placa que era clara: "Na Natureza Selvagem - 20 minutos de atraso". Ok, ainda bem que a Livraria Cultura é ali do lado.

foram 20 minutos lendo um guia turístico do Japão. sim, um guia turístico do Japão, porque eu ainda quero, muito, conhecer o Oriente.

o Cine Bombril 2 tinha suas poucas poltronas bastante ocupadas e Sean Penn é um diretor que é ator. e isso pauta e define os caminhos de seu filme.

existe nele uma liberdade de organização dos códigos que é bastante saudável. soa como um filme feito com o coração e aí reside sua capacidade de ser arejado e "quente", mas também suas escorregadas em algumas situações que extravasam a pieguice ou não vão além da superficialidade.

mas é um tempo que passa bem e que, clichê que seja, deixa o espectador lá pensando sobre sua vida.

*

volto para casa e, propositalmente sem computador, dedico-me a atividades mais edificantes, como a leitura.

Música Para Quando as Luzes Se Apagam, de Ismael Caneppele, é um breve romance que está no meu criado mudo há tempos, mas que encontrou seu lugar nessa noite. às 2h, começo a lê-lo para só parar no fim, às 3h30.

escrevendo como um rapaz de 14 anos em seu blog, Ismael me faz tremer de aflição ao ver a mim mesmo escrevendo aos 14 anos em um caderno de capa azul. a mesma pontuação, o mesmo vocabulário, o mesmo deslumbramento ingênuo, a mesma prepotência bonita perante os mistérios da vida. alguns dos mesmos questionamentos e dúvidas.

o livro ergue um túnel temporal que nos (me) desembaça a visão de nossa (minha) adolescência, que ecoa todas as coisas que passaram e todas as que continuam iguaizinhas. porque assim como algumas músicas só apertam o peito e dão vontade de chorar, instantaneamente, Música Para Quando as Luzes Se Apagam causa o mesmo efeito. e não há necessariamente tristeza envolvida nisso.

e em algum lugar da cidade, Bob Dylan fazia um show.




quinta-feira, 06/03



acordo ainda pensando no livro.

à noite, Bob Dylan.

como que a gente escreve sobre a experiência de assistir a um show de Bob Dylan? não escreve, acho. porque é informação demais e história demais existindo ali na nossa frente. existindo. ali. na nossa frente.

o som estava bom (alo, alo, Via Funchal, viu como é possível?), a banda espetacular. as músicas estendiam-se e construiam-se e cresciam e tomavam corpo e alma e terminavam explosivas. houve clássicos, houve belíssimas composições do cd mais recente. um show em nada incendiário, mas de enorme potência.

clichê que seja (ah, porque quem resiste a um clichê?!), quando Like a Rolling Stone tornou-se identificável, o menino de 17 anos que era eu, em algum lugar nesse corpo onde ele um dia já coube, arrepiou-se inteiro e pensou nele e na Gabriela numa sala lotada do 3º colegial, em Santos, e nos planos de fugir para a Tailândia.

porque devia mesmo ser bom pra caramba evadir e sentir-se por si só, sem caminho de volta pra casa, como um completo desconhecido.

e o menino de 25 anos que agora eu sou ficou feliz. e entendeu uma coisa ou outra sobre a música e como ela preenche a vida.



3 comentários:

Thiago disse...

outro alguém que viu o senhor Zimmerman e que, novamente, não sou eu. a vida assim é menos bonita - e ainda assim, clichê.

Rafael, gostaria de fazer uma pergunta que pode se transformar em um favor, como se fosse você amigo meu. ninguém que eu conheço em São Paulo costuma freqüentar concertos de música erudita e...pois bem, estou muito cheio de vontade de ver Daniel Barenboim e a Orquestra Estatal de Berlim, mas não encontro informações mais abrangentes a respeito do concerto, a não ser a data. será que por acaso você sabe de alguma coisa sobre isso, a fim de informar um mineiro apaixonado e cheio de vontade de aportar em terras paulistanas para ouvir mágica? se souber - ou vier a saber - e quiser compartilhar comigo, serei um leitor-amigo agradecido (tenho medo de que tudo se esgote em dois tempos).

*e boa a dica do romance.

paula manzo disse...

agora me empresta o livro porque eu quero muito ler e não acho...
grata,
p.

geheimnis disse...

googlezando'me aqui em buenos aires a surpresa do dia foi a sua.

no words. ainda em choque.

gracias Y gracias.