15.4.05

CINEMATOGRÁFICAS 6 - uma questão de roteiro

Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri são tidos como especialistas em roteiro. A tal ponto que Alain Resnais os convoca para que escrevam para ele. A tal ponto que levam, fácil, fácil, o prêmio de melhor roteiro em Cannes.

E o premiado é esse “Questão de Imagem”, agora em cartaz, que plenamente corrobora a reputação de casal de roteiristas.

Porque Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri sabem plenamente como eleger uma idéia e criar alguns personagens riquíssimos para desenvolvê-la. Sabem (re) criar um punhado de situações inusitadas e bastante atípicas (no cinema) por serem absolutamente comuns (na vida). Sabem escrever ótimos diálogos, de inteligência simples e humor certeiro. Sabem perfeitamente como amarrar as pontas de uma história, como encadear sub-tramas e desenvolvê-las, unindo-as em um todo coeso e coerente. E, principalmente, sabem que o drama da vida rende sempre uma ótima comédia.

Os títulos de seus filmes resumem tudo, sem revelar nada. Depois da projeção, as palavras “O Gosto dos Outros”, filme anterior roteirizado pela dupla, e “Questão de Imagem” não só adquirem ambivalências e perspectivas como amarram com perfeição o conceito abordado.

Vale dizer que, longe de serem formulaicos, seus filmes possuem uma cara – ou, antes, uma “personalidade”. Melhor que entre essas características bem definidas estejam, além do já mencionado, atores com incrível capacidade para a comédia dramática (incluindo os próprios Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri) e uma direção (de Jaoui, somente) capaz de transmitir uma humanidade nos personagens e um senso de realismo raros – para o que essa mesma direção é, imageticamente, limpa, a serviço da trama.

Afinal, se o negócio aqui é o roteiro, para que “estragá-lo” com imagens, né mesmo?

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“Quase Dois Irmãos”, filme que recebe elogios e indiferença com a mesma intensidade, tem, sim, mais méritos do que problemas. Não que esses últimos não abundem. Há passagens de roteiro “roteirizadas” demais (ah, que falta que faz a capacidade de realismo cinematográfico de uma Agnès Jaoui), diálogos ruins no papel e mal conduzidos na tela.

Mas como falar mal dos colegas nunca foi elegante, vale ater-se ao que o filme de Lucia Murat tem de melhor. Ele foge de estigmas visuais da teledramaturgia. Ele tem uma cadência em seu encadeamento temporal bastante interessante, fluída. Tem um tema mais do que pertinente. Tem alguns bons atores.

E é um filme de pulso, para dizer o mínimo. Uma história de desagravo, de incômodo. Não vem para divertir, nem vem com lenga-lenga asséptica de roteiros “de bem com a vida” (alguém aí disse “A Dona da História”?). Nem com seriedade história ridiculamente solene (“Olga”, alguém?).

(Quem foi que disse que falar mal dos colegas não era elegante?)

Bem, ao que interessa: “Quase Dois Irmão” é filme louvável. E não só porque o nível geral é péssimo fazendo-nos aceitar o imperfeito com espanto. É filme bom de fato, que resiste a uma segunda olhada, que se comunica bem com o público em geral e que tem uma certa força, até mesmo nos seus erros.

2 comentários:

paulamanzo disse...

ainda não vi nenhum

Mari Bastos disse...

Fui ao cinema pela primeira vez com minha avó por parte de pai. Incrível! Não somente porque uma pessoa que já leu mais de mil livros (literalmente), tem sempre algo interessante a dizer sobre as coisas, mas também porque ela dedicou a vida a estudar o comportamento do ser humano nos seus moldes mais ternos: sentimentos, pensamentos e instintos, através de uma ciência chamada de Logosofia.
Pois bem, para uma pessoa assim, nada como assistir Questão de Imagem.
A formula cult "eu faço simples e bonito" virou clichê. Bobagem. Difícil é, de qualquer maneira que seja, fazer algo que preste.
Esse presta. Tem muito mais que uma receita.
É um parecer real sobre a humanidade.
É o um que precisa do outro, que precisa do outro, que precisa do outro. E todo mundo precisa do outro. Mas o mais curioso é que cada um é tão fechado no próprio conflito que quando exige a atenção do outro desconsidera que este tem a mesma necessidade, seja qual for a maneira de senti-la. A reclamação surge: "pô, você nem me liga", pra dizer bem pouco.
Curioso também são as pessoas que parecem não depender de ninguém. Os artistas, por exemplo. Marisa Monte, dizendo como testemunha, é uma pessoa que trabalha tempo integral para sustentar sua imagem tão "suficiente de si mesma". Assim ela já sabe que obtém a aprovação sempre. Mas não é esse tipo de pessoa que mais precisa de atenção, quem vive disso e pra isso?
Não me iludo, sei que somos todos assim, cada um com a sua proporção.
O mundo é dos inseguros que se mostram seguros. O resto não entende nada de marketing pessoal. Questão de imagem...
Minha avó, como não poderia deixar de ser, adorou o filme. E eu saí percebendo como eu preciso dela e ela de mim.
Combinamos outra sessão pra semana que vem...