1.4.08

corpo de baile



sobre o que não se consegue deixar de gostar (muito) em Chega de Saudade:

a encenação ou, como diriam os franceses, a mise en scène. aquele baile flui de uma maneira cativante e surpreendente. a figuração não chama a atenção para si de maneira ruim (e dizer isso pode parecer óbvio mas isso não pode ser dito da grande maioria dos filmes (brasileiros?) que contam com presença tão maciça de figurantes) e, mais, são o pilar mesmo de sustentação dos atores em cena. as histórias deslizam pelo salão de forma absolutamente fluida e envolvente, assim como os corpos, que com presença física discursiva e magnetizante dão forma e conteúdo à(s) trama(s), além de criar um todo repleto de(s) sentido(s).

a câmera, que enquadra em planos fechados para lá de vivos e corpóreos (como explicar isso? bem, pense no quanto não parece que, se você estender a mão, pode pegar Cássia Kiss, quando ela chora na janela). e, veja, não são aqueles "planos-fechados-Olga", anódinos e bobos, derivados diretos de uma linguagem televisiva pré-formatada, não senhor. a câmera de Walter Carvalho aqui está na mão, está pulsante, enquadra e retém-se, não tem medo de deixar a ação acontecer, de captá-la em sua verdade mais básica (o corpóreo está ficando mais claro?). levante aí a mão quem não gostaria de ter filmado um dos últimos planos do filme, em longa e desfocada e deslumbrante seqüência, quando Cássia Kiss (sou só eu que ando adorando a sra. Kiss?) reconcilia-se com Stepan Nercessian?!

a montagem, cúmplice da câmera, definidora da encenação, que sabe pular de personagem para outro e costurá-los sem furos.

o roteiro e os atores, guerreiros do mesmo lado da batalha e bem combinados em suas estratégias, em busca da honestidade narrativa e da verdade individual de personagens muito bem concebidos.

a direção, evidentemente, que cozinha esse caldeirão e rege com visão de jogo, sabendo muito bem o que está fazendo.



não há nada fora do lugar, portanto? sim, uma coisa ou outra, na visão humilde deste blog. (notadamente a atuação algo careteira de uma celebrada atriz veterana com a qual esse blogueiro implica um pouco e de quem a gente não fala o nome porque não é delicado). mas, de verdade, nada que tire o brilho de um filme quente, humano e vivo.




*



não é mesmo impressionante, como destaca o blog Ilustrada no Pop, que a 9ª musica mais tocada nas rádios de toda a região norte do pais seja Blue Savannah, do Erasure???

2 comentários:

Ledier disse...

nossa, rafa!
tá dito. será q vc entrou na minha cabeça depois q eu assisti esse filme?
ele me deixou com um sorriso pelo resto do dia.
e a cássia kiss é linda por saber o qt é bonito envelhecer. as rugas dela são pura alegria.

jpedro13 disse...

oi ledier.
oi rafael.

aqui é o joão pedro, concordando com tudo e achando incrível que vc tenha conseguido descrever exatamente o que gostei no filme.

me chamou a atenção a edição também, de como o filme fluiu bem e como isso era significativo em um filme sobre um baile.

fazia tempo que não via um filme tão delicado. e também me apaixonei pela cássia kiss.