
Penélope Cruz é uma mulher de sorte. Não só porque ela provavelmente ganhará o Oscar (ou no mínimo será uma forte candidata) por sua participação em Vicky Cristina Barcelona. Mas porque ela agora faz parte de uma categoria muito específica de atores: ela foi coadjuvante em um filme de Woody Allen.
o que por si não quer dizer muita coisa – ou não quereria, a princípio. mas uma espécie de mágica emana daí.
não foram poucas às vezes em que Woody Allen afirmou com todas as letras que sua técnica de direção de atores é interferir o mínimo possível no trabalho deles. disso talvez provenha uma liberdade criativa que bons atores não têm ou não tiveram em outras oportunidades.
resumindo, poderíamos crer – ou concluir – que trabalhando com Woody Allen os atores permitem-se e são permitidos a alçar vôo?
pergunta para a qual não vamos ignorar, naturalmente, a escrita quase sempre impecável de Allen, que cria bons personagens e dá chaves para que esses atores façam o que fazem.
que o diga Dianne Wiest, uma inesquecível coadjuvante em A Rosa Púrpura do Cairo e duplamente vencedora do Oscar (de atriz coadjuvante, é claro, e sob a chancela do diretor): por sua personagem problemática e apaixonante em Hannah e Suas Irmãs e a tempestuosa e reluzente Helen Sinclair, de Tiros na Broadway – personagem-atriz que é reencarnação enviesada da Norma Desmond de Gloria Swanson, Crepúsculo dos Deuses.
mas se ainda resta alguma dúvida, é só conversar com Mira Sorvino, Oscar de atriz coadjuvante por Poderosa Afrodite.
e se a gente nem acredita muito no Oscar, esqueçamos dele, então, e lembremos de Martin Landau em Crimes e Pecados. ou de Michael Caine, mais uma vez em Hannah e Suas Irmãs. Samantha Morton em Poucas E Boas. a inesquecível Elaine May em Os Trapaceiros. Stockard Channing em Igual a Tudo na Vida. ou até mesmo Leonardo Dicaprio ou Bebe Neuwirth em Celebridades.
ou o elenco inteiro coadjuvando-se uns aos outros em Todos Dizem Eu Te Amo. ou Desconstruindo Harry.
ou gente como Diane Keaton ou Judy Davis ou até Mia Farrow (que variaram entre protagonistas e coadjuvantes), sempre presentes.
agora responda: alguma vez Jennifer Tilly fez algo remotamente tão relevante quanto a carreirista burra e estridente de Tiros na Broadway? e a Mariel Hemingway de Manhattan, então? o que se tornou?
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Vicky Cristina Barcelona é um filme que todo mundo gosta porque ele diz e mostra aquilo que todo mundo quer ver. as idéias de liberdade amorosa e os questionamentos sentimentais são compartilháveis por toda a platéia, em maior ou menor grau. mais do que isso, são aspiracionais. e todos nós queríamos estar no verão de Barcelona, ponto.
é um filme extremamente bem urdido em suas idas e vindas e também, e principalmente, na maneira como deixa seus personagens serem quem são. é um filme vivo cuja vida emana das pessoas – elas parecem ser os juízes de suas ações e destinos. é como se Allen existisse em função de ligar a câmera para seus personagens, apesar de, ironica e contraditoriamente, passarmos a trama inteira guiados por um legítimo narrador. não obstante, esse sentimento de livre-fluir que nos chega nutre a experiência cinematográfica de forma bastante substancial.
não, eu pessoalmente não sou completamente enlouquecido pelo filme nem acho que ele seja um dos melhores da carreira do diretor (já que a palavra de ordem é dizê-lo “o melhor dos tempos recentes”, “o melhor dos últimos 10 anos” etc etc). sem dúvida trata-se de seu melhor filme europeu, junto a Match Point, mas sem a pretensão que pode ser incômoda nesse último (onde Allen justamente brinca de deus e as coisas soam muito mais cinematográficas do que humanas).
mas nem sequer é o melhor filme “do ano”. é um filme muito bom. mas que tem lá suas repetições e convencionalidades – que, vale repetir, ficam escondidas em meio à tanta... quentura.
(isso para nem dizer que quando Penélope entra em cena e pede uma vodka, somos dela para sempre. e o filme já ganhou o jogo.)