4.5.09

Londres - dia 3

Um café da manhã americano à moda inglesa (com bacons que parecem presunto).

A impressionante Tate Modern pela manhã, museu que abriga arte do século XX em diante. Galerias organizadas em “temas” de convergência tornam tudo mais palatável e forçam associações ricas e surpreendentes.

A primeira delas, Material Gestures, recepciona o visitante com um quadro de Francis Bacon que encara (e é refletido por) uma escultura de Anish Kapoor. Adiante, a sala "Claude Monet e o Expressionismo Abstrato" coloca uma das imensas telas da última fase do mestre francês diante de um hipnótico quadro de Jackson Pollock – que, aliás, nas plaquinhas explicativas recebe uma rápida análise de um físico comparando suas formas a fractais, na medida em que ambos são estruturas em que as partes reproduzem as formas do todo.

Nesta seção cabe até um cômodo somente de telas pintadas na presente década, mostrando a sobrevivência da pintura e sua reinvenção cooptando novos materiais e absorvendo outras formas de expressão figurativa.

Em Poetry and Dream, o Surrealismo bombardeia o visitante com todas as suas variações, em paredes desnorteantemente repletas de obras. O mais destacável, aqui, fica por conta de uma sala que contrapõe as representações de figuras humanas de Picasso e Francis Bacon.

Se Energy and Process concentra-se na arte que é tudo menos pintura, States of Flux possui a sala mais fascinante de todo o museu. Convivem em um pequeno espaço trabalhos de Matisse, Leger, Cézanne e três telas inebriantes de Bonnar, desde há muito tempo talvez meu pintor preferido. A Tijela de Leite, A Janela e Nu No Banho prendem o olho e o espírito, convidam a um mergulho em suas perspectivas, explodem em cores inacreditáveis.

Saindo da Tate, trem até um bairro mais afastado do centro para um almoço especial reunindo os amigos da irmã, que incluía encontro com uma colega de escola (minha) com quem não conversava adequadamente há mais de 10 anos.

Feriado em Londres, almoço longo, terminado já na hora de pegar o ônibus até o Victoria Theatre, que exibe Billy Elliot – o Musical.

Eu não veria Billy Elliot não fosse a insistência entusiasmada de Fabiana. Cheguei mesmo a maldizer a possibilidade de fazê-lo a alguns amigos, antes de vir. Pois é sem vergonha que confesso ter engolido cada sílaba de meu desprezo apressado.

Billy Elliot é um desbunde e justifica sua existência no palco de forma muito mais pertinente e impactante do que o fazia no cinema. O que na tela era sentimentalismo fácil e pouco atraente, ao vivo torna-se uma manipulação eficiente e empolgante de emoções básicas, aquelas que nos levam a sair de casa e ir ao teatro em primeiro lugar. A produção é aquele feito técnico de costume em grandes produções como essa e a música de Elton John, com letras de Lee Hall é antes funcional do que excepcional.

Mas os números musicais coreografados ficam no balanço perfeito entre a empolgação irresistível, a pieguice emocionante e os momentos de mágica cênica.

Mas é necessário dizer que Srta. Wilkinson, a professora de balé, convencendo Billy a dançar (enquanto os grevistas confrontam a polícia), a avó de Billy contando a ele como era a vida com o avô, Billy e seu amigo Michael permitindo-se ser autênticos em roupas femininas e protagonizando um delicioso momento de sapateado, Billy e a professora lendo a carta da falecida mãe do garoto, Billy expressando sua mais sincera e profunda ira contra a repressão familiar através de uma sufocante dança que inicia-se solo e desdobra-se em confrontos metafóricos com um batalhão de choque, Billy criança literalmente alçando vôo em companhia de Billy adulto, num palco onírico tomado pelo balé clássico, Billy explicando (com musica e dança, é claro) para o júri de seu teste o que o ballet significa para ele, enfim, nenhum dos muitos ótimos momentos que fazem a peça valer a pena seriam o que são não fosse a embasbacante preparação e talento do elenco, em especial o infantil.

Um entre quatro garotos que se revezam no papel título, Brad Wilson tem as capacidades e o carisma de um profissional. Pense no mais assolador desempenho infantil que você já viu no cinema (Anna Paquin em O Piano? Jamie Bell, como o próprio Billy Elliot?). Agora imagine que Wilson, do alto de seus 12 anos, o realiza no palco, por três consecutivas horas, sem cortes. Canta, dança magnificamente e interpreta. Põe a platéia no bolso de uma forma que soa exagerada na mesma medida em que soa desconcertante.

Como o amigo do protagonista, George Maycock, acredite se quiser, é um comediante que domina o tempo, a auto-ironia e a cena. Igualmente leva o público na mão (e em suas tiradas impagáveis). E ele tem 11 anos (!).

No mais, é destaque a Sra. Wilkinson de Kate Graham, à frente de um elenco inteiro sem falhas.

Billy Elliot – o Musical, a primeira peça vista em Londres, é, em suma, um grande acerto. Sair sapateando pelo metrô e ter vontade de revê-la no dia de amanhã são medidas claras (e quase físicas) de suas qualidades.

É o que os ingleses chamariam de “riveting!” – e eles realmente chamam.

2 comentários:

Unknown disse...

Eu disse que devia ser emocionante ver Billy Elliot! Ainda bem que a Fabi tá aí pra te convencer!

pm disse...

fabiana, te amo! billy elliot é incrivel e me arrependo horrores de não ter visto.