23.12.09

Nova York - dia 4: Círculo, Espelho, Transformação

domingo em Nova York é dia de peças. duas.

mas antes, Guggenheim Museum, que abriga uma extasiante exposição de Kandinsky - de quem já estávamos nos sentindo íntimos depois da mostra sobre a Bauhaus, no MoMa.

a rotunda inteira do museu é tomada por telas do artista russo, mapeando com clareza elucidativa e desbunde estético seu caminho até a abstração e pelos meandros dela.

dizem sobre o Guggenheim que ele rivaliza (ou às vezes obscurece) com as obras que expõe, dada a opulência de sua arquitetura. mas definitivamente esse não é o caso aqui. primeiro porque trata-se de um conjunto de pinturas não só tão exuberantes quanto as curvas de Frank Lloyd Wright, mas aparentemente, segundo os textos informativos, inspirador delas - o corpo da obra de Kandisnky é motivo ao redor do qual orbitou a contrução do atual prédio do museu.

no mais, ver o derramamento cromático das telas no formato "curva", podendo olhar para uma série delas - através do vão central, para o lado diametralmente oposto ao que se está - e percebê-las evolutivamente, é uma das delícias de existir um espaço expositor como esse.

(e viva a arquitetura - não é não, Thereza?!)

completam a visita uma das fascinantes instalações-escultura de Anish Kapoor, intitulada Memória, e a pequena parte do acervo do museu que se encontrava exposta.

*


Circle Mirror Transformation é uma peça com a qual eu topei por acaso, pesquisando a temporada teatral nova-yorquina, alguns meses atrás. a princípio ela encerraria sua exibição antes que eu chegasse à cidade e, interessado por saber como se desenvolvia a premissa que havia me chamado a atenção, procurei mesmo saber se o texto estava disponível editado em livro.

eis que a montagem ganhou uma nova temporada e eu tratei de comprar ingressos assim que soube.

em um teatro pequeno, a "sala B" de pouco mais de cem lugares na sede da Playwright Horizons - uma fascinante organização que subsidia a escrita e encenação de novas peças de dramaturgos norte-americanos - esse espetáculo inédito de Annie Baker apresenta cinco personagens que convivem durante uma série de workshops de atuação, no Centro Comunitário de uma pequena cidade do interior.

dois homens em torno dos 50 anos, uma mulher de 35, uma garota de 16 e a professora, também por volta dos 50, expõe suas personalidades e vidas enquanto fazem jogos teatrais: exercícios de corpo, memória, imaginação e improviso, entre outros, típicos de qualquer aula básica dessa melíflua e sedutora arte que é a do ator.

ao contrário do que possa parecer, no entanto, não se trata de "piada interna", de uma peça para iniciados: em um texto preciso e límpido, tão simples quanto envolvente e rasgadamente bem humorado, com um nível de inteligência dramática bastante alto, Annie Baker acerta no alvo e acerta em todo mundo.

trata-se de pessoas, afinal, em seus desejos e contradições mais elementares e previsíveis, mas retratadas sob uma moldura espertamente escolhida e cuidadosamente manufaturada para dar sustentação e a força ao espetáculo.

evidente que o elenco homogêneo e completamente sem erros - com destaque pessoal para a adolescente de Tracee Chimo e a professora de Deirdre O'Connell (a esposa de Tom Wilkinson, ou Dr Mierzwiak, em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) -, capaz de corporificar personalidades tão especiais em sua normalidade, é a alma da montagem. os corpos são perfeitos, as vozes são perfeitas, os tempos são perfeitos.

há que se creditar também, nesse tocante, a direção prática e pontual de Sam Gold, colocada a serviço da engrenagem sem precisar chamar atenção para si de forma artificiosa. ou, antes, destacando-se justamente por tornar o desenrolar narrativo orgânico e eficientemente natural.

a meu lado, na cadeira grudada, Peter Dinklage o ator anão festejado por seu papel em O Agente da Estação, de 2004, gargalhava sonoramente.

Circle Mirror Transformation é isso: uma comédia irresistível e um drama sutil e comedido, delicadamente honesto e fiel em sua observação da vida. teatro tradicional, novo e bom.

(e após os calorosos aplausos, descendo as escadas para a rua, tudo o que eu conseguia pensar era qual será o elenco quando eu montar a peça em São Paulo...)

*


algum consumismo e passeio pelo meio do caminho e no fim da tarde já era hora de Mary Poppins, uma extravagância, pura confeitaria, doce (e nutritivo) como açúcar. entrega o que promete e não é para outra coisa senão isso que centenas de pessoas lotam o belíssimo New Amsterdan Theater: escapismo, opulência visual e catarse.

meu pai e minha madrasta, que me acompanhavam nessa, não deixam dúvida:
- isso aqui é Broadway pura!, afirmam.

é exatamente isso. os cenários se sucedem, os efeitos de cena se sucedem, a artilharia cenográfica se sucede, a direção de arte e o figurino transbordam em dinheiro (e em precisão, senão necessariamente inventividade), os atores cantam, atuam e sapateiam (até mesmo no teto) sem brilho mas sem desapontar e, sim, Mary Poppins voa.

quer dizer, o que mais se pode querer?





PS:
talvez o ótimo jantar que se seguiu, no duas-estrelas-pelo-Michelin Del Posto. cortesia dos cultivados gostos gastronômicos de Sergio e Rose, é claro.

Um comentário:

p disse...

talvez com s?

cara, como eu sou chata.